segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O padre - 1994



Por Jason

O padre Greg é mandado a uma paróquia para substituir um antigo religioso. O pároco que o recebe, interpretado pelo ótimo Tom Wilkinson, no entanto, mantém um relacionamento com sua empregada, o que lhe causa surpresa. Mesmo sabendo disso, Greg evita falar de si - e esconde sua condição homossexual: a noite, sai para a balada gay e acaba se envolvendo com um homem, com quem passa a manter um relacionamento amoroso. 

A partir daí, esse parecia ser o grande mote do filme, mas ele acaba metendo o dedo na ferida de um monte de assuntos. Há temáticas como a do celibato, questões sobre a ignorância e a cegueira que a fé é capaz de causar e dos problemas que advém do voto de confissão que acaba deixando o padre Greg angustiado ao saber de um pai que abusa sexualmente da própria filha - e, paralelo a isso, o filme questiona a posição de Deus entre os homens, numa jogada de cena em que o padre está rezando enquanto a menina sofre os abusos e é descoberta pela mãe. Esse é, aliás, um dos motivos pelos quais Greg passa a questionar não apenas sua fé mas sua posição na igreja - muito mais que a sua posição de homossexual diante da sociedade e do catolicismo.

É de se louvar o fato de que, diante de tantos temas a serem debatidos dentro do filme, envolvendo a igreja, o filme retrate a homossexualidade de Greg de uma maneira que beira a "normalidade" e esse contraste é um ponto mais interessante no filme. Normalidade porque o romance que se desenvolve entre ele e o namorado, nota-se, parece saído de um romance heterossexual convencional, com direito a música romântica ao fundo e beijos ao ar livre, na praia (e estamos em um filme sobre um padre que esconde sua vida privada do restante da população para não cair no desagrado dela). 

Curioso ver, por exemplo, que a cena de sexo entre os dois homens é suave, sensual, mas que não é apelativa. O casal parece ser assim a representação do amor proibido, idealizada pelo roteiro, talvez, como uma forma de gritar para o espectador que toda forma de amor verdadeira é válida, independente de credo, sexo, cultura, religião, etc dos envolvidos. Esse amor vai de encontro ao que é pregado na igreja mas, mais do que isso, acaba por levantar a questão sobre o que pode ser considerado pecado e o que não pode nesse mundo. Por outro lado, se há um questionamento sobre o pecado de Greg em ser o que é, o pai abusador traz uma figura caricatural, unidimensional, que por si só é grotesca, com gestos e forma de falar que o denunciam claramente. É a representação do mal, sem possibilidade de purificação, seja aos olhos da igreja, de Greg, da vítima ou da população.

Isso faz de O padre um filme interessante. Sua abordagem causou polêmica na época em festivais e dividiu opiniões. A direção, embora convencional, é bem calibrada e as atuações são precisas (Tom Wilkinson é maravilhoso). Pesa contra ele o fato de que parece durar mais do que realmente dura. A parte dramática só ganhará notoriedade a partir do momento em que Greg é pego com o namorado por um policial, enquanto está se relacionando dentro do carro, quando a fé da população local na figura do jovem padre começa a se abalar e sua carreira definhar. O final, com a enorme fila para receber a hóstia do pároco e a menina abusada que decide por recebê-la de um padre cheio de "pecados", embora comovente, soa como clichê em um filme que não precisava disso para ser acima da média.

Cotação: 4/5

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