quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Terra de Ninguém - Badlands - 1973



Por Jason

Terra de ninguém, filme de estreia de Terrence Malick, é inspirado numa história verídica ocorrida nos anos 50. Kit, um gari com ares de rebeldia alá James Dean, se envolve com uma menina, Holly, filha de um pintor. O pai não quer que a menina se envolva com ele, mas Holly, uma adolescente apaixonada dez anos mais nova, acaba mergulhando no relacionamento. Por trás da aparência do rapaz esconde um psicopata violento que Holly e a sociedade norte americana vão descobrir da pior maneira possível. 

Depois de largar o emprego, Kit tenta a vida como peão, que não dá certo. Mata o pai da menina, queima a casa deles, espera que a polícia acredite que eles se mataram e foge com ela. Na fuga, Kit se aloja com Holly no meio do mato, mas é descoberto e, caçado, comete mais assassinatos - todas as vítimas são mortas pelas costas, sem possibilidade de defesa. Aloja-se na casa de um antigo conhecido e também o mata. Os federais começam a se movimentar em busca do psicopata e eles se refugiam em uma propriedade de um rico morador onde o fazem de refém e roubam seu carro. Mais tarde, Kit se renderá e sua pena será a cadeira elétrica. Quanto a Holly, restará a liberdade e um casamento com o filho do advogado que a defendeu, além dos olhares de reprovação da sociedade.

Malick não questiona nem investiga os crimes ou o tanto que cada um carrega. É Kit quem puxa o gatilho em todos os assassinatos, mas é Holly a conivente com isso. Ele filma tudo de forma contemplativa, poética - e linear (o ritmo pode ser um problema para quem espera um filme mais enérgico). Há uma bela fotografia - sim, ainda hoje, o filme é belo e enche os olhos - e essa beleza contrasta com o horror e frieza de algumas cenas de assassinato. Quando o conhecido de Kit é alvejado pelas costas, ele cambaleia até morrer lentamente em uma cadeira enquanto Holly divaga questões que parecem surreais diante do acontecido. 

Na fuga, Malick filma os carros cruzando paisagens áridas, pastos secos e estradas de poeira como um cartão postal. Há assim um paralelo excelente, entre as figuras de Kit e Holly, que desperta fascínio não só nos policiais que os prendem mas no próprio espectador. Só que gostar dos dois é uma cilada porque faz com que o espectador deixe de ser testemunha dos crimes e passe a ser culpados por eles - já que os assassinatos parecem ser necessários para que seja permitido aos dois ficarem juntos, ao mesmo tempo em que são injustificáveis. 

Holly é sonhadora, fantasiosa, romântica e parece desequilibrada, ingênua e distante da realidade, aparentemente sem ter consciência dos atos de seu namorado. A sua fantasia é transmutada numa casa de árvore em que os dois passam a morar juntos no meio do mato. Quando o pai é assassinado, ela parece não entender o que aconteceu e não apresenta clareza suficiente para saber onde se meteu. Narrado por ela e por sua voz doce, o filme acaba impressionando pela alienação da menina e por sua visão romântica do que está acontecendo. Enquanto alguém é assassinado, ela tenta justificar aquele ato de alguma forma porque sua paixão cega não a possibilita separar realidade de fantasia. 

Nesse sentido, é o casal protagonista que brilha. Tanto Sissy Spacek quanto Martin Sheen conseguem desempenhos excelentes e traduzem toda a beleza, vazio e piração do casal desajustado, que parecem buscar um lugar e uma felicidade que só existe na imaginação.

Cotação: 4,5/5

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