domingo, 13 de outubro de 2013

Pra virar filme... ou não! - Conan - A torre do elefante, de Robert E. Howard (Parte 4 de 5)



Capítulo 4

Eles deslizaram pelos arbustos até o pé da torre reluzente, e ali, com um gesto pedindo silêncio, Taurus desenrolou sua corda de nós, que tinha em uma das extremidades um forte gancho de aço. Conan percebeu seu plano e não fez perguntas, enquanto o nemédio agarrava a corda um pouco abaixo do gancho e começava a girá-la acima da cabeça. Conan colou o ouvido no muro liso, mas não ouvia nada. Evidentemente os soldados que estavam dentro não suspeitavam da presença de invasores, que não faziam mais barulho do que o vento noturno soprando entre as árvores. Mas um nervosismo estranho tomou conta do bárbaro; talvez fosse o cheiro de leão que predominava no local.

Taurus jogou a corda com um movimento poderoso e suave de seu braço musculoso. O gancho curvou-se pra cima e para dentro, de uma maneira peculiar, difícil de descrever, e desapareceu por cima da borda ornamentada. Aparentemente, se firmou bem, pois os puxões vigorosos não o tiraram do lugar.

- Sorte no primeiro arremesso! – murmurou Taurus – Eu...

Foi o instinto selvagem de Conan que o fez girar abruptamente; pois a morte que estava sobre eles aproximara-se em total silêncio. Um relance instantâneo mostrou ao cimério a gigantesca forma escura, erguendo-se contra as estrelas, prestes a desferir o golpe mortal. Nenhum homem civilizado poderia ter se movido com a metade da rapidez do bárbaro. Sua espada relampejou como gelo à luz das estrelas, impulsionada por cada grama de nervos e músculos desesperados, e homem e animal caíram juntos.

Praguejando incoerentemente, Taurus curvou-se sobre a massa e viu seu companheiro debater-se, tentando se livrar do enorme peso que o esmagava. Num relance, o nemédio espantado viu que o leão estava morto, com o crânio despedaçado. Ele agarrou a carcaça e, com sua ajuda, Conan rastejou para o lado e se ergueu, ainda agarrando sua espada gotejante.

- Você está ferido? – arfou Taurus, ainda confuso com a estonteante rapidez do episódio.

- Não, por Crom! – respondeu o bárbaro – Mas foi por um triz. Por que esse maldito animal não rugiu quando nos atacou?

- Todas as coisas neste jardim são estranhas. – disse Taurus – Os leões atacam silenciosamente, assim como outras mortes. Vamos, houve pouco barulho nessa matança, mas os soldados podem ter ouvido, se não estiverem dormindo ou embriagados. Esse animal estava em algum outro lugar do jardim e escapou da morte causada pelo veneno, mas certamente não há mais leões. Devemos subir por essa corda; não preciso perguntar a um cimério se ele consegue.

- Se ela agüentar o meu peso – grunhiu Conan, limpando sua espada na grama.

- Ela agüenta três vezes o meu – respondeu Taurus – Foi tecida com tranças de mulheres mortas, roubadas de seus túmulos à noite. Para
torná-la ainda mais forte, eu a mergulhei no vinho mortífero das árvores upas. Eu vou primeiro, me siga de perto.

O nemédio agarrou a corda e, apoiando o joelho numa laçada, começou a subida; ele subia como um gato, compensando seu corpo aparentemente desajeitado. O cimério o seguiu. A corda balançava e girava em torno de si mesma, mas os dois não se deixaram intimidar; ambos já haviam realizado escaladas muito mais difíceis. A borda ornada projetava-se perpendicularmente ao muro, de maneira que a corda pendia talvez a uma distância de meio metro do lado da torre, fato que facilitava enormemente a subida.

Enquanto os dois subiam silenciosamente, as luzes da cidade foram se afastando mais e mais, as estrelas acima deles iam ficando cada vez mais ofuscadas pelo brilho das jóias ao longo da borda. Então, Taurus alcançou-a com a mão, içando-se para cima. Conan se deteve por um momento na beirada, fascinado com as enormes pedras preciosas cujo brilho gelado ofuscava seus olhos – diamantes, rubis, esmeraldas, safiras, turquesas, opalas, incrustadas como estrelas na prata reluzente. Ao longe, seus reflexos diferentes pareciam fundir-se num único brilho branco pulsante; mas agora, de perto, elas brilhavam com um milhão de tons espectro, hipnotizando-o com suas cintilações.

