domingo, 13 de abril de 2014

O expresso do amanhã - 2013



Por Jason

Na trama do filme, o mundo acabou graças a um experimento que visava parar o aquecimento global, mas resultou em uma Era Glacial que exterminou praticamente toda a vida na Terra. Tudo o que restou é um trem gigante, o chamado picador de gelo (Snowpiercer, que dá o nome original) já dividido em duas classes sociais dezessete anos depois do acontecido. Do meio para a cauda do trem, estão os pobres, famélicos e favelados, que vivem amontoados como se estivessem em barracos e acreditam que Curtis (Chris Evans) pode liderar uma rebelião contra o opressor Wilford (Ed Harris) responsável pelo trem autossustentável. Do meio para frente do trem estão os ricos, que comandam os pobres com armas e violência moral, física e psicológica, liderados por Mason (Tilda Swinton). 

Fartos da degradação que vivem, esses sobreviventes organizam uma rebelião que visa primeiro libertar um prisioneiro, o qual será capaz de levá-los para a dianteira do trem. O prisioneiro e a sua filha, de dezessete anos, vivem chapados com uma droga chamada Kronol (que também serve como explosivo) e possuem os meios de abrirem as portas dos vagões para chegar até Wilford. No meio do caminho, Curtis descobre que a ração com a qual são alimentados é feita de baratas e que há um vagão de suprimento de água que precisa ser tomado para uma possível negociação com o grupo mais rico. Depois de um conflito armado com paus e machados contra um exército munido até de óculos com visão noturna, eles conseguem capturar Mason, pressionando-a a levar adiante e acabam numa emboscada - da qual conseguem escapar, não sem antes ter baixas das mais variadas de ambos os lados. 

A obra é uma adaptação da HQ "Le Transperceneige" e a ideia é interessantíssima - não dá para negar que o diretor faz até um trabalho corajoso, com violência gráfica e sangue em profusão. O castigo dado a um dos homens que atira um sapato na cabeça de uma secretária de Wilford, por exemplo, é ter seu braço congelado por sete minutos e depois quebrado com uma marreta. Em outra sequência, há uma série de mortos por machadadas, além de personagens que são empalados sem a menor cerimônia ou que são baleados. As metáforas sociais são pontos fortes, já que o trem é um ecossistema e uma pequena reprodução da humanidade, separada por uma barreira onde a classe mais baixa toma as rédeas da situação sufocada pelo governo autoritário e repressivo, mas que não pode ir completamente adiante, já que o trem não pode ser parado ou destruído pois o frio do mundo exterior supostamente mataria todos a bordo e os recursos de sobrevivência lá fora inexistem. É preciso burlar esse sistema e arriscar às cegas. O que os ricos não sabem é que aos poucos, o gelo está baixando e a natureza está encontrando a sua forma de equilíbrio lá fora. Equilíbrio, aliás, é o ponto chave que faz o trem funcionar. Para manter a população dentro do trem, como explica Mason e posteriormente Wilford, é preciso que exista um controle populacional e de tudo que circula dentro dele. Controla-se a comida, na forma de ração fabricadas em tabletes para os pobres, a água, assim como as pessoas, fuziladas de maneira a permanecerem dentro das capacidades do trem. 

A favor também é o cenário do filme. O lado pobre do trem parece um amontoado de barracos e farrapos, escuro, imundo e fétido, um verdadeiro campo de concentração, onde os homens tem barbas e cabelos por fazer e estão sempre com a cara suja. São contados diariamente e algumas crianças são separadas de seus pais. Do lado rico, porém, há um vagão escola, todo colorido, onde a professora - grávida e posteriormente morta sem a menor cerimônia - ensina as crianças ricas alienadas. Um salão de beleza, uma boate e salões de sauna coloridos, contrastam com o branco desolado do mundo exterior. Dito isso, o problema do filme não está na sua concepção artística nem na primeira metade da trama, está mesmo na sua roteirização daí em diante e nos personagens que soam descartáveis. 

O diretor é o mesmo do filme de monstro O hospedeiro, Joon-ho Bong, que sabe usar bem os efeitos especiais que tem (não são excelentes, mas também não comprometem), e sabe dar ritmo a trama, mas realiza momentos que ao invés de perturbadores parecem tragicômicos. A própria Tilda Swinton, uma atriz talentosa, surge como uma personagem caricata e exagerada, com uma dentição postiça e visual que parece saída de algum filme como Jogos Vorazes. O elenco, aliás, é estelar. Mas Chris Evans não se livrou do seu Capitão América, com a vibe de herói - só faltou um escudo nas cenas de ação. Ele não consegue passar o drama e as camadas do personagem que tem um passado negro bizarro à beira da loucura. Não comove, não emociona e perto de gente de maior calibre, se mostra terrível. Jamie Bell não diz a que veio no filme e resta a Octavia Spencer um papel ingrato de coadjuvante absurdamente descartável, como uma mãe que procura seu filho tomado pelos ricos. 

Há ainda um velho capanga de Wildford, que luta e é mais duro de matar que um John McLaine, já que volta do mundo dos mortos mesmo tendo sido esfaqueado, esganado e perdido cinco litros de sangue (!) Resta a John Hurt o papel de mentor de Curtis, a pessoa que organiza o time, e Ed Harris, que tem a melhor cena do filme - e que mostra que é infinitamente mais ator que Evans. O encontro entre Curtis e Wilford trará mais detalhes sobre como tudo funciona e que poderá, ou não, mudar o seu conceito sobre essa reprodução da sociedade atual em que vivemos, disfarçada nesse caótico transporte ferroviário futurista. Uma pena que o resultado desse encontro possa não agradar a todos os espectadores.

Cotação: 2,5/5

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