segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Alien, uma iniciação feminina (artigo)


Alien, uma iniciação feminina


Na iconografia hollywoodiana, a imagem da Redenção é representada pela tenente Ripley, heroína de Alien, uma superprodução em quatro episódios: para salvar a humanidade ameaçada por uma procriação aberrante — alien — ela também deve sacrificar sua progenitura, a filha e o filho que a criatura extraterrestre a obriga a parir. O personagem epônimo, o estrangeiro (alien, em inglês) que a heroína deve combater, tem as características de um predador excepcional — uma espécie de inseto gigante, meio formiga, meio aranha — que transforma suas presas humanas em receptáculos do conteúdo de seus ovos. O único objetivo do monstro é reproduzir-se: nunca o vemos comer, nem copular. A ação predatória de que se trata aqui é a procriação: o bicho não devora as suas vítimas, mas se apropria de seus corpos para procriar. Este invasor é como um câncer: ele extermina de dentro, penetrando o organismo hospedeiro, onde se desenvolve com a velocidade de um raio. A arma suprema do Alien é a gravidez: o conteúdo dos seus ovos é implantado no peito da vítima, através de um órgão projétil cuja extremidade penetra o esôfago; ao cabo de uma gestação torácica relativamente rápida, o parto do recém-nascido provoca a explosão do hospedeiro.

No universo da ficção científica, Alien poderia ser considerado a seqüência lógica de Admirável mundo novo: tudo acontece como se a procriação natural, sob a máscara do monstro, viesse assombrar os humanos do futuro, que a tinham renegado. Esse tipo de filme antecipa um futuro em que a gestação, privada de seus direitos, tentaria retomar o corpo humano — independentemente do sexo — bem como a Terra onde foi condenada e relegada à condição de curiosidade antropológica. E como que por acaso, nesse mundo em que reinam a mistura e igualdade entre os sexos, só uma mulher é capaz de combater essa "sobrevivência" aberrante que é a gestação. Portanto, essa nova forma de mitologia traz à tona, de maneira dramática, o que tende a ficar oculto em nossas sociedades 'igualitárias': uma assimetria primordial que favorece as mulheres ao nível da reprodução e lhes dá poderes específicos e exclusivos. O útero é percebido — e apresentado — como uma caixa de Pandora de onde podem sair mil demônios.

Trazendo a possibilidade de dissociar sexualidade e procriação, os novos modos de reprodução (fecundação in vitru, bebês de proveta, clonagem) sacralizam o campo da obstetrícia e a especificidade da função reprodutora feminina, ou seja, a gestação. Esta pode então se expressar no imaginário cultural sob a forma de entidade autônoma, desligada de seu suporte habitual, a mulher. A gravidez assume o aspecto de uma fera cuja máscara monstruosa esconde os poderes femininos, ocultos e mortíferos, que os aprendizes de feiticeiros tentariam reprimir, ou dos quais procurariam se apropriar. Somos assim levados a assistir ao combate entre A mulher e sua função procriadora, ao qual a epopéia Alien dá todo o destaque. No segundo episódio, Ripley, a heroína, tem de se defrontar e lutar com a rainha alien para impedi-la de inseminar uma menina, Newt, única sobrevivente em um planeta infestado por essas criaturas e que alguns terráqueos haviam tentado colonizar. Com um lança-chamas, Ripley destrói uma colméia com centenas de ovos que se assemelham a úteros gigantes e cuja abertura, a vulva, permite a liberação do órgão intermediário destinado a inseminar os hospedeiros que estiverem ao alcance. Ripley se vê forçada a tirar Newt da crisálida viscosa que a envolve, quando o ovo à sua frente está prestes a romper. Assim, ela impede a entrada precoce da jovem na puberdade, evitando que seja possuída pelas genésicas forças femininas.

A identificação de Ripley com a menina é evidente, e nos será posteriormente confirmada. No segundo episódio, Newt explica que sua mãe sempre lhe dissera que monstros não existiam. No entanto, no último episódio, Alien, a ressurreição, é a voz de Ripley, clonada e grávida de uma pequena rainha, que enuncia essas mesmas palavras. E o episódio anterior, Alien 3, começa com uma cena no interior da nave onde Ripley e Newt, em estado de hipersono, têm diante delas um ovo de alien que começa a se abrir, pressagiando a inseminação mortal que as espreita. De fato, um pouco mais tarde, quando a nave é recuperada, Newt está morta e Ripley, grávida, vai para uma prisão intergaláctica. Os prisioneiros têm duplo cromossomo Y, característica associada à natureza do crime que cometeram: estupros ou assassinatos violentos de meninas e mulheres. Eles aprenderão, por conta própria, que se enganaram de alvo: as mulheres são apenas o veículo da reprodução natural, atrocidade personificada por Alien. No entanto, quando iniciadas, elas se tornam aptas a sacrificar o poder capaz de possuí-las. Ripley o provará ao atirar-se no aço em fusão, levando consigo para o caldeirão infernal, a coisa que se projeta do seu peito. Combinam-se nela a imagem do Cristo — pois ela se precipita com os braços em cruz — à da Madona com o menino, pois ela comprime contra o peito a rainha que tenta fugir. Cristo e sua mãe, a virgem, nascem de uma concepção miraculosa em que apenas o sobrenatural, Deus, está em jogo, mas não a natureza. Bettina Rheims e Sigourney Weaver estão na mesma sintonia.

