quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O exterminador do futuro - 1984



Por Jason

Esse clássico da ficção abre com uma Los Angeles de 2029, soterrada de escombros e dos esqueletos de sua população. Máquinas atiram e bombas explodem por todos os cantos. Um letreiro pouco informa sobre o que aconteceu para chegarmos ali, até que voltamos ao presente, quando duas figuras surgem do nada na Los Angeles atual. Uma destas figuras é ameaçadora, na pele musculosa de Arnold Schwarzenegger, e o outro, Michael Biehn, está desorientado e é perseguido pelos policiais.

Esse prólogo dá uma ideia de como James Cameron trabalhará seus personagens e nos diz muito sobre sua forma de filmar que seria visto mais tarde em quase todos os seus filmes. A violência do filme é crua (como em Aliens, em True Lies, ou Avatar), mas nunca é totalmente exposta, nem sanguinolenta e muito mais sugestiva do que se pode crer. Na primeira vítima, a câmera corta logo após o disparo, que o robô assassino, mirando na cabeça de uma Sarah Connor, o faz com frieza - e a inexpressão de Arnold acaba ajudando a compor um personagem que marcou sua carreira. 

Cameron sabe filmar suas máquinas, seja no futuro pessimista por ele imaginado, seja no presente do filme: num pequeno truque de câmera, por exemplo, o que parece ser um maquinário pesado do futuro se revela ser um caminhão de lixo. Mais adiante, quando o herói Kyle tem um pesadelo, um corte banal troca uma escavadeira por um tanque do futuro (e é possível notar takes e posições de câmera semelhantes como outros de O segredo do abismo, Avatar ou Aliens, por exemplo). É possível notar que desde aquela época, os roteiros de Cameron são simples e esquemáticos: conhecemos os personagens aos poucos e não sabemos das ligações entre eles até que uma cena chave une todos eles: no caso aqui, a junção dos personagens acontece dentro de uma discoteca, com Sarah Connor escapando por pouco da morte - assim como Rose escapa do suicídio por causa de Jack em Titanic, John Connor escapa da morte pelo robô assassino em Terminator 2 ou Jake Sully escapa da morte na floresta por causa de um aviso recebido por Neytiri. Morte é fator decisivo para unir pessoas na concepção de Cameron.

A diferença aqui está na heroína. A Sarah Connor de Terminator difere de mulheres fortes já estabelecidas em sua filmografia, de Ellen Ripley a Neytiri, passando por Terminator 2Sarah é uma mulher desengonçada, que em nada lembra a Sarah do segundo filme da série. Trabalha em uma lanchonete, é solitária e ingênua. É quando se vê envolvida em uma trama que envolve a viagem no tempo de um ciborgue assassino, destinado a matá-la porque ela dará a luz a John Connor, o líder da resistência contra as máquinas no futuro que vimos no começo. O soldado Kyle Reese é enviado também ao passado, o presente de 1984, para cuidar de Sarah e impossibilitar que o futuro seja alterado. É ele que vai ensiná-la a ser forte, a se virar sozinha e a lutar contra o futuro pessimista. Nesse contexto, o próprio nascimento de Connor, salientado ao final do filme, é, se não, a maior e mais genial sacada do roteiro - John nasceu no passado, mas é fruto de um homem do futuro, o próprio homem que ele enviou ao passado para proteger sua mãe - e Cameron representa o elo entre Sarah, Kyle e John de forma brilhante - através de uma fotografia.
  
Terminator custou uma mixaria, pouco mais de 150 mil dólares na época, mas arrecadou dez vezes mais seu orçamento só nos cinemas, sem contar o mercado de Home Video e nos licenciamentos para outras mídias que o transformaram numas das marcas mais rentáveis do cinema, e um dos filmes mais rentáveis de todos os tempos. O público pode reclamar de James Cameron, ou subestimá-lo, mas se há uma coisa em que ele se sobressai a maioria dos diretores é na criação de uma atmosfera realista e no uso de efeitos. Mesmo com orçamento tão baixo, os efeitos especiais são tão bem usados por Cameron que  não prejudicam o filme mesmo visto hoje. Da maquiagem de Arnold, com metade da cara robótica exposta, passando pelo boneco robô que tem a sua cara, pela visão do robô (um recurso criativo), os escombros do futuro, a morada dos humanos que vivem como ratos, até o próprio esqueleto robótico do exterminador em sua perseguição assassina, animado pelo falecido mestre Stan Winston, tudo é de encher os olhos. As sequências de ação, mesmo com um fundo falso ou um boneco dublê escapando aqui e ali, ainda funcionam perfeitamente e o ápice vem nos vinte minutos finais, com uma carreta tanque desgovernada pilotada pelo robô.

No campo das atuações, Linda Hamilton consegue transpor facilmente todas as camadas da personagem, embora sem o desempenho furioso e marcante do segundo filme. Michael Biehn, cuja carreira não decolou por causa do gênio difícil e falta de maior talento dramático, faz o papel de herói típico dentro do gênero. O filme ainda tem Bill Paxton em participação e Lance Henriksen, o Bishop de Aliens. O destaque, contudo, é Arnold. Truculento, monossílabo, de andar robótico, Arnold É o exterminador do futuro, num desses casos em que ator e personagem se fixaram de tal maneira um com o outro que é impossível dissociá-los. Completam o pacote a trilha sonora marcante de Brad Fiedel, que consegue criar um tema de amor entre Sarah e Kyle se usando das notas pesadas do tema principal do filme. 

O ruim é sabermos que o filme gerou uma sequência excelente, O julgamento final, mas seus direitos correram para mãos de pessoas incapazes, que criaram a terrível continuação A rebelião das máquinas e o desastroso Terminator Salvation. Já há uma continuação anunciada para 2015 que deve contar com a volta de  Arnold Schwarzenegger como exterminador nesse e em mais dois filmes, com uma história totalmente isolada dos outros. Como visto, enquanto a marca render dinheiro por si só e estiver nas mãos erradas, o sofrimento dos fãs da série está longe de acabar.

Cotação: 5/5

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