terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pra virar filme... ou não! - Conan - A torre do elefante, de Robert E. Howard (Parte 5 de 5)





Capítulo Final

Cautelosamente, ele empurrou a porta de marfim, que abriu-se silenciosamente. Na reluzente soleira, Conan olhava como um lobo num ambiente estranho, pronto para lutar ou fugir. Era uma grande sala com um teto em abóbada dourada; as paredes eram de jade verde, o chão, de marfim, parcialmente coberto por tapetes espessos. Fumaça e um exótico cheiro de incenso saíam do braseiro apoiado sobre um tripé de ouro, atrás do qual estava sentado um ídolo sobre uma espécie de divã de mármore. 

Conan olhava estupefato; a imagem tinha o corpo de um homem nu, de cor verde; mas a cabeça era feita de algum pesadelo e loucura. Era grande demais para o corpo humano; não tinha atributos humanos. Conan olhava as grandes orelhas de abano, o nariz enrolado, ladeado por dois chifres brancos com bolas de ouro na ponta. Os olhos estavam fechados, como se a figura estivesse dormindo.

Era essa então a razão do nome Torre do Elefante, pois a cabeça da coisa era muito semelhante às dos animais descritos pelo nômade shemita. Esse era o deus de Yara; onde mais poderia estar a jóia a não ser escondida dentro do ídolo, já que a pedra era chamada de Coração do Elefante?

Quando Conan se aproximou, com os olhos fixos no ídolo imóvel, os olhos da coisa se abriram abruptamente! O cimério ficou paralisado. Não era uma imagem, era um ser vivo, e ele estava encurralado em sua câmara!

O fato de que ele não explodiu no mesmo instante num acesso de frenesi assassino demonstrava o tamanho de seu terror, que o mantinha grudado ao chão. Numa condição dessas, um homem civilizado iria se refugiar na conclusão de estar louco; ao cimério, porém, não ocorreu duvidar de sua sanidade. Ele sabia estar face a face com um demônio do Mundo Antigo, constatação essa que lhe embotou todos os sentidos com exceção da visão. A tromba da criatura estava erguida interrogativamente, os olhos de topázio fitavam sem ver, e Conan percebeu que o monstro era cego.

Com este pensamento, seus nervos congelados se amoleceram, e ele começou a recuar silenciosamente em direção à porta. Mas a criatura ouviu. A tromba sensível se esticou em sua direção, e o terror de Conan o paralisou novamente quando o ser falou, numa voz estranha, trêmula que jamais modificava o tom ou o timbre. O cimério sabia que aquelas mandíbulas não tinham sido feitas para a fala humana.

- Quem está aí? Você veio para me torturar de novo, Yara? Você jamais fica satisfeito? Ó, Yag-Kosha, quando essa agonia terá fim? Lágrimas rolavam dos olhos cegos da criatura; Conan deteve seu olhar nos membros estendidos sobre o divã de mármore. E percebeu que o monstro não seria capaz de se levantar para atacá-lo. Ele conhecia as marcas da roda de tortura e as cicatrizes do fogo, e por mais que fosse impiedoso, ficou horrorizado com as deformações daqueles que outrora foram membros tão graciosos como os dele próprio. E, de repente, todo o medo e repulsa foram substituídos por uma grande pena. Conan não podia saber o que era esse monstro, mas as evidências de seus sofrimentos eram tão terríveis e patéticas que uma estranha tristeza tomou conta do cimério, sem ele saber por quê. Apenas sentia que estava olhando para uma tragédia cósmica, e encolheu-se de vergonha, como se a culpa de uma raça inteira estivesse sobre os seus ombros.

- Eu não sou Yara – disse ele – Sou apenas um ladrão. Não vou machucá-lo.

- Aproxime-se para que eu possa tocá-lo – implorou a criatura, e Conan se aproximou sem medo, com a espada esquecida na mão. A tromba sensível estendeu-se e apalpou seu rosto e seus ombros, tateando como um cego; um toque leve como o de uma menina. - Você não pertence à raça diabólica de Yara – suspirou a criatura – Você traz as marcas dos desertos limpos e selvagens. Conheço o seu povo desde um tempo antigo, quando era chamado por outro nome,
quando outro mundo erguia seus pináculos ornados para as estrelas... Há sangue em seus dedos.

- Uma aranha na câmara de cima e um leão no jardim – murmurou Conan.

- Você também matou um homem esta noite – respondeu o outro – E há morte no alto da torre. Eu sinto; eu sei.

- Sim – murmurou Conan – O Príncipe dos Ladrões jaz lá em cima, morto pela mordida da aranha.

