sábado, 12 de outubro de 2013

Pra virar filme... ou não! - Conan - A torre do elefante, de Robert E. Howard (Parte 3 de 5)



Capítulo 3

- Você não é soldado! – sibilou o estranho finalmente – É um ladrão como eu.

- E quem é você? – perguntou o cimério, num sussurro cheio de suspeitas.

- Taurus da Nemédia.

O cimério abaixou sua espada.

- Já ouvi falar de você. Chamam-no de Príncipe dos Ladrões.

Uma risada baixa foi a resposta. Taurus era tão alto como o cimério, porém mais pesado; gordo, tinha o ventre grande, mas cada movimento seu era imbuído de um sutil magnetismo dinâmico, que se refletia em seus olhos penetrantes e brilhantes, cheios de vitalidade. Ele estava descalço e carregava um rolo que parecia uma corda fina e forte, com nós amarrados a intervalos regulares.

- Quem é você? – sussurrou ele.

- Conan, da Ciméria – respondeu o outro – Estou procurando uma maneira de roubar a jóia de Yara, que os homens chamam de Coração do Elefante.

Conan percebeu que o ventre enorme do homem se sacudiu com o riso, mas não era um riso de desprezo.

- Por Bel, deus dos ladrões! – sussurrou Taurus – Pensei que somente eu tivesse a coragem de tentar essa façanha. Esses zamorianos se denominam ladrões... bah! Conan, gosto de sua audácia. Eu nunca compartilhei uma aventura com alguém; mas, por Bel, tentaremos isso juntos, se você quiser.

- Então você também está atrás da jóia?

- Que lhe parece? Planejei tudo durante meses; mas você, meu amigo, acho que agiu por impulso.

- Você matou o soldado?

- É claro. Passei pelo muro quando ele estava do outro lado do jardim. Escondi-me nos arbustos; ele me ouviu, ou pensou que tivesse ouvido alguma coisa. Quando veio procurando, não foi difícil esgueirar-me atrás dele e agarrar de repente seu pescoço para estrangulá-lo. Ele estava como a maioria dos homens, meio cego na escuridão. Um bom ladrão deve ter os olhos de um gato.

- Você cometeu um único erro – disse Conan.

Os olhos de Taurus faiscaram.

- Eu? Eu, um erro? Impossível!

- Você devia ter arrastado o corpo para dentro dos arbustos.

- Disse o aprendiz ao mestre da arte. Eles só trocarão a guarda depois da meia-noite. Se alguém vier à sua procura agora e encontrar o corpo, irá correndo avisar Yara, e assim teremos tempo para fugir. Se não o encontrassem, iriam bater nos arbustos e nos apanhariam como ratos numa ratoeira.

- Você tem razão – concordou Conan.

- Então. Agora preste atenção. Estamos perdendo tempo com essa maldita discussão. Não há guardas no jardim interno, guardas humanos, quero dizer, embora haja sentinelas ainda mais mortíferas. Foi isso que me barrou tanto tempo, mas finalmente descobri uma maneira de dominá-las.

- E os soldados na parte inferior da torre?

- O velho Yara mora nos aposentos superiores. É por aquele caminho que iremos, e voltaremos, assim espero. Não se preocupe em me perguntar como. Eu arrumei um jeito. Vamos nos esgueirar pelo topo da torre e estrangular o velho Yara antes que ele possa lançar um de seus malditos feitiços sobre nós. Pelo menos vamos tentar; é o risco de sermos transformados numa aranha ou num sapo, contra a riqueza e o poder do mundo. Todos os bons ladrões devem saber se arriscar.

- Eu irei até onde um homem pode ir – disse Conan, tirando as sandálias.

- Então, siga-me – e, voltando-se, Taurus saltou para cima, agarrou o muro e subiu. A agilidade do homem era espantosa, considerando o seu tamanho; ele parecia quase deslizar por cima da beirada do muro. Conan o seguiu e, deitados sobre o topo largo, falaram por sussurros.

- Não vejo luz alguma – murmurou Conan. A parte inferior da torre parecia-se muito com aquela porção visível do lado de fora do muro – É um perfeito cilindro reluzente, sem nenhuma abertura visível.