- Aqui há uma fortuna fabulosa, Taurus – sussurrou ele. 

Mas o nemédio respondeu impaciente:

- Vamos! Se conseguirmos o Coração, essas e todas as outras coisas serão nossas.

Conan passou por cima da beirada reluzente. O nível do topo da torre estava alguns metros abaixo da beirada ornamentada. Era liso, composto de alguma substância azul-escura, incrustada do ouro que refletia a luz das estrelas, de maneira que o topo se parecia com uma
enorme safira salpicada com pó de ouro. Do outro lado, por onde eles haviam entrado, havia uma espécie de sala construída sobre o telhado. Era de um material prateado, semelhante ao das paredes da torre, adornada com desenhos trabalhados em pedras menores; sua única porta era de ouro, com a superfície recortada em escamas e incrustada com pedras preciosas que reluziam como gelo.

Conan lançou um olhar no oceano pulsante de luzes que se estendia abaixo deles, e em seguida olhou para Taurus. O nemédio recolhia e enrolava a corda. Ele mostrou a Conan onde o gancho havia se fixado. Uma fração de centímetro da ponta havia se enterrado sob uma enorme pedra preciosa do lado de dentro da borda.

- A sorte estava de novo do nosso lado – murmurou ele – Nosso peso poderia ter arrancado esta pedra. Siga-me; os verdadeiros riscos da aventura começam agora. Estamos na toca da serpente, e não sabemos onde ela está escondida.

Arrastaram-se como tigres pelo chão escuro e pararam diante da porta de ouro. Com toda a cautela, Taurus tentou abri-la. Ela cedeu sem oferecer resistência alguma, e os companheiros espiaram para dentro, tensos, esperando por qualquer coisa. Por cima do ombro do nemédio, Conan viu uma câmara reluzente, as paredes, o teto e o chão na qual se incrustavam enormes pedras brancas, que pareciam ser sua única iluminação. Não se via ser vivo algum.

- Antes de cortar nossa única via de retirada – sussurrou Taurus –, vá até a borda e olhe em todas as direções; se avistar um soldado nos jardins, ou qualquer coisa suspeita, volte e me avise. Vou esperar por você nesta sala.

Conan não viu razão alguma para fazer isto, e uma leve suspeita de seu companheiro tocou sua alma cansada, mas ele fez o que Taurus pedira. Quando saiu, o nemédio deslizou para dentro e fechou a porta. Conan rastejou por toda a volta da borda da torre, voltando para o ponto de início sem ter visto nenhum movimento suspeito no mar ondulante de folhas embaixo. Voltou para a porta – de repente, dentro da sala, ouviu-se um grito estrangulado.

O cimério saltou para a frente, eletrificado. A porta reluzente abriuse, e lá estava Taurus, emoldurado pelo frio esplendor às suas costas. Ele cambaleou e entreabriu os lábios, mas somente um engasgo seco saiu de sua garganta. Agarrando-se à porta dourada, ele precipitou-se para o telhado e em seguida caiu de cabeça, apertando a garganta. A porta se fechou atrás dele.

Conan, agachando-se como uma pantera à espreita, nada viu na sala atrás do nemédio atingido, durante o breve instante em que a porta ficou entreaberta – a não ser por um truque de luz que fez parecer como se uma sombra passasse pelo chão reluzente. Nada seguiu Taurus até o telhado, e Conan curvou-se sobre o homem.

O nemédio estava de olhos arregalados, as pupilas dilatadas, cheias de confusão e espanto. Suas mãos apertavam a garganta, os lábios tremiam e balbuciavam algo incompreensível; em seguida, ele ficou inerte, e o espantado cimério percebeu que Taurus estava morto, sem saber o que o havia atingido. Conan fixou os olhos na misteriosa porta dourada. Naquela sala vazia, com suas reluzentes paredes ornadas de jóias, a morte havia alcançado o príncipe dos ladrões tão rápida e misteriosamente quanto ele havia matado os leões no jardim abaixo.

