sábado, 12 de outubro de 2013

Pra virar filme... ou não! - Conan - A torre do elefante, de Robert E. Howard (Parte 2 de 5)



Capítulo 2

O cimério deixou para trás as luzes lúgubres e a orgia de bêbados. Ele tinha abandonado a sua túnica rasgada e caminhava seminu pela noite, vestido apenas com uma tanga e calçado com suas sandálias de tiras. Ele se movia com a agilidade de um enorme tigre, com seus músculos retesados sob a pele escura.

Ele havia penetrado na parte da cidade reservada aos templos. De todos os lados, eles refletiam sua brancura à luz das estrelas – pilares de mármore branco como a neve, cúpulas douradas e arcos prateados, santuários dos inúmeros e estranhos deuses zamorianos. Não se preocupava com eles; sabia que a religião de Zamora, como todas as coisas de um povo civilizado e antigo, era muito complicada e tinha perdido a maior parte da essência primordial, numa confusão de fórmulas e de rituais. Ele havia ficado de cócoras durante horas nos pátios dos filósofos, ouvindo as discussões dos teólogos e dos mestres, e acabara confuso e desorientado, certo apenas de uma coisa, isto é, que todos eles eram malucos.

Os deuses dele eram mais simples e compreensíveis; Crom era o chefe, e vivia numa montanha enorme, de onde enviava destruição e morte. Era inútil chamar por Crom, porque ele era um deus sinistro e selvagem, e odiava os fracos. Mas ele dava coragem ao homem por ocasião de seu nascimento, e a vontade e o poder para matar seus inimigos, o que, na cabeça do cimério, era tudo o que se esperava de um deus.

Seus pés calçados não faziam ruído sobre o pavimento reluzente. Nenhuma sentinela passava, pois nem mesmo os ladrões do Marreta invadiam os templos, onde se sabia que maldições estranhas recaíam sobre os violadores. À sua frente, ele vislumbrou a Torre do Elefante, cuja silhueta tenebrosa se destacava no céu. Ele se perguntava por que aquela torre se chamava assim. Ninguém sabia. Jamais havia visto um elefante, mas entendia vagamente que era um animal monstruoso, que tinha uma cauda na frente e outra, pequena, trás.

Quem lhe contara isto fora um shemita nômade, jurando que havia visto milhares desses animais no país dos hirkanianos; mas todos sabiam como eram mentirosos esses homens de Shem. De qualquer forma, não havia elefantes em Zamora. A torre erguia-se como gelo ao encontro das estrelas. À luz do sol, reluzia de maneira tão estonteante que poucos agüentavam olhar para ela, e os homens diziam que era feita de prata. Era redonda, um cilindro delgado e perfeito, com quarenta e cinco metros de altura, e sua borda incrustada com enormes pedras preciosas brilhava à luz das estrelas. A Torre se erguia entre as exóticas árvores ondulantes de um jardim cultivado bem acima do nível geral da cidade. Um muro alto circundava esse jardim, e fora dos muros havia um nível inferior, também cercado por um muro. Nenhuma luz ardia na Torre; parecia que ela não tinha janelas, ao menos não acima da altura no muro interno. Bem mais acima, somente as pedras preciosas reluziam geladas à luz das estrelas.

Um matagal espesso crescia do lado de fora do muro externo, mais baixo. O cimério arrastou-se furtivamente até a barreira e parou, medindo-a com o olhar. Era alta, mas ele seria capaz de pular e se
agarrar na beirada. Depois, seria brincadeira de criança içar-se e pular por cima do muro, e ele não duvidava que pudesse passar pelo muro interior da mesma maneira. Mas Conan hesitava ao pensar sobre os estranhos perigos que se dizia que o aguardariam do lado de dentro. Essas pessoas eram-lhe estranhas e misteriosas; não pertenciam a sua espécie – nem mesmo eram do seu sangue, como os britunianos mais a oeste, os nemédios, os kothianos e os aquilonianos, cujos mistérios civilizados o haviam assombrado no passado. O povo de Zamora era muito antigo e, pelo que tinha visto, muito mau.

Ele pensou em Yara, o sumo sacerdote, que elaborava estranhas destruições nessa torre ornamentada, e os cabelos do cimério se eriçaram quando ele se lembrou de uma história contada por um pajem embriagado da corte zamoriana – de como Yara, rindo na cara de um príncipe hostil, erguera uma pedra preciosa reluzente e maléfica diante dele, e de como essa pedra infernal emitira raios ofuscantes que envolveram o príncipe, que caiu aos berros e se encolheu até virar um montículo seco e enegrecido; depois esse montículo se transformou numa aranha negra que, após correr selvagemente pelo salão, foi terminar esmagada sob o calcanhar de Yara.

Yara não costumava sair de sua torre de feitiços, e sempre que o fazia era para fazer o mal para algum homem ou alguma nação. O rei de Zamora tinha mais medo dele do que da morte, e se mantinha embriagado a maior parte do tempo, porque este medo era tão grande que só podia agüentá-lo neste estado de torpor. Yara era muito velho – tinha séculos de idade, assim diziam os homens, acrescentado que iria viver para sempre por causa do feitiço de sua pedra preciosa, que os homens chamavam de Coração do Elefante; por essa razão, chamaram o seu refúgio de Torre do Elefante.

O cimério, absorto nesses pensamentos, de repente se colou ao muro. Havia alguém caminhando a passos medidos dentro do jardim. Ouviu o tilintar do aço. Então, afinal, havia de fato guardas naquele jardim. O cimério esperou pelos seus passos na ronda seguinte; mas o silêncio se estendia sobre os jardins cheios de mistério. Finalmente, a curiosidade tomou conta dele. Saltando com leveza, agarrou o muro e se jogou no topo. Deitado sobre a beirada larga, observou o espaço vazio entre os muros, com apenas alguns arbustos cuidadosamente aparados perto do muro interno. A luz das estrelas caía sobre o gramado regular e ouvia-se o borbulhar de uma fonte invisível.

O cimério se abaixou cautelosamente para o lado de dentro e desembainhou a espada, olhando ao redor. Nervoso por estar desprotegido à luz das estrelas, caminhou pé ante pé ao longo da curva do muro, tateando, até se aproximar dos arbustos que havia notado antes. Então, correu agachado em sua direção e quase atropelou um vulto deitado à beira dos arbustos. Uma rápida olhada à direita e à esquerda não revelou nenhum inimigo – pelo menos à vista – e ele se curvou para investigar. Seus olhos vivos, mesmo na penumbra, mostraram-lhe um homem robusto vestido com a armadura prateada e com o capacete em pontas da guarda real de Zamora. Um escudo e uma lança jaziam a seu lado, e num instante percebeu que o homem havia sido estrangulado. O bárbaro olhou ao redor, indeciso. Ele sabia que o homem devia ser o guarda que ele havia escutado passar por seu esconderijo ao lado do muro. Nesse curto intervalo, mãos desconhecidas haviam estrangulado o soldado.

Forçando os olhos na penumbra, viu um indício de movimento nos arbustos perto do muro. Mergulhou naquela direção, segurando a espada com força. Não fez mais ruído do que uma pantera esgueirando-se pela noite e, no entanto, o homem que ele estava
espreitando o ouvira. O cimério sentiu alívio ao perceber que pelo menos era um ser humano; em seguida, num sobressalto de pânico, o camarada deu um rápido giro, fez menção de se lançar para a frente, as mãos cerradas, mas quando a lâmina do cimério reluziu à luz das estrelas, recuou. Por um tenso instante nenhum deles falou, os dois prontos para qualquer coisa...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...