sábado, 8 de fevereiro de 2014

Walt nos bastidores de Mary Poppins - Saving Mr Banks - 2013



Por Jason

O filme conta a história de como Walt Disney tentou convencer, durante anos, a escritora Pamela Lyndon Travers a vender os direitos de seu livro, Mary Poppins, para que fosse transformado em filme - e de como o processo de produção do filme foi complicado desde o começo. Pamela não queria que Mary Poppins se transformasse em um musical ou filme para crianças, ou ainda desenhos que ela considerava bobos. Pamela era uma mulher difícil, por vezes desagradável de se trabalhar. Mas era também alguém que estava protegendo sua obra para que não fosse descaracterizada em um projeto que poderia não respeitar sua essência. Como ela mesma afirmava, seus personagens eram sua família. Paralelo ao embate entre Disney e ela, conhecemos um pouco mais da vida de Pamela quando ela era criança e dos problemas com sua família.  

Durante a infância, o pai a fazia fantasiar, contando e inventando histórias e fazendo com que a menina vivesse personagens diferentes para escapar da realidade. Pamela era uma menina solitária, que tinha no pai uma inspiração. O pai, por sua vez, vivia perdendo o emprego por causa da bebida e, em um dessas demissões, se viu forçado a sair da cidade e ir morar em um campo, para desagrado da esposa e mãe de Pamela - que tinha que lidar com três crianças, com os problemas do marido, a infelicidade de seu casamento e do rumo de sua vida. O pai dela morreria quando ela tinha apenas sete anos. O reflexo dessa vida desajustada poderia ser visto na própria obra de Pamela, já que ela traz alguns pontos em comum como a relação do Sr Banks e a babá Mary Poppins. Na obra, Banks era banqueiro, como o pai de Pamela. É Banks, aliás, que dá o nome original ao filme e é a forma como Disney quer retratá-lo que acaba se tornando o maior empecilho para que a obra cinematográfica prossiga.

Durante o processo, esse personagem, Banks, é visto como uma pessoa ruim e a produção tenta maquiá-lo como um vilão, uma pessoa horrível, nas palavras de Pamela. Aos poucos, isso acaba mudando, ao passo que Walt arma estratégias para desarmar Pamela - ele a leva para seu parque para um passeio num carrossel e assim despertar aquela criança que, durante toda a sua vida após a morte de seu pai, ela resolveu esconder. Em uma cena, muito bonita e bem elaborada, em que Emma Thompson dá um show, Pamela deixa de ser um pouco aquela figura séria, complicada e enigmática habitual, gargalhando e se rendendo a uma dança do musical.

Todo o filme tem boa reconstituição de época. Além de Tom Hanks, no papel de Disney, em boa caracterização, o filme traz Colin Farrell, como o pai de Pamela, e Paul Giamatti, como o motorista que a conduz. Mas é Emma Thompson o grande trunfo do filme. A atriz consegue transpor a tela e transformar a personagem em uma pessoa real, tátil, com toda a sua complexidade. Quase neurótica, solitária, amarga e infeliz, Pamela é um mistério que as pessoas do estúdio não conseguem entender. É insensível por vezes, sem perceber, mas acaba se entendendo e se mostrando mais vulnerável com o personagem mais improvável - o seu motorista. Não é um personagem agradável e não é fácil: qualquer atriz menos calibrada cairia na caricatura. Emma transmite toda a antipatia nas suas tiradas ácidas e rápidas ao mesmo tempo que exige pena do espectador. É até imoral não vê-la indicada ao Oscar de Melhor Atriz neste ano, quando atrizes com desempenhos inferiores ao dela acabaram entrando. Atire a primeira pedra quem não se debulhar em lágrimas na cena em que Pamela finalmente vê o filme e se lembra de sua infância. Mérito da atriz.

Entretanto, o filme pode não agradar muito aqueles que esperam uma trama mais ágil.  O próprio vai e vem no tempo faz o filme se estender, mudando o foco da trama desnecessariamente e entregando mais sobre a personalidade de Pamela que o espectador não precisava saber. E, óbvio, temos os momentos de clicheria: em determinado momento, Disney baixa na casa de Pamela e faz uma novela mexicana para comover a mulher. A trilha sonora melodramática entra em cena quase que obrigatoriamente, como num novelão, muitas vezes sem necessidade, para comover, como se os atores em cena não fossem capazes de transmitir suas emoções para o público. E o retrato que o filme faz de Disney chega a incomodar em certo ponto: ele é tratado como um homem que beira a perfeição exalando enorme simpatia e bondade, que faz tudo por amor, que não quer transformar o personagem em um produto como seus desenhos (!), um verdadeiro fruto de fantasia cheio de bonecos, com todo amor, carinho e afeto de uma pessoa que sofreu horrores na infância com um pai abusivo. É o maldito efeito de conto de fadas do estúdio, (estamos num filme Disney, nunca esqueçamos) que nem um ator do calibre de Tom Hanks consegue driblar.

Cotação: 3,5/5

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