sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Pra virar filme... ou não! - Conan - A torre do elefante, de Robert E. Howard (Parte 1 de 5)



Capítulo 1

Tochas tremeluziam sombriamente nas festas do Marreta, onde os ladrões do Leste faziam carnaval à noite. No beco, eles podiam fazer quanta algazarra e gritaria quisessem, pois as pessoas honestas evitavam este bairro, e os guardas, bem pagos com dinheiro sujo, não interferiam na diversão deles. Ao longo das ruas tortuosas e sem pavimentação, com montes de lixo e poças lamacentas, cambaleavam e vociferavam os bêbados briguentos. O aço brilhava nas sombras de onde vinha o riso estridente das mulheres e os ruídos de arruaça e luta. A luz das tochas flamejava tênue das janelas quebradas e portas escancaradas, e emanava o mau cheiro do vinho azedado e de corpos suados, o clamor de bêbados e o bater de punhos sobre mesas grosseiras, as animadas canções obscenas, lançadas como uma bofetada.

Numa dessas espeluncas, a diversão trovejava até o telhado baixo manchado pela fumaça, onde os vagabundos se reuniam vestidos com toda espécie de farrapos – eram batedores de carteira, astutos raptores, ladrões de dedos ligeiros, vociferando exclamações animadas com suas meretrizes de vozes estridentes, vestidas com suntuosos vestidos de gosto duvidoso.

O elemento dominante eram os vagabundos do lugar – zamorianos de pele e olhos escuros, com sabres em seus cintos e fel em seus corações. Mas lá estavam também alguns lobos vindos de meia dúzia de nações do interior. Havia um gigante hiperbóreo renegado, taciturno, perigoso, com uma espada amarrada a seu enorme corpanzil terrível – pois, no Marreta, os homens carregavam o aço abertamente. Havia um contraventor shemita, com seu nariz adunco e barba encaracolada negro-azulada. Havia uma prostituta brituniana de olhos ousados sentada no colo de um gunderlandês de cabelos castanhos – um soldado mercenário nômade, desertor de algum exército derrotado. E o gordo indecente, cujas piadas picantes provocavam gargalhadas, era um raptor profissional vindo da longínqua Koth para ensinar como raptar as mulheres dos zamorianos, que nasceram com mais conhecimento sobre essa arte do que jamais ele conseguiria obter. Este homem interrompeu sua descrição dos encantos de uma futura vítima e enfiou sua cara num enorme caneco de cerveja espumante. Em seguida, soprando a
espuma de seus lábios gordos, disse:

- Por Bel, deus de todos os ladrões, eu lhes mostro como roubar prostitutas; eu a farei passar pela fronteira zamoriana antes de amanhecer, e haverá uma caravana esperando para recebê-la. Trezentas peças de prata foi o que um conde de Ophir me prometeu em troca de uma esguia jovem brituniana da classe mais alta. Levei semanas andando pelas cidades fronteiriças, disfarçado de mendigo, para encontrar uma que servisse. E essa é uma linda peça!

Ele jogou no ar um beijo obsceno.

- Conheço alguns lordes de Shem que negociariam o segredo da Torre do Elefante em troca dessa jovem – disse, voltando à sua cerveja.

Um toque na manga de sua túnica o fez voltar a cabeça, resmungando por ter sido interrompido. Em pé ao seu lado estava um jovem alto e robusto. Este estava tão deslocado naquela espelunca quanto um lobo cinzento entre ratos famintos nos bueiros. Sua túnica barata não conseguia esconder as linhas duras, bem proporcionadas de sua estatura poderosa, os ombros largos e pesados, o peito maciço, a cintura delgada e os braços pesados. Sua pele estava tostada pelo sol dos campos, seus olhos eram azuis e ardentes; uma negra cabeleira emaranhada coroava sua fronte larga. Do seu cinturão pendia uma espada numa bainha de couro surrado.

O kothiano recuou involuntariamente; pois o homem não pertencia a nenhuma raça civilizada que ele conhecia.

- Você falou da Torre do Elefante – disse o estranho, falando o zamoriano com um sotaque estrangeiro – Ouvi muitas histórias sobre a torre. Qual é seu segredo?

O camarada não parecia ameaçador; a cerveja e a audiência deixaram o kothiano todo cheio de si.

- O segredo da Torre do Elefante? – exclamou – Ora, qualquer idiota sabe que Yara, o sumo sacerdote, mora lá com uma grande pedra preciosa chamada Coração do Elefante, que é o segredo de sua feitiçaria.