Hesitante, o bárbaro passou as mãos sobre o corpo seminu do homem, procurando uma ferida. Mas as únicas marcas de violência que encontrou entre os ombros, perto da base de seu pescoço taurino, foram três pequenas feridas, que pareciam ter sido feitas por três unhas enterradas na carne. A pele em volta dessas feridas estava enegrecida, e exalava um leve cheiro de putrefação. Dados envenenados? – pensou Conan. Mas nesse caso, eles ainda deveriam estar nos ferimentos.

Cautelosamente, ele se esgueirou em direção à porta dourada, empurrou-a e espiou para dentro. A sala estava vazia, banhada pela luz pulsante e fria de milhares de pedras preciosas. No centro do teto havia um desenho esquisito, um padrão octogonal em preto, no centro do qual havia quatro pedras preciosas que emitiam uma chama vermelha diferente do brilho branco das outras pedras. Do outro lado do quarto havia outra porta, semelhante àquela onde ele estava, mas não estava esculpida em escamas. Foi por aquela porta que a morte havia surgido? E, uma vez tendo atingido sua vítima, voltara pelo mesmo caminho?

Fechando a porta atrás de si, o cimério avançou pela câmara. Seus pés descalços não faziam ruído sobre o chão de cristal. Não havia cadeiras nem mesas, somente três ou quatro divãs de seda, com estranhos desenhos bordados a ouro, e vários baús de mogno emoldurados com prata. Alguns estavam trancados com pesados cadeados de ouro; outros estavam abertos, com suas tampas entalhadas caídas para trás, revelando montes de jóias numa confusão de esplendor aos olhos espantados do cimério. Conan praguejou; ele já havia visto mais riqueza naquela noite do que jamais sonhara existir no mundo inteiro, e ficou tonto, de pensar no valor da jóia que estava procurando.

Agora ele estava no centro do quarto, caminhando inclinado para a frente, a cabeça erguida, e a espada de prontidão, quando de novo, a morte atacou em silêncio. Uma sombra esvoaçante que varreu o chão polido foi o único aviso, e o salto instintivo para o lado foi o que salvou sua vida. Ele viu de relance um terror negro e peludo que passou por ele com um barulho de presas mortíferas, e algo que queimava como gotas de fogo infernal caiu em cima de seu ombro nu. Pulando para trás com a espada erguida, ele viu o terror bater no chão, girar e lançar-se contra ele com uma rapidez incrível. Era uma gigantesca aranha negra, igual ao que se vê apenas em pesadelos.

Era do tamanho de um porco, e suas oito patas grossas e peludas carregavam seu corpo repulsivo com a cabeça na frente; seus quatro olhos maldosos brilhavam com uma terrível inteligência, e de suas presas gotejava o veneno que Conan sabia, pela queimação em seu ombro, estar carregado de morte instantânea. Este era o assassino que havia se precipitado da teia pendurada no meio do teto sobre o pescoço do nemédio. Tolos foram eles por não terem suspeitado que as câmaras superiores estariam tão bem guardadas quanto as inferiores!

Esses pensamentos passaram de relance pela mente de Conan, enquanto o monstro avançava. Ele pulou para o alto e o monstro passou por baixo dele, girou e atacou novamente. Dessa vez, ele também evitou o ataque, pulando para o lado e defendendo-se como um gato. Sua espada decepou uma das pernas peludas, e novamente ele se salvou por um triz do ataque do monstro, que o ameaçava com as presas estalando diabolicamente. Mas a criatura não voltou a atacar; deu-lhe as costas, passou correndo pelo chão de cristal e subiu pela parede até o teto, de onde, por alguns instantes, ficou estudando-o com seus diabólicos olhos vermelhos. Em seguida, sem aviso, lançou-se pelo espaço, soltando um fio cinzento e pegajoso. Conan recuou, evitando o impacto do corpo; em seguida abaixou-se desesperadamente, a tempo de escapar de ser aprisionado pelo fio de teia. Ele viu a intenção do monstro e pulou em direção à porta, mas esse foi mais rápido, e um fio pegajoso lançado contra a saída aprisionou-o. Ele não ousava cortá-lo com sua espada, pois sabia que o fio grudaria na lâmina; e, antes de conseguir livrá-la, o inimigo estaria enterrando as presas nas suas costas.