- Então, então! – a estranha voz não humana elevou-se numa espécie de canto monótono – Uma morte na taverna... uma morte no telhado, eu sei; eu sinto. E a terceira fará a magia que nem mesmo Yara sonha: a magia da libertação, ó deuses verdes de Yag! Novamente as lágrimas rolaram, enquanto o corpo torturado era embalado por diversas emoções. Conan observava, confuso. Então as convulsões cresceram; os olhos meigos e cegos voltaram-se para o cimério, a tromba acenou.

- Escute, humano – disse a criatura estranha – Sei que sou repulsivo e monstruoso para você, não é? Não, não precisa responder; eu sei. Mas você também seria para mim, seu eu pudesse vê-lo. Existem incontáveis mundos além dessa Terra e a vida neles assume muitas formas. Eu não sou nem deus nem demônio, mas um ser de carne e osso como você, embora a substância seja em parte diferente e a minha forma tenha sido fundida em outro molde.

“Sou muito velho, ó homem dos países desertos; eras atrás, eu vim para este planeta junto com outros do meu mundo, de um planeta verde chamado Yag, que gira eternamente na orla desse universo. Viemos voando pelo espaço com asas poderosas que nos levaram pelo cosmo mais rápido que a luz, porque fomos banidos depois da derrota numa guerra contra os reis de Yag. Mas jamais pudemos voltar, pois, na Terra, as nossas asas murcharam. Aqui, vivíamos separados da vida terrestre. Lutamos com as estranhas e terríveis formas de vida que andavam pela Terra então, de maneira que nos tornamos temidos e não éramos molestados nas florestas escuras do Oriente onde morávamos. 

“Vimos os homens evoluírem dos macacos e construírem as reluzentes cidades de Valúsia, Kamelia, Commoria e suas irmãs. Vimos como elas tremeram por causa dos ataques dos atlantes, pictos e lemurianos pagãos. Vimos os oceanos se erguerem e tragarem a Atlântida e a Lemúria, as ilhas dos pictos e as reluzentes cidades civilizadas. Vimos os sobreviventes de Pictdom e da Atlântida construírem seu império da idade da pedra, para depois caírem na ruína, envolvidos em guerras sangrentas. Vimos os pictos afundarem no abismo da selvageria, os atlantes voltarem ao estado simiesco. Vimos novas levas de migrações de selvagens rumo ao sul, vindas do Círculo Ártico, para construir uma nova civilização, com novos reinos chamados Nemédia, Koth, Aquilônia e suas irmãs. Vimos o seu povo ascender dos atlantes, que regrediram ao nível dos macacos. Vimos os descendentes dos lemurianos, que haviam sobrevivido ao cataclismo, surgirem de novo como selvagens que migraram para o oeste, com o nome de hirkanianos. E vimos essa raça de demônios, sobreviventes de uma antiga civilização que existia antes da submersão da Atlântida, adquirir de novo a cultura e o poder, que é este maldito reino de Zamora.

“E isso nós vimos, sem ajudar nem atrapalhar o cumprimento da imutável Lei Cósmica, e fomos morrendo um após o outro; pois nós, de Yag, não somos imortais, embora a nossa vida seja longa como a vida dos planetas e das constelações. Por fim somente eu restei, sonhando com os tempos antigos entre os templos em ruínas de Khitai perdido nas florestas, adorado como um deus pela ancestral raça de pele amarela. Então veio Yara, versado no conhecimento oculto transmitido desde os dias da barbárie, desde antes da submersão da Atlântida.

“De início, ele se sentava a meus pés e aprendia sabedoria comigo. Mas não ficava satisfeito com o que eu lhe ensinava, pois era magia branca, e ele queria a sabedoria do mal para escravizar soberanos e satisfazer suas diabólicas satisfações. Eu jamais lhe ensinaria por vontade própria, os negros segredos que aprendi involuntariamente, sem procurá-los.

“Mas ele sabia mais do que eu imaginara; com a maldade obtida entre as tumbas sombrias da escura Stygia, ele me obrigou a lhe passar um segredo que eu não pretendia desvelar; e, voltando meu próprio poder contra mim, ele me escravizou. Ah, deuses de Yag, minha taça tem sido amarga desde aquela hora!

“Ele me tirou das floretas perdidas de Khitai, onde macacos cinzentos dançavam ao som das flautas dos sacerdotes amarelos, e oferendas de frutas e de vinhos abarrotavam meus altares quebrados. Eu não era mais um deus para o bondoso povo das florestas... eu era o escravo de um demônio em forma humana”.

Novamente, lágrimas surgiram nos olhos cegos da criatura.

