quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Até o fim - All is lost - 2013



Atenção: o texto contém spoilers.

Por Jason

Até o fim vem colecionando indicações a prêmios para o seu único ator em cena, Robert Redford, e todo e qualquer prêmio a que ele seja indicado, já aviso de antemão, é merecido. O filme começa com um monólogo em tom de despedida e um objeto flutuando no meio do mar distante 1700 milhas do estreito de Sumatra. A trama volta para oito dias antes e estamos com um envelhecido e fora de forma Robert Redford dentro do seu veleiro, que se chocou com um contêiner flutuante perdido de algum navio de carga e está com um rombo no casco. A água está invadindo o barco aos poucos, danificando muitos objetos de comunicação, e o contêiner está preso ao buraco que abriu na embarcação. 

Sozinho, o personagem consegue desgarrar o barco do objeto mas há milhares de problemas que ainda estarão por vir: o buraco precisa ser selado; ele está incomunicável no meio do oceano sem saber para onde está indo e travará uma batalha pela sobrevivência - que parece estar perdida de antemão - quando o veleiro é atingido por uma tempestade que se aproxima. Com o naufrágio do barco, o personagem ficará ainda mais perdido no mar, dentro de um bote salva vidas, enquanto é castigado pelo sol e pela força da natureza. À medida que o filme avança, vão se esvaziando todas as esperanças - incluindo a dos espectadores estarrecidos -, a começar com a falta de água potável, a falta de comida, o cerco dos tubarões ao bote e com todos os perigos que o mar oferece. Pior: vibramos com a chegada de dois navios por perto, mas o personagem é invisível às embarcações que trafegam pelas rotas próximas e está se afastando cada vez mais delas.

Filme de náufrago não é novidade no cinema. A diferença é que aqui praticamente não há diálogos (após o monólogo inicial, o segundo diálogo só vem vinte minutos depois com um pedido de socorro e em seguida, a próxima palavra só será proferida a partir de uma hora) o que faz o filme se aproximar mais de Náufrago, com Tom Hanks, no seu desenvolvimento, do que de outros filmes - com a diferença que aqui não temos uma bola de vólei como companhia para o martírio do personagem. 

Com uma trilha sonora excelente e eficiente, Até o fim traz uma direção bem calibrada mas que não teria o impacto que tem sem a afiada atuação de Robert Redford, que segura o filme do começo até o final.  É uma das melhores atuações de sua carreira, sem dúvidas. Apesar de praticamente não falar, Redford consegue passar sua agonia e desespero com grande verdade, seja nas rugas da idade ou na expressão de resignação, seja no seu esforço físico visível ou na fisionomia de quem não aguenta mais lutar. O fato de estar velho parece adicionar, aliás, um fator importante à trama: toda a atividade no veleiro exige um esforço monumental, como mostrado na luta contra a tempestade que o leva facilmente a exaustão - e quase o mata. Assim, para sobreviver, ele precisa brigar não apenas com a natureza, mas com o destino trágico que o cerca, com o acaso, com a imprevisibilidade do mar, com a solidão, com a própria embarcação que está agonizando prestes a afundar - e, claro, com seu próprio corpo -, o que faz de sua jornada um completo exercício de superação.

O paralelo com o sucesso de 2013, Gravidade, é inevitável. Claro que não podemos comparar o orçamento de superprodução de um (100 milhões) com a mixaria usada para Até o fim (8,5 milhões de dólares). Falo da essência dos personagens, que é a mesma. Se temos na ficção espacial Sandra Bullock perdida na solidão do espaço e desesperada para voltar para casa, aqui temos Redford perdido no meio do oceano, igualmente sozinho e em condições desesperadoras. Qualquer uma das duas situações é aterradora. Ambos aprendem, improvisam, pensam em desistir, contam com um pouco de sorte de última hora, mas, movidos pela fé ou por uma força maior, seguem adiante. 

São filmes que nos revelam surpresas sobre o espírito humano, nossa coragem, força, luta e superação dos nossos próprios limites. Aqui o roteiro limpo e simples se sai um pouco melhor nos detalhes do que no filme de Sandra. Ele não usa o personagem para explicar a plateia o que ele faz em cena com palavras - ele traduz tudo em imagens muitas vezes silenciosas, melancólicas, num trabalho extremamente peculiar. Reparem: ao perceber a falta de água, ele improvisa; ao ver um navio se aproximar, ele se revela esperançoso em uma fisionomia, que se desfaz logo em seguida ao perceber que não é notado na imensidão azul; o monólogo do começo vira a carta dentro de um pote para quem a encontrar, já que é o momento em que o personagem está entregando os pontos, etc.

Há um ou outro ponto baixo - como no momento em que ele está no bote salva-vidas durante uma tempestade e a confusão da montagem é tão grande que não dá para entender o que está se passando com o personagem. E o final, sem epílogo e meio abrupto, pode não agradar e não ser unanimidade entre os espectadores. 

Cotação: 4/5



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