Então, começou um jogo desesperado, com a astúcia e a rapidez do homem contra a arte e rapidez diabólicas da aranha gigantesca. A aranha já não mais desferia ataques diretos correndo pelo chão, nem lançava-se pelo espaço em sua direção. Ela corria pelo teto e pelas paredes, tentando prendê-lo nos fios gosmentos que lançava com precisão diabólica. Esses fios tinham a grossura de uma corda, e Conan sabia que uma vez enrolados nele, sua força desesperada não seria suficiente para rompê-los antes que o monstro voltasse a atacar.

Essa dança macabra ocupava o espaço inteiro da sala, no mais completo silêncio, quebrado apenas pela respiração ofegante do homem, o arrastar de seus pés descalços sobre o chão reluzente, e o tinido das presas do monstro. Os fios cinzentos caíam em rolos sobre o chão, com a ponta presa na parede; cobriam os baús de jóias e os divãs de seda; e pendiam como festões sombrios no teto ornamentado. A rapidez do olhar agudo e dos músculos de Conan, o mantinham incólume, embora os anéis pegajosos passassem tão próximo dele que chegavam a raspar na sua cabeleira desprotegida. Ele sabia que não seria capaz de evitá-los todos; tinha de ficar atento não apenas nos fios pendurados no teto, mas também no chão, para não tropeçar nos laços espalhados por ali. Mais cedo ou mais tarde, um laço grudento iria envolvê-lo como um abraço de jibóia, e assim, enrolado como um casulo, ele estaria à mercê do monstro.

A aranha correu pelo chão da sala, agitando a corda cinzenta atrás de si. Conan pulou para cima e o monstro, com um rápido giro, correu parede acima, e o fio, saltando do chão como se estivesse vivo,  enrolou-se em volta do tornozelo do cimério. Ele se apoiou nos braços ao cair, debatendo-se freneticamente para se livrar da teia. O demônio peludo estava descendo a parede para completar a sua captura. Em seu desespero, Conan agarrou um baú de jóias e arremessou-o com toda a sua força contra o monstro. Não era um movimento pelo q ual o bicho esperasse. Acertando bem no meio da aranha, esmagou-a contra a parede com um ruído abafado e enjoativo, espirrando sangue e uma substância viscosa esverdeada.

O corpo negro esmagado caiu entre o brilho chamejante de jóias que se esparramaram sobre ele; as pernas peludas se agitavam sem objetivo, os olhos vermelhos moribundos brilhavam entre as faiscantes pedras preciosas. Conan olhou à sua volta, mas nenhum outro terror apareceu, e ele se pôs a tentar livrar-se da teia. A substância grudava tenazmente no tornozelo e nas mãos, mas finalmente ele se libertou e, tomando a espada, esgueirou-se entre os fios e rolos cinzentos até a porta interna. Que horror se esconderia lá dentro ele não sabia. O sangue do cimério estava quente, e já que ele tinha chegado tão longe e vencido tantos perigos, estava decidido a ir até o fim da horrível aventura, qualquer que fosse. E sentia que a jóia que procurava não estava entre as que se espalhavam pela sala reluzente. Tirando os laços que emaranhavam a porta interna, ele descobriu que, assim como a outra, essa também não estava trancada. Ele se perguntava se os soldados lá embaixo ainda não tinham percebido a sua presença. Bom, ele estava bem acima de suas cabeças, e se as histórias deviam ser acreditadas, os soldados estavam acostumados a ruídos estranhos no alto da torre; sons sinistros e gritos de agonia e terror.

Yara ocupava seus pensamentos, e Conan não estava nem um pouco confortável quando abriu a porta dourada. Mas havia apenas uma escada de degraus prateados que conduzia para baixo, precariamente iluminada de uma maneira que ele não conseguia descobrir. Desceu silenciosamente, espada em punho. Não havia ruído algum; chegou até uma porta de marfim, incrustada com hematitas. Tentou ouvir alguma coisa, mas nenhum som vinha do lado de dentro; somente tênues tufos de fumaça se esticavam preguiçosamente por debaixo da porta, exalando um odor exótico, desconhecido ao cimério. Abaixo dele, a escada de prata serpenteava para baixo, desaparecendo na penumbra, e nenhum som vinha daquele poço sombrio. Conan tinha um pressentimento sinistro de que estava sozinho numa torre ocupada somente por fantasmas e assombrações.

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