- Ele me aprisionou nessa torre que, sob seu comando, eu construí em apenas uma noite. Dominou-me pelo fogo e pela roda da tortura, e por outras torturas tão estranhas e extraterrenas que você jamais entenderia. Há muito eu teria acabado com minha vida, se pudesse, mas ele me mantém vivo, aleijado, cego e mutilado – para obedecer às suas ordens nojentas. E durante trezentos anos, eu obedeci às suas ordens, sentado neste divã de mármore, denegrindo minha alma com pecados cósmicos e manchando minha sabedoria com crimes, porque não tinha outra escolha. No entanto, nem todos os antigos segredos ele conseguiu arrancar de mim, e meu último ato será o feitiço do Sangue e da Jóia. 

“Pois sinto que o fim se aproxima. E você é a mão do Destino. Eu lhe peço, pegue a gema sobre aquele altar”.

Conan voltou-se para o altar de ouro e marfim indicado, e pegou uma grande pedra redonda e escarlate, límpida como um cristal; e reconheceu que era o Coração do Elefante. 

- Por fim, chegou a hora da mais poderosa magia jamais vista até hoje, e que jamais será vista no futuro, por milhares e milhares de milênios. Pelo sangue de minha vida, eu o conjuro, pelo sangue nascido no peito verde de Yag sonhando suspenso na imensidão azul do Espaço.

“Pegue sua espada, humano, e arranque meu coração; em seguida esprema-o deixando o sangue escorrer sobre a pedra vermelha. Desça as escadas e entre na câmara de ébano onde Yara está sentado, envolto nos sonhos malignos do lótus. Pronuncie seu nome e ele acordará. Então coloque esta jóia diante dele, e diga: “Yag- Kosha lhe dá um último presente e um último encantamento”. Em seguida, saia rapidamente da torre; não tenha medo, seu caminho estará livre. A vida humana não é igual à vida de Yag, nem a morte humana é igual à morte de Yag. Deixe-me ficar livre dessa prisão de carne alquebrada e cega, e eu serei mais uma vez Yogah de Yag, coroado pela manhã, reluzente, com asas para voar, pés para dançar, olhos para ver e mãos para tocar”.

Conan se aproximou indeciso, e Yag-Kosha, ou Yogah, sentindo sua indecisão, indicou onde ele deveria desferir o golpe. Conan cerrou os dentes e enfiou fundo a espada. O sangue espirrou na lâmina e nas mãos de Conan, o monstro debateu-se em convulsões e depois caiu imóvel para trás. Certificando-se que a vida o tinha deixado, pelo menos a vida como ele a entendia, Conan se pôs a executar a  macabra tarefa e rapidamente retirou e rapidamente retirou algo que achava ser o coração da estranha criatura, embora esse fosse diferente de qualquer outro que já tinha visto. Segurando o órgão ainda pulsante sobre a jóia reluzente, ele o espremeu com ambas as mãos, e um jorro de sangue caiu sobre a pedra. Para a sua surpresa, o sangue não escorreu por fora, mas foi absorvido pela pedra como se fosse uma esponja.

Segurando hesitante a jóia, ele saiu da câmara fantástica e chegou até os degraus de prata. Não olhou para trás; instintivamente, ele sentia que estava acontecendo algum tipo de transmutação no corpo estendido sobre o divã de mármore, e sentia também que era do tipo que não devia ser testemunhada por olhos humanos. Conan fechou a porta de marfim atrás de si e aí, sem hesitar desceu os degraus de prata. Não lhe ocorreu ignorar as instruções que lhe foram dadas. Parou na porta de ébano, no centro da qual havia uma caveira de prata esboçando um sorriso macabro. Abriu a porta e, dentro do aposento de ébano e azeviche, viu uma figura alta reclinada sobre um catre de seda negra. Yara, o sacerdote e feiticeiro, estava deitado com os olhos abertos e dilatados pelos eflúvios do lótus amarelo, com o olhar perdido nos abismos noturnos além do alcance de um simples ser humano.

- Yara! – disse Conan, como um juiz decretando a destruição – Acorde!

No mesmo instante, seus olhos voltaram ao normal, frios e cruéis como os de uma ave de rapina. A figura alta, vestida de seda, ergueu-se  e ficou bem mais alta que o cimério.

- Cão! – sibilou como uma serpente – O que faz aqui? 

Conan colocou a jóia sobre a grande mesa de ébano.

- Aquele que mandou essa gema, ordenou-me que dissesse: “Yag-Kosha lhe dá um último presente e um último encantamento”. 

