sábado, 26 de outubro de 2013

O mestre - 2012



Por Jason

Em O mestre, Joaquin Phoenix interpreta Freddie, um alcoólatra perturbado mentalmente que, depois da Segunda Guerra, tenta se encontrar de qualquer forma no mundo. Dispensado da Marinha junto a um contingente que não sabe o que fazer, Freddie tenta ser fotógrafo, mas acaba se arruinando ao agredir um cliente. Vai para o campo colher repolho, mas acaba expulso de lá como um marginal acusado de envenenar um homem. Em seu caminho, ele encontra Lancaster Dodd (Hoffman), fundador de uma religião chamada "A Causa". 

Lancaster vê, com olhos gulosos, uma oportunidade de praticar seus preceitos religiosos em uma figura tão conturbada como Freddie. Por trás das intenções, de exorcizar os demônios de Freddie, há a vontade de popularizar e provar que suas teorias, seus conceitos religiosos e métodos estranhos (que incluem festas com mulheres nuas, meditação, hipnose e regressão), estão corretos. Há também problemas com a polícia em suas ações misteriosas - Lancaster acaba preso por apropriação ilícita -, encenações arquitetadas para atrair público e divulgação, já que os integrantes da seita passam a ser treinados para que "A causa" se popularize.

Na pele de Hoffman, um ator de calibre, Lancaster se torna um personagem tátil, real, camuflado na pele de um líder do culto que é ao mesmo tempo uma pessoa carismática, que sabe falar ao público e entreter, mas que esconde dentro de aparências suas reais intenções e ações duvidosas. Ao ser questionado os seus métodos, em uma sessão no meio de alta sociedade, acompanhada de perto por uma plateia facilmente influenciável, ele perde a cabeça por não conseguir provar ter razão (questionamentos não são aceitos por ele). A própria prisão acaba por revelar outra postura duvidosa dele. Pelo trabalho, Hoffman conseguiu merecidamente indicação ao Oscar. Já Amy Adams é a coadjuvante que pouco tem a fazer na trama. É a personagem alienada, a esposa influenciada (Deus sabe como ela foi parar numa indicação ao Oscar pelo filme). Laura Dern, ótima atriz mas nunca aproveitada, é relegada à rápidas participações. 

O destaque do filme é Phoenix, que tem aqui uma atuação sobrenatural. Seu Freddie é uma pessoa antissocial, uma figura apática de andar torto e por vezes bizarra e vazia. É um homem que mantinha relações sexuais com a tia, se envolveu com uma menina menor de idade, o pai morreu em virtude do alcoolismo e a mãe era psicótica, terminando sua vida em um hospício. Ao se relacionar com o culto, ele acaba tendo uma relação de amor e de ódio com Lancaster, que vai culminar em uma excelente cena na delegacia em que é preso com o líder. Ora ele parece ver em Lancaster uma saída para o seu sofrimento, ora ele tem vontade de descontar toda a raiva por sua vida destrambelhada sobre o líder (e sobre todo mundo ao redor). Phoenix consegue passar todas as camadas do personagem, seja na forma como fala, de maneira arrastada, quase que bêbado durante vinte e quatro horas por dia, seja nos gestos, desengonçados e nos acessos de fúria. Sem Phoenix, a trama não se sustentaria e o filme não seguraria o espectador até o fim.

Todo o filme é um primor de técnica, de fotografia, cenários, direção, etc, mas O mestre não é destinado a todo mundo. Tem um ritmo reflexivo, contemplativo, que não agrada a todo tipo de público. A partir da meia hora final, o filme parece perder um tanto a capacidade de despertar interesse no espectador. A cena que antecede o final, no entanto, com a arrogância de Lancaster de um lado da mesa, tal qual o dono do mundo, ante a fragilidade e o aspecto doentio de Freddie do outro, nos revela não só a perda do verdadeiro sentido do culto, mas descortina uma interessante metáfora sobre toda e qualquer religião - e o quanto elas podem ser nocivas a qualquer ser humano, seja ele um desajustado como Freddie ou não. 

Cotação: 3,5/5

TRAILER

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