segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Robocop - 2014



Por Jason

O primeiro Robocop custou uma mixaria para os padrões Hollywoodianos atuais: 13 milhões, mas faturou só nos EUA quatro vezes mais. Virou um fenômeno pop, com sua mistura de ficção, humor, drama e ação, cortesia das mãos habilidosas de Paul Verhoeven em arquitetar sua sátira ao mundo moderno. O filme rendeu uma série de quinquilharias, se expandiu para outras mídias, rendeu continuações (inferiores ao original) e virou clássico. Agora o personagem está de volta nessa produção milionária pilotada pelo diretor de Tropa de Elite, José Padilha.

Num futuro próximo, androides e drones são usados em operações militares em países fora dos EUA. Dentro dos EUA, a situação é diferente: o país não quer robôs na rua sobre o pretexto de que os robôs não sabem separar o que é certo ou errado. A mídia então tenta mudar isso, apoiado pelo fato de que a maior corporação de produção robótica, a OminiCorp, está se movendo, oferecendo até dinheiro para os políticos mudarem esse quadro e se beneficiar. O povo quer, na verdade, um produto que possam amá-lo e adorá-lo e cabe ao marketing e a empresa pensarem em uma forma de unir emoção humana e tecnologia em apenas um produto. Um dos requisitos mínimos é ter equilíbrio psicológico e emocional para aceitar a nova condição e é aí que entra o policial Alex Murphy.

Depois de uma operação mal sucedida, o policial Alex vê seu amigo ser alvejado. Os assassinos armam uma emboscada para ele explodindo seu carro na porta de sua casa. Alex, entre a vida e a morte, vira assim o candidato perfeito para a experiência. Desmantelado, vivo dos pulmões para cima, sustentado pelo esqueleto de metal, o policial é agora uma "coisa", um produto desmontável como a sociedade e a corporação queria, alimentado por tubos e conexões. Ele quer vingança pelo que aconteceu a ele, contra aqueles que o transformaram e feriram sua família dessa forma -, ao passo que o doutor que o criou caminha entre as obrigações para criar e aperfeiçoar aquilo que a empresa deseja e o seu afeto pela sua criatura.

Até aí, não dá para falar nada do roteiro nem da parte técnica do filme. No começo, num prólogo eficiente, o filme já mostra a que veio, carregando tudo o que uma produção de 100 milhões de dólares pode exibir nos seus portentosos efeitos especiais, efeitos sonoros e na sua montagem vigorosa. Padilha faz um ótimo trabalho no uso de efeitos e domina as cenas de ação simulando vídeo game - que deve ser um deleite para essa geração XBOX - desde o uso dos robôs modelo 209 caminhando pelas ruas de Teerã, passando pelo momento que as lembranças de Alex dão lugar a sua situação real, a condição de ciborgue, até quando ele entra em ação contra os modelos ED 209 no prédio da corporação (é a reprodução de uma sequência do original elevada ao cubo, com tudo o que uma produção desse calibre pode pagar).  

No campo do elenco estelar, Gary Oldman consegue transpor toda a complexidade do personagem, usando a própria corporação a seu favor e até salvando Alex em uma cena chave. Michael Keaton, como o líder da empresa, se garante como o ganancioso e manipulador empresário que quer lucrar em cima de políticos e que se vira contra o próprio ciborgue quando percebe que Alex é uma ameaça. Samuel L. Jackson, um personagem da mídia manipuladora, dá o seu recado e é dele a maior sátira do filme (percebe-se até o mesmo tom tentando emular o empregado por Paul no original e em Tropas Estelares). Tudo isso traz diferencial ao filme, sem dúvidas, e agrega valor. Mas é difícil fazer vistas grossas para os problemas que saltam os olhos, que podem ser resultados da confusão pela qual a produção passou. 

A violência existe, aqui e ali (no próprio aspecto real do Alex máquina, por exemplo), mas sem muita gravidade - sem isso, a própria situação de Alex patina e é nesse ponto que o original começa a se sobrepor ao remake, já que as comparações passam a ser inevitáveis. Enquanto a cena de atentado contra Alex no primeiro era visceral, corajosa, chocante e dramática - mais do que tudo, necessária para o espectador sofrer e torcer pelo seu retorno -, ela perde o peso aqui (demérito dos produtores, que queriam censura baixa). Não há cenas marcantes, há uma discussão superficial a respeito de humanidade e robótica, que deixaria Isaac Asimov se revirando no além. Jennifer Ehle, de Guerra ao terror, entra e sai sem dizer a que veio. O esteriótipo recai sobre o ótimo Jackie Earle Haley, relegado a papel de apoio sem profundidade (aliás, o outro vilão é uma inutilidade sem tamanho). Pior é Abbie Cornish, que não convence como a esposa de Alex e protagoniza um momento de vergonha alheia dramática fazendo o policial parar a motocicleta e pedindo para ele voltar para casa. 

Personagens femininas, aliás, são um problema porque nenhuma aqui é digna de nota - nem mesmo a chefe corrupta do departamento de polícia, que some no embalo do roteiro - e a falta da parceira de Nancy Allen, que fazia contrapeso no original à crueza do próprio robô, leal ao seu parceiro, capaz de enfrentá-lo e de transformá-lo, é sentida a todo momento (resta a um coadjuvante o trabalho, sem sucesso). O filme parece sofrer também com seu excesso de temas a serem discutidos e que nunca se aprofundam (o drama familiar e do homem máquina, que Paul tão bem conseguiu compactar no original, aqui é constrangedor, salvando-se algumas cenas, como no reencontro dele com o filho). Joel Kinnaman não tem muito o que fazer a não ser revirar os olhos, engessado pelo traje (mas deve-se dar o desconto, já que Peter Weller sofria do mesmo mal no original). Para alguns, a falta de alívio cômico e a vontade de se levar a sério demais pode ser um problema (e eu acho que diante de toda a situação é o de menos aqui).

O final, embora case com o começo do filme, não chega sequer a raspar a humanidade e inteligência do original, em que o confuso Robocop finalmente escolheu quem e não o que ele queria ser. Tudo isso pode ter se refletido na parca bilheteria e na divisão da crítica. Os produtores devem ter se esforçado para fazer algo mais acessível e bem intencionado, refilmando um clássico que ainda está presente com muita força no imaginário popular. Mas de boas intenções, todos sabem, o inferno está cheio.

Cotação: 2,5/5

Tem que desapegar - e muito - do original para funcionar. Não é tão ruim quanto achavam que seria, nem tão bom quanto poderia ser.

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