O bárbaro ficou digerindo a informação por algum tempo.

- Eu vi essa torre – disse ele – Ela fica no meio de um grande jardim a um nível acima da cidade, cercada por muros altos. Não vi nenhum guarda. Seria fácil pular o muro. Por que ninguém ainda roubou essa joia?

O kothiano arregalou os olhos e abriu a boca, pasmo com a simplicidade do outro; em seguida caiu numa gargalhada, e os outros o acompanharam.

- Ouçam este pagão! – vociferou ele – Ele quer roubar a jóias de Yara! Ouçam, camaradas. – disse ele, voltando-se solenemente para o jovem – Suponho que você seja alguma espécie de bárbaro do Norte...

- Sou da Ciméria – respondeu o estrangeiro, num tom nada amistoso.

A resposta e a maneira como ela foi dita pouco significavam para o kothiano; de um reino que ficava bem ao sul, nas fronteiras de Shem, ele só ouvia falar vagamente nas raças do norte. 

- Então abra os ouvidos e fique esperto, camarada – disse ele, apontando com seu caneco para o jovem desconcertado – Saiba que em Zamora, principalmente nessa cidade, existem mais ladrões destemidos do que em qualquer outro lugar do mundo, mesmo em Koth. Se um mortal pudesse roubar a jóia, tenha a certeza que ela já teria sido roubada há muito tempo. Você fala em pular o muro, mas uma vez tendo pulado, você desejaria imediatamente estar de volta. Não existem guardas no jardim por uma razão muito boa: lá não há guardas humanos, embora na parte baixa da torre, homens armados a vigiem. E, mesmo se você passasse por aqueles que fazem a ronda dos jardins à noite, ainda teria de passar pelos soldados, pois a joia está guardada em algum lugar, bem lá no alto da torre.

- Mas, se um homem conseguisse passar pelos jardins – argumentava o cimério –, por que não poderia chegar até a joia pela parte superior da torre, evitando assim os soldados?

Novamente o kothiano ficou pasmado com ele.

- Ouçam este camarada! – gritou ele com escárnio – O bárbaro pensa que é uma águia que pode voar até a borda da torre, que está apenas a quarenta e cinco metros acima do solo, com seus lados arredondados mais lisos que vidro polido!

O cimério olhou ao redor, embaraçado com a trovoada de gargalhadas que a sua observação provocara. Ele não via nada de engraçado nisso, e ainda conhecia pouco da civilização para entender o que era falta de cortesia. Os homens civilizados são mais mal educados que os selvagens, porque eles sabem que podem faltar com a cortesia sem ter o crânio despedaçado. Ele estava embaraçado e envergonhado e, sem dúvida, teria ido embora, sentindo-se humilhado, mas o kothiano quis continuar a rebaixá-lo.

- Vamos! Vamos! – gritou ele – Diga pra esses pobres camaradas, que são ladrões há muito, mesmo antes de você ter sido gerado, diga pra eles como você pretende roubar a joia.

- Existe sempre uma maneira, se a vontade estiver associada à coragem – respondeu abruptamente o cimério irritado.

O kothiano resolveu tomar isso como uma afronta pessoal. Seu rosto ficou rubro de raiva.

- O quê? – esbravejou ele – Você ousa nos dizer como devemos proceder e insinua que somos covardes? Suma da minha frente! – esbravejou, empurrando o cimério com violência.

- Você zomba de mim e depois quer pôr as mãos em mim – esquentou-se o bárbaro, pronto para despejar sua fúria; e devolveu o empurrão com um soco que jogou seu ofensor contra a mesa tosca. A cerveja espirrou da boca do tratante, e o kothiano foi desembainhando a espada, trovejando de fúria.

- Cão do inferno! – vociferou ele – Vou arrancar seu coração por isso!

O aço faiscou, e a multidão precipitou-se abrindo caminho. Em sua fuga, eles derrubaram a única vela acesa e a taverna mergulhou na escuridão. Só se ouvia o ruído de bancos caídos, o trotar de pés em fuga, os gritos, as pragas quando trombavam uns com os outros e um grito estridente de agonia que cortou a espelunca como uma faca.

Quando acenderam uma vela, a maioria dos fregueses havia desaparecido pela porta e pelas janelas quebradas, e o resto se escondia embaixo das mesas e atrás das pilhas de barris de vinho. O bárbaro se fora; o centro da sala estava deserto, com exceção do corpo ensanguentado do kothiano. O cimério, com seu infalível instinto selvagem, havia matado seu oponente em meio à escuridão e confusão.

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