Yara encolheu-se; seu rosto escuro empalideceu. A jóia deixara de ser límpida como um cristal; suas profundezas lamacentas pulsavam e tremiam, e esquisitas ondas esfumaçadas de cor mutante passavam por sua superfície lisa. Como que hipnotizado, Yara se curvou sobre a mesa e agarrou a gema nas mãos, olhando nas suas profundezas sombrias, como se um imã estivesse atraindo a sua alma trêmula para fora do corpo. E Conan pensou que seus próprios olhos estivessem lhe pregando peças. Pois quando Yara se levantou do divã, parecera gigantesco; agora a cabeça de Yara mal chegava aos seus ombros. Ele piscou, confuso e, pela primeira vez naquela noite, duvidou de seus sentidos. Então, percebeu, chocado, que o sacerdote estava encolhendo cada vez mais diante de seus olhos.

Conan continuou olhando sem se emocionar, como um homem observa um jogo; imerso num sentimento de irrealidade esmagadora, o cimério não estava mais certo de sua própria identidade; percebeu que estava olhando para evidências externas de um combate invisível entre forças imensas, muito além de sua compreensão.

Agora Yara não era maior que uma criança; depois do tamanho de um bebê, ele esticou-se sobre a mesa, ainda segurando a joia.  Súbito, percebendo o seu destino, o feiticeiro levantou-se de um salto, soltando a gema. Ele continuava encolhendo mais ainda, e Conan viu uma minúscula figura correndo loucamente pela mesa de ébano, agitando os minúsculos braços e gritando numa voz que parecia o guinchar de um inseto.

Agora ele estava encolhido até o ponto em que a enorme joia se erguia acima dele como uma montanha. Conan viu como ele cobriu os olhos com as mãos para se proteger da luz, cambaleando como um louco. O cimério sentiu que alguma força magnética invisível atraía Yara para a gema. Três vezes ele correu ao redor dela num círculo cada vez mais fechado, três vezes ele tentou voltar-se e correr para o outro lado da mesa; em seguida, com um grito quase inaudível que ecoou nos ouvidos do observador, o sacerdote jogou os braços para cima e correu direto para o globo chamejante.

Curvando-se, Conan viu Yara rastejar por cima da superfície lisa e curva como um homem que realiza a impossível façanha de escalar uma montanha de vidro. Agora o sacerdote estava em pé sobre o topo, ainda com os braços erguidos, invocando nomes sinistros que apenas os deuses conhecem. E de repente, ele afundou no centro da jóia como um homem afunda no mar, e ondas de fumaça se fecharam sobre sua cabeça. Agora, no coração rubro da pedra que voltara a ser límpido como um cristal, ele era minúsculo como numa cena distante. E lá dentro apareceu uma figura verde, reluzente, com o corpo de homem e a cabeça de elefante, não mais cego nem aleijado. Yara jogou os braços para cima e fugiu como um louco, com o vingador em seu encalço. Então, a enorme pedra desapareceu como uma bolha de sabão que estoura, num arco-íris de luzes muito brilhantes, e a mesa de ébano ficou vazia, tão vazia como o divã de mármore na sala acima, onde o corpo daquele estranho ser transcósmico chamado Yag-Kosha e também Yogah havia estado.

O cimério voltou-se e desceu correndo a escada de prata. Estava tão perplexo que não lhe ocorreu fugir pelo mesmo caminho que usara para entrar na torre. Correndo pelo sinuoso poço de prata, chegou a uma grande sala ao pé dos degraus reluzentes. Deteve-se por um instante; era a sala dos soldados. Viu o brilho de seus peitorais de prata e das suas bainhas ornadas de jóias. Estavam aglomerados ao redor de uma mesa, com suas plumas escuras ondulando sombriamente acima das cabeças caídas, vestidas com capacetes; eles estavam deitados no meio de seus dados e canecos de vinho espalhados pelo chão de lápis-lazúli manchado de vinho. E Conan sabia que estavam mortos. A promessa havia sido cumprida, a palavra fora mantida. Conan não sabia se foi feitiçaria, ou encantamento ou a sombra das grandes asas verdes que silenciou os inimigos, mas seu caminho havia sido desimpedido. E uma porta de prata estava aberta, emoldurada pela claridade da aurora. 

O cimério saiu para os jardins e, quando o vento da aurora soprou sobre ele a fresca fragrância das plantas viçosas, Conan despertou como de um sonho. Voltou-se indeciso, para olhar para a torre enigmática que acabara de deixar. Ele esteve enfeitiçado ou encantado? Será que tudo não passara de um sonho? A torre reluzente, oscilando contra a aurora rubra, com a borda ornada de jóias brilhando sob a luz crescente, desabou, transformando-se num monte de escombros brilhantes.

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