segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A menina que roubava livros - 2013



Lady Rá

Quando li A menina que Roubava Livros, fiquei encantada, não pela sua história triste – pessoas tendo suas vidas devastadas pela guerra – mas pela sua narrativa peculiar. O livro, que conta a história de uma garotinha alemã chamada Liesel, que tem o estranho hábito de roubar livros é narrado pela morte. Nada mais apropriado para uma história que se passa durante a Segunda Guerra Mundial. A história é praticamente a mesma de várias que abordam o tema, porém aqui temos ênfase no povo alemão comum, que também sofreu com a guerra, sem deixar de retratar a perseguição dos nazistas ao povo judeu e aos comunistas. O diferencial é a narrativa, a “morte” teve que trabalhar duro naqueles anos, mas ela se interessar especialmente por Liesel, enquanto rondava a sua família para levar a alma de seu irmão e a partir daí passa a acompanhar os passos da menina.

Na adaptação para o cinema, que, diga-se de passagem, é bem fiel aos fatos narrados no livro, essa particularidade narrativa se perde. Sim, há uma voz, uma narrativa em off pontual, que é esquecida em grande parte das duas horas de duração do filme, mas ela não causa o mesmo efeito. Aparentemente é apenas a voz de um narrador comum, que se fosse ocultada no filme, não faz a menor diferença.

O roteiro consegue compilar as mais de 500 páginas do livro em duas horas de filmes: tudo de importante que acontece no livro, acontece no filme, especialmente a ligação de Liesel com as palavras. Porém, a adaptação não carrega a mesma emoção, não há o humor ácido da morte, que observa com ironia aquela rotina árdua de trabalho. E o diretor Brian Percival, acostumado a dirigir séries e minisséries de TV (ele é responsável por alguns episódios de Downton Abbey e a bela minissérie Norte e Sul da BBC), faz um trabalho bonito, mas sem profundidade. Falha em explorar o melhor de seu bom elenco ou em causar tensão em momentos de perigo. É um filme bonito esteticamente, mas superficial. É difícil de acreditar que aquelas pessoas estão vivendo um pesadelo com a guerra as suas portas, com a fome e as privações, o inverno rigoroso. Não se pode esperar a crueza de um filme como O pianista, mas faltou profundidade.

O elenco, como já citado, está bom, mas renderia mais nas mãos de um diretor mais experiente, como Ang Lee ou Roman Polanski. Geoffrey Rush está adorável como Hans Hubberman e Emily Watson, convence com sua Rosa, uma mulher realista, um tanto amarga, mas com bondade no coração. Rudy Steiner e Max também são bem defendidos pelos seus intérpretes, porém a Sophie Nélisse torna Liesel pouco interessante. Ela se sai melhor quando auxiliada pelos colegas de cena, mas em momentos decisivos, especialmente no final, ela deixa bastante a desejar sem contar que a menina não tem aparência de quem passa por sérias privações.

A bela, porém comum, trilha sonora assinada por John Willians ajuda a compor o conjunto que, no fim das contas, nos trás um filme bonitinho, que trará umas lágrimas aos olhos do espectador mais emotivo, mas nada além. Poderá agradar aos fãs do livro que forem menos exigentes, afinal, é uma adaptação fiel, mas falta aprofundamento, aquela peculiaridade da narrativa e a sua força dramática.

Nota: 3/5

Um comentário:

  1. Excelente texto!

    Também achei que não souberam usar a narração em off da morte apropriadamente. E a emoção, pra mim, não existiu em absoluto!

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