- Existem portas e janelas disfarçadas – respondeu Taurus –, mas estão fechadas. Os soldados respiram o ar que vem de cima.

O jardim era uma poça nebulosa de sombras, onde arbustos fofos e árvores baixas e frondosas acenavam à luz das estrelas. A alma cansada de Conan sentia a ameaça que espreitava no jardim. Ele sentia a presença de olhos invisíveis queimando na escuridão e percebeu um cheiro sutil que eriçou seus cabelos instintivamente como o cheiro de um velho inimigo eriça o pêlo de um cão de caça.

- Siga-me – sussurrou Taurus – Fique atrás de mim, se dá valor a vida.

Tirando do seu cinto algo que se parecia com um tubo de cobre, o nemédio andou pé ante pé até o gramado do lado de dentro do muro. Conan o seguia de perto, a espada de prontidão, mas Taurus empurrou-o para trás, para perto do muro, e não mostrou nenhuma tendência em avançar. Sua atitude toda era de tensa expectativa, e seu olhar, assim como o de Conan, estava fixo na massa sombria dos arbustos a alguns passos dali. Esses arbustos se mexiam, embora a brisa tivesse parado de soprar. Então, dois olhos enormes faiscaram das sombras ondulantes e, atrás deles, outras línguas de fogo brilharam na escuridão.

- Leões! – murmurou Conan.

- Sim. De dia, eles são guardados nas cavernas subterrâneas abaixo da torre. É por isso que não há guardas humanos nesse jardim.

Conan contou rapidamente os olhos 

- Cinco à vista; talvez mais deles atrás dos arbustos. Eles vão atacar num minuto...

- Fique quieto! – sibilou Taurus, e desprendendo-se do muro, cautelosamente, como se estivesse caminhando em cima de navalhas, ergueu o tubo delgado. 

Ouviram-se grunhidos baixos nas sombras, e os olhos chamejantes se adiantaram. Conan podia ver as enormes mandíbulas salivantes, as caudas com tufos na ponta batendo nos flancos escuros. A tensão aumentava – o cimério agarrou sua espada, esperando o ataque daqueles corpos gigantescos. Então Taurus soprou o tubo com força. Um longo jato de pó amarelado saiu do outro lado do tubo e se transformou instantaneamente numa espessa nuvem verde-amarelada que se instalou sobre os arbustos, escondendo os olhos faiscantes.

Taurus voltou correndo até o muro. Conan olhava sem entender. A nuvem espessa escondia os arbustos, e de lá não vinha som algum. 

- O que é esta névoa? – perguntou o cimério, hesitante

- Morte! – sibilou o nemédio – Se um vento soprá-la em cima de nós, devemos fugir o mais depressa que pudermos para o outro lado do muro. Mas não, o vento está parado, e agora a névoa está se dissipando. Espere até que desapareça por completo. Respirar isto é morte certa.

No momento, restavam apenas alguns resíduos amarelados suspensos no ar como fantasmas; em seguida desapareceram, e Taurus impeliu seu companheiro para a frente. Eles se esgueiraram em direção aos arbustos, e Conan parou estupefato. Cinco enormes vultos marrons estavam estendidos nas sombras; o fogo de seus olhos sinistros estava apagado para sempre. Um cheiro adocicado, enjoativo, ainda pairava no ar.

- Eles morreram sem fazer ruído algum! – murmurou o cimério – Taurus, o que era aquele pó?

- Era feito do lótus negro, cujas flores crescem nas selvas perdidas de Khitai, onde moram apenas os sacerdotes de crânio amarelo de Yun. Essas flores matam quem as cheirar.

Conan ajoelhou-se ao lado das enormes formas, certificando-se que estavam realmente inofensivas. Ele sacudia a cabeça; a magia das terras exóticas era misteriosa e terrível para o bárbaro vindo do norte.

- Por que você não mata os soldados da torre da mesma maneira? – perguntou ele.

- Porque era tudo o que eu tinha. Obter esse pó foi uma façanha que por si só me tornou famoso entre os ladrões do mundo. Eu o roubei de uma caravana que se dirigia para a Stygia; estava num saco de tecido dourado, guardado por uma enorme serpente. E consegui tirálo sem despertá-la. Mas venha, em nome de Bel! Vamos desperdiçar a noite discutindo?


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