sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O beijo da mulher aranha - 1985



Por Jason

A dica de hoje de filme é uma produção interessante. É baseado no romance El beso de la mujer araña, escrito pelo argentino Manuel Puig em 1976, dirigida por um argentino, mas naturalizado brasileiro, com um porto-riquenho, brasileiros e um americano no elenco. Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção (Hector Babenco), Melhor Roteiro Adaptado e venceu o de Melhor Ator (William Hurt); rendeu também as indicações ao Bafta e ao Globo de Ouro para Sonia Braga. 

Na trama, época de ditadura e repressão, o prisioneiro político, Valentin (Raul Julia) divide uma cela com o homossexual Molina (William Hurt), acusado de corrupção de menores. Os militares do regime ditatorial querem nomes e a confissão de Valentin enquanto se usam de tortura para isso, na tentativa de desarmar o grupo do revolucionário. Paralelamente, Molina imagina um filme, com uma personagem, Leni (Sonia Braga), uma francesa envolvida numa trama de espionagem envolvendo nazistas. A fantasia serve tanto para amenizar a dor de Valentin por estar preso e longe da mulher que ama quanto fazer com que os dois se aproximem. Dessa proximidade, aliás, nasce a paixão de Molina pelo companheiro de cela. 

O que Valentin não sabe nem imagina é que Molina está contribuindo com os militares para conseguir arrancar dele aquilo que os repressores políticos querem. Para isso, Molina se usa de todos os truques possíveis, criando uma rede de sedução e de cuidados ao passo que reproduz toda a sua dor e melancolia na fantasia romântica do filme que imagina (o roteiro traz um filme dentro de outro filme). Quando Valentin precisa de ajuda ao sofrer intoxicação alimentar proposital pelos policiais, Molina vê a chance de ter aquilo que quer - o companheiro em sua cama - o que mexe não só com seus próprios sentimentos mas também com os do parceiro. Com a ajuda do diretor do presídio (José Lewgoy) e a pressão de um policial (Milton Gonçalves), o homossexual tenta jogar dos dois lados, exigindo favores da polícia e protegendo ao mesmo tempo sua paixão até conseguir sua liberdade condicional. Ao consegui-la, Valentin, por inocência ou não, o instrui para uma missão: a dúvida passa a ser se Molina terá coragem de executar ou não, já que o destino que se anuncia é trágico como nos filmes românticos que ele imaginava.

William Hurt, embora às vezes pareça caricato, defende muito bem seu personagem, transitando entre o sensível e apaixonado, como alguém que quer defender o seu parceiro, mas também o sofrido, ressentido e magoado. É uma pessoa infeliz por, nas palavras dele, nunca ter encontrado o homem de seus sonhos e ter se apaixonado pelas pessoas erradas - e vê em Valentin o homem que ele sempre desejou, mas nunca teve. Molina é um presente para qualquer ator e um personagem complexo. Demonstra clareza suficiente sobre sua condição de prisioneiro que envergonhou sua própria mãe, tristeza por não se aceitar como homem e sonhar em ser uma mulher ("se eu pudesse eu o cortaria fora", diz, sobre seus genitais), medo de não conseguir sair dali, medo de abandonar Valentin, mas inteligência para atrai-lo à sua teia e conseguir o que quer tanto dele quanto dos policiais. Igualmente, se mostra ingênuo ao final do filme.

O saudoso Raul Julia, esquecido pelas premiações da época, tem aqui um desempenho excelente, transitando entre o amor e o ódio pelo homossexual enquanto não esquece sua companheira perseguida pela polícia. Sonia Braga incorpora com perfeição os trejeitos de uma mulher sedutora e apaixonada por um homem errado na fantasia, assim como dá vida a Mulher Aranha do título, criada por Molina e a Marta, o amor de Valentin. O filme ainda tem no elenco Milton Gonçalves, Nuno Leal Maia, Herson Capri (como Werner, a paixão de Leni) e outros brasileiros, falando inglês com sotaque carregado. 

O filme pode parecer mais longo do que realmente é (todo o filme se passa praticamente dentro da cela com os dois presos) e o final pode não agradar muito para alguém que acabou se envolvendo com os personagens e, de certa forma, torcendo por eles. 

Cotação: 3,5/5

Preste atenção: a personagem Lídia. Ela é Ana Braga, irmã de Sonia e mãe da atriz Alice Braga.

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