terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O dia seguinte - 1983



Por Jason

O ótimo O dia seguinte é dividido em três partes bem definidas. Na primeira, os personagens centrais são apresentados. São todos moradores de Lawrence, no Kansas, uma comunidade rural no interior dos EUA, com suas casas de madeira, famílias tradicionais e campos abertos e verdes, com pastos cheios de gado e fazendas. Russell (Jason Robards) é médico respeitado e o patriarca de um dos dois núcleos familiares e se preocupa com a filha, que quer ir para Boston estudar. O outro, Jim, um fazendeiro, também está preocupado com sua filha, que se encontra escondido com o namorado e passa a noite fora antes do casamento - e ele não perdeu o hábito de controlá-la. 

São problemas familiares, banais, vulgares, situações do dia a dia na vida de pessoas ordinárias, mas a diferença aqui é que paira sobre todos eles o fantasma da Guerra Fria e o distanciamento das relações de paz entre os EUA e a então União Soviética. Tudo o que os moradores do Kansas sabem sobre os conflitos políticos é o que a tv e o rádio divulgam, o que dá a eles uma total sensação de isolamento e uma boa dose de ignorância - o jovem prestes a casar com a filha de Jim não se preocupa e vai cortar o cabelo, onde pergunta se "seria possível acontecer algo no meio do nada como aquele lugar", ao que o personagem de John Lithgow responde que "há 150 silos de misseis naquela região", sugerindo o tamanho do desastre. Paralelo a isso, Maureen e McCoy estão nervosos: não muito distante dali, o casal está se separando porque ele, um militar, precisa voltar para a base devido a um chamado urgente. Mais tarde, McCoy também sofrerá com as consequências de um desastre nuclear.

Na segunda parte, fica evidente que algo de ruim está para acontecer quando os rádios noticiam que a população deve se dirigir para os abrigos municipais. Aos poucos, a paz do lugar vai dando espaço a um desespero coletivo quando a notícia de que um navio soviético foi atingido e o país respondeu agressivamente. Todos estão às portas de uma Terceira Guerra Mundial - pessoas invadem o supermercado e brigam por todas as mercadorias, os noticiários informam que bombas nucleares explodiram, incluindo uma no quartel general da OTAN. 

É a partir daqui que a produção começa a se sobressair. É impressionante notar como as pessoas demoram a assimilar o que está acontecendo, como se entrassem numa espécie de transe coletivo e não aceitassem a realidade. A mãe da noiva, por exemplo, prossegue com sua vida normalmente, com os preparativos do casamento em plena situação de emergência nacional, enquanto o pai, ciente do problema que enfrentarão, tenta armar um abrigo no porão de casa e arrasta a mulher a força. Até que os misseis são disparados e estes partem dali, de perto, do quintal da casa deles. O resultado é catastrófico: a cidade entra em pânico, com a população tentando fugir inutilmente, já que um míssil nuclear explode na cidade. Este é, também, um dos momentos de maior impacto do filme: tudo ao redor das pessoas para imediatamente. Carros, relógios, energia elétrica, tudo desaparece. Em seguida, com a explosão, tudo num raio de quilômetros é vaporizado instantaneamente como se o próprio apocalipse estivesse acontecendo. Prédios, carros, pessoas, animais, simplesmente tudo evapora e se transforma numa montanha de escombros e poeira. 

O espectador é então levado para a terceira parte, quando a população restante começa a sofrer pelo resultado do impacto das bombas e de um inverno nuclear - e precisa se virar com os recursos escassos que tem. Um caos se instala nos hospitais cujos profissionais, sem água e energia, precisam cuidar das pessoas que estão morrendo por causa da radiação. Os mais ignorantes não conseguem entender o que se passa e como a radiação age no corpo humano (como a jovem noiva que surta e começa a correr no campo agora transformado em cinzas radioativas). Expostas, elas estão condenadas a morrerem por feridas que não param de sangrar e tumores impossíveis de curar, esperando por uma morte que não vem enquanto agonizam eternamente com a falta de remédios, a fome, a sede, o risco de cólera, de outras doenças contagiosas, saques, estupros, roubos e necrotérios entupidos de mortos. 

O dia seguinte não tem efeitos especiais primorosos. Feito para a televisão em 1983 e estrelado por Jason Robards (de Todos os homens do presidenteJulia, que ganhou Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por ambos), traz nomes como John Lithgow, Jobeth Williams (de Poltergeist) e Steve Gutemberg, um jovem recém chegado ao lugar que acaba se juntando a uma das famílias em seu martírio (e cuja carreira do ator não decolou). É notoriamente um filme feito com esforços hercúleos e situações improvisadas (os vídeos dos lançamentos dos misseis, por exemplo, são montagens com diversas imagens de lançamentos reais). Peca pelo excesso de personagens na tela - já que muitos não despertam interesse no espectador e fica difícil acompanhar todos os dramas e se importar com todos eles. Mas dá uma paulada no estômago ao traduzir em imagens o sofrimento de uma população vitimada por interesses políticos egoístas, sintetizada no discurso cínico do presidente para a população combalida. As imagens que mostram o ginásio entupido de farrapos humanos agonizantes traz um gosto amargo contemporâneo. Diante de toda a tragédia, um simples parto e o nascimento de uma criança saudável se torna um evento magnífico, como um milagre da vida.

Nesse sentido, é interessante também perceber como o filme ainda é eficiente em sua mensagem pacifista e na crueza como anuncia que, não importa de que lado se esteja numa guerra, todo mundo só tem a perder. Mais atual impossível.    

Cotação: 4/5

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...