segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Clube de Compras Dallas - 2013



Por Jason

Quando Ron (Matthew McConaughey) entra em cena em Clube de Compras Dallas, transando com duas mulheres num rodeio, o filme já anuncia que não será para qualquer tipo de espectador. Quase morto, com aspecto cadavérico, Ron só vai descobrir que está com Aids já em estado avançado em um exame depois de um acidente de trabalho, mesmo após desmaiar e delirar várias vezes porque mal consegue ficar de pé. Sua ignorância não permite aceitar logo o fato de que ele está doente e precisa de tratamento. Em sua cabeça, a doença está restrita apenas a "condutas homossexuais" - sim, Ron, antes de tudo, é homofóbico e não tem consciência de que a AIDS afeta qualquer ser humano independente de cor, credo, idade ou sexualidade. 

Ao procurar saber mais e lembrar de seus casos sexuais, ele finalmente começa a entender - e a aceitar - o que está acontecendo, para então buscar ajuda por medo de morrer. Esbarra, no entanto, na burocracia para obter seus medicamentos, que à época não haviam sido regulamentados nos EUA. Ao ser internado em uma das incontáveis crises em que quase morre, acaba no leito de hospital aos cuidados da simpática doutora Eve - que está pesquisando os efeitos do AZT nos pacientes - e ao lado de Rayon, um travesti também doente que negocia medicamentos. É a partir daí, buscando sua sobrevivência e dinheiro, já que foi dispensado do trabalho e do trailer em que vivia, que Ron passa a contrabandear os remédios do México. 

Um dos vários problemas, contudo, é que se hoje a população se mostra preconceituosa com os pacientes com AIDS, na década de 80 a situação era ainda pior. A doença era condenada apenas ao público homossexual e a indústria farmacêutica ainda estava engatinhando na elaboração de remédios em busca da cura tanto da doença quanto na melhoria dos sintomas. Enquanto as pessoas morriam com a doença à espera de uma decisão dos conselhos de saúde e da indústria, Ron travava sua batalha contra a doença, contra os órgãos farmacêuticos que intimidavam e confiscavam sua mercadoria e contra os hospitais que, na visão dele, ajudavam a matar os doentes por não saberem lidar com os sintomas causados pela AIDS. O próprio AZT, como ele mesmo lembra em sua própria pesquisa, era um medicamento agressivo que matava, além de células contaminadas com o vírus, células saudáveis, o que deixava o sistema imunológico do paciente mais frágil e vulnerável a outras infecções oportunistas.

O filme é baseado em fatos, na história de Ron Woodroof, que em 1986, ao ser diagnosticado com AIDS, passou a contrabandear medicamentos do México e fez disso seu meio de vida e de outras pessoas afetadas pela doença. Para ter o direito de usar o que quisesse como medicação na luta pela vida, a briga de Ron foi parar nos tribunais americanos. O filme, no entanto, se resume a contar os fatos, do período em que descobre a doença até o momento em que ganha o direito pleno de ter assistência à medicação.  

Matthew McConaughey, cuja carreira estava destinada a terminar em filmes de pouca carga dramática ou comédias românticas baratas em que fazia papel apenas de galã, vem surpreendendo em sua ânsia por escolher projetos que demonstrem que ele pode se destacar no campo de atuação. Aqui, Matthew se entrega completamente ao papel e tem a chance de demonstrar uma atuação espetacularmente convincente na pele de um homem que, não bastasse sua aparência cadavérica, beira a escória social. Seu pai era eletricista, função que ele herdou; ele vive se metendo em confusões, mora num trailer amontoado de coisas, se envolve com prostitutas, se droga, é ignorante e problemático. Mas Ron se vê forçado a mudar seus conceitos para sobreviver (e isso inclui fazer par com um travesti, coisa que um homofóbico como ele jamais poderia imaginar), tem sonhos que não poderá realizar e sua condição o leva a aceitar a travesti Rayon. É a melhor atuação da carreira do ator. 

Já Jared Leto, outro que precisou de uma transformação corporal monstruosa para dar vida a Rayon, consegue passar todas as camadas da personagem travesti doente e viciada em cocaína, que tem certeza de que vai morrer porque a batalha contra a doença já está perdida. Transfigurado, é de Leto as melhores cenas do filme, trazendo ao mesmo tempo um suspiro cômico e dramático por sua situação que vai culminar na procura e no reencontro com o pai para pedir dinheiro. O filme tem ótima e ágil direção de Jean Marc Vallee, de A jovem Rainha Vitoria e a produção tem Jennifer Garner como a Dra Eve (ainda incorporando a vontade de ser boa atriz e falhando ao fazer caretas nas cenas dramáticas) e Steve Zhan, no papel de um policial que não agrega nenhum valor a trama.

Clube de Compras Dallas, apesar de não apelar para o melodrama é, ao final, um filme triste e deprimente. O espectador já sabe, de antemão, qual o destino daqueles personagens irresponsáveis e desajustados. Vale, contudo, por traçar um panorama pequeno porém eficiente da AIDS na década de 80 e pelas performances arrebatadoras dos dois protagonistas.

Cotação: 4/5  

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