domingo, 22 de dezembro de 2013

O mordomo da Casa Branca - 2013


Por Jason

O mordomo da Casa Branca começa com uma cena impactante. Quando era pequeno, Cecil presenciou sua mãe (Mariah Carey, entrando muda e saindo calada) ser carregada para ser estuprada pelo jovem fazendeiro dono de uma plantação de algodão (Alex Pettyfer, que não convence nem em dois minutos de cena). O pai trabalhava colhendo o algodão quando, ao assistir a cena, não conseguiu sequer saber o motivo do jovem ter feito aquilo. Foi morto ali mesmo pelo rapaz, com um tiro na cabeça, diante de todos os outros. 

Após o acontecimento, a mãe fica louca. Vanessa Redgrave (uma monstra em cena) ao ver o ocorrido, decide acolher o menino e a ensinar como servir dentro de casa, para não o deixar desamparado. Ao crescer, Cecil decide fugir de casa para não ter o mesmo destino do pai. Faminto, passando necessidades numa época em que os negros eram tratados como escória e penalizados com a morte pelos brancos, é acolhido por um senhor numa noite, e este o ensina mais truques de comportamento para servir os brancos. Já adulto, Cecil vai parar num hotel para servir os hóspedes depois de conhecer Gloria (Oprah Winfrey) uma ex camareira de Hotel com quem tem dois filhos com ela. É depois de trabalhar neste hotel, em Washington, que ele recebe o convite para uma entrevista na Casa Branca, onde causa boa impressão e acaba sendo contratado.

A partir daí, o mordomo vai testemunhar a subida de oito presidentes americanos ao poder, além de momentos históricos, quando o filme se sobressai e ganha sua força - como na criação de política de inclusão dos negros na sociedade que provoca tumulto, a ascensão de JFK ao poder, o momento em que a Klu Klux Kan queima um ônibus para tentar matar os negros dentro dele, a Guerra do Vietnã,  o partido dos Panteras Negras, a Era Nixon e Reagan até Barack Obama, o primeiro negro eleito presidente dos EUA. 

Enquanto a sociedade americana muda, sua vida pessoal começa a se arruinar, já que seu filho começa a protestar por direitos igualitários, se envolvendo em confusões e prisões, pois os negros sequer podiam sentar em uma lanchonete sem que fossem hostilizados de todas as maneiras possíveis, agredidos verbalmente e fisicamente. Para se ter uma ideia do período de conflitos, os negros tinham assentos especiais para sentar e comer pois não podiam compartilhá-los com os brancos. Cecil também sofre com o preconceito dentro da Casa Branca, já que trabalha por muito tempo, é um ótimo funcionário, querido por todos, mas nunca teve um aumento de salário cujo piso é bem menor que o dos brancos - e nenhum negro ganhou promoção em todo o tempo em que trabalhou por lá. Estes são sem dúvidas os grandes momentos do filme, alimentados por conflitos familiares onde Cecil se vê obrigado a expulsar seu próprio filho de casa. As tragédias, no entanto, cercam a vida dele do começo até o final do filme.

Forest Whitaker defende muito bem o seu personagem e domina o filme, desde quando entra em cena aguardando ser chamado para uma entrevista na Casa Branca até o final quando retorna a ela, já envelhecido pela maquiagem. Paralelo a esse ótimo desempenho, Oprah Winfrey consegue se despir de sua vaidade de uma das mulheres mais poderosas do entretenimento mundial e transmitir todas as camadas de sua personagem, como uma esposa dedicada que precisa defender sua vida, sua integridade emocional e psicológica, seu relacionamento (ela é assediada por um conhecido), seus filhos e sua família enquanto o marido trabalha para sustentar a casa. 

Há, aliás, um desfile pela produção de astros, estrelas e gente conhecida do público. Além dos já citados, Robin Williams (quase irreconhecível), Terrence Howard, Cuba Gooding Jr, Robin Williams, Lenny Kravitz, John Cusack, James Marsden, Liev Schreiber (outro que aparece carregado de maquiagem), Alan Rickman e Jane Fonda, dentre outros, aparecem - mas é notável que alguns deles estão lá apenas para chamarem o público, em pequenas participações. 

A direção de Lee Daniels é seca, mas Lee é um desses diretores que sabem dirigir atuações (como em A última ceia, 2001, que deu o Oscar a Halle Berry e o premiado Preciosa, 2009, que deu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para a estupenda interpretação de Mo'Nique). O problema do filme talvez esteja em seu roteiro, que dá saltos temporais e gente que entra e sai sem dizer a que veio. Ao avançar do meio para o final, ele apela para uma propaganda política incômoda, para um endeusamento dos líderes norte-americanos (Kennedy entre eles) e, claro, ao sentimento patriota americano. Esquece de se aprofundar em momentos mais importantes e em outras personalidades igualmente necessárias para as transformações históricas e pessoais que o mordomo presencia  e leva o espectador a testemunhar, como Malcolm X e Marthin Luther King. 

Talvez nada disso fosse preciso, porque o filme sobreviveria muitíssimo bem como um drama familiar, com sua simplicidade, contando a história de um homem sem estudo, que enterrou o próprio pai numa plantação de algodão, perdeu um filho, enfrentou problemas com o outro e que, finalmente, depois de velho, se concedeu a clareza suficiente para entender que o seu espaço de direito na sociedade era muito maior do que sua ignorância podia supor.

Cotação: 3/5

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