A saga de Alien é a alegoria de uma iniciação feminina perpassada pela ideia de que as próprias mulheres devem aprender a sufocar seu poder materno para libertar-se da herança abjeta legada por Eva. Os roteiristas de filmes de ficção científica muitas vezes recorrem a uma trama iniciática inspirada em material etnográfico para pontuar a trajetória dos seus heróis; eles adaptam-na à ideologia ocidental através de metáforas, de concentrados simbólicos. Para permitir a passagem das crianças ao status de adultos, as iniciações masculinas e femininas que ocorrem nas sociedades ditas tradicionais costumam ser compostas de três fases. A primeira, chamada de separação, consiste em retirar os jovens de seu ambiente habitual: os rapazes são levados para fora da aldeia, para o mato ou a floresta, numa zona não domesticada e considerada selvagem; as moças costumam ser isoladas em local contíguo à aldeia ou em um recinto fechado, dentro de suas próprias casas. A segunda fase, designada por margem, ocorre nesse local de reclusão e pode durar vários dias, ou anos; nesse espaço 'liminar' [no original, hors société — 'exterior à sociedade'], os jovens têm de submeter-se a uma série de provações que visam transformá-los. A última etapa, a agregação, consiste em reintegrá-los à sociedade de origem, mas com um novo status de homem ou mulher adultos, aptos a casarem e procriarem.

Vejamos a trama do roteiro de Alien.

Uma jovem é retirada de seu meio habitual — a Terra — para ser imersa em um ambiente selvagem, não domesticado — o espaço intergaláctico —, onde deve passar por inúmeras provas que a confrontam com o aspecto da feminilidade ao qual ainda não tivera acesso: a maternidade, que a aterroriza e que adquire para ela a forma horrenda de um monstro. Mas ela é levada a assumi-la progressivamente. Ao longo dos quatro episódios, ela se torna sucessivamente: ama-de-leite de um gatinho, mãe adotiva de uma menina, genitora de uma fêmea e de um macho não humanos. Ripley acabará incorporando o lado animal que a torna mulher. Para tanto, deverá submeter-se à última prova — a morte — para renascer das próprias cinzas totalmente metamorfoseada, ainda mais forte e feminina do que antes. Assim, torna-se capaz de abater definitivamente o dragão maternal, o que a autoriza a ser reintegrada à sociedade humana, retornando à Terra.

As iniciações masculinas e femininas que ocorrem em outros contextos culturais — bem reais — legitimam o acesso dos indivíduos a um papel procriador que lhes permite passar do status de criança ao de adulto, apto a ser pai. A iniciação da heroína de Alien, ao contrário, a leva a recalcar seu papel materno: ela o incorpora, mas para melhor silenciá-lo, matando a própria progenitura que gerou. O simbolismo da morte e do renascimento da heroína, dramaticamente veiculado nos dois últimos episódios de Alien, é justamente o que caracteriza a iniciação masculina nesses outros contextos culturais: graças a essa prova, os homens se transformam na própria garantia da fertilidade feminina. Podemos perceber que, se o alvo das iniciações tradicionais e utópicas diz respeito ao futuro da função reprodutora, o tratamento a que se submetem adquire direções contrárias: no primeiro caso, cabe aos homens, os iniciadores masculinos, favorecer a expressão da maternidade; no segundo, cabe à mulher privar-se desta. Essa inversão simbólica reflete maravilhosamente a transformação das relações entre os sexos que se está produzindo nas sociedades modernas e ocidentais: não caberá à mulher pós-moderna, representada pela estrela de cinema Sigourney Weaver, adotar uma função materna imposta pelos homens, e sim, em uma posição de comando, participar do controle dessa função. As mulheres são vistas como os heróis do futuro, capazes de domar a reprodução.

O monstro de Alien simboliza a alteridade fundamental que opõe os sexos feminino e masculino ao nível da reprodução. A gestação, exclusividade feminina, é mostrada sob a forma de uma infestação capaz de destruir uma humanidade que teria atingido o mais alto grau de evolução tecnológica. Ela é percebida como uma força orgânica sem igual, que investe, hoje, o corpo feminino mas que, no futuro, poderia ser transformada — graças à mais sofisticada tecnologia, isto é, a biotecnologia — em arma biológica suprema que metamorfosearia o inimigo em escravo reprodutor, totalmente submetido às necessidades de reprodução daqueles que o possuíssem. Nessa mitologia, diferentemente dos clássicos filmes de aventura americanos, como os westerns, o inimigo não quer defender seu território, mas invadir o alheio: a Terra e, mais especificamente, o corpo dos terráqueos. Os diferentes significados do termo alien no vocabulário anglo-saxão não deixam dúvida quanto à temível alteridade com que são confrontados os protagonistas dos filmes contemporâneos de ficção científica e de terror: "hostil, inaceitável ou repulsivo; diferente ou separado; estrangeiro, supostamente vinculado a seres de outros mundos; espécie vinda de fora que foi introduzida e aclimatada em seu novo habitat" . No primeiro episódio da saga de Alien, este é descrito como um "organismo perfeito", "dotado de extraordinária capacidade de adaptação" e cuja "perfeição só se iguala a sua hostilidade", "um sobrevivente que não é poluído pela consciência, o remorso ou as ilusões da moralidade".

Extraído da internet

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