domingo, 20 de abril de 2014

O homem duplicado - Enemy - 2013



Por Jason

O texto abaixo contém spoilers.

O filme começa com um show erótico, em que um homem, interpretado por Jake Gyllenhaal, vê uma mulher nua pisar em uma tarantula. Corta para o professor universitário Adam Bell, que leva uma vida ordinária e praticamente padronizada. Sua vida é tão rotineira quanto estúpida: depois da aula, ele sai do trabalho e se encontra em seu apartamento com sua parceira sexual. Os dois transam todas as noites, como que no mesmo horário, de uma mesma posição sexual, durando praticamente o mesmo tempo. A mulher tem a mesma reação depois da transa - ir embora -  começando a demonstrar cada vez mais infelicidade a qual ele não é capaz de notar. 

Um dia, um conhecido lhe recomenda um filme e, após assistir, Adam tem um sonho em que se vê nesse filme. Mais tarde, ao ver o filme novamente, percebe que há uma pessoa parecida com ele, um sósia, chamado Anthony Claire. A partir daí, ele começa a seguir os passos do ator e a procurar por ele. Os dois marcam um encontro e comparecem, não sem antes a mulher - grávida - de Anthony procurar pelo professor e descobrir que os dois são mesmo parecidos. Os dois podem ser apenas simplesmente sósias um do outro, mas podem também ser irmãos gêmeos idênticos, podem ser a mesma pessoa mas em tempos diferentes (o professor já foi casado, lembremos, e a mulher do ator Anthony sugere que ele estaria se encontrando com outra mulher e isso seria motivo para uma separação) ou um dos dois pode estar sofrendo de esquizofrenia. 

Em seguida, uma conversa com a mãe do professor pode ser esclarecedora - ou não. Ela diz ao filho que ele tem um emprego honesto e um bom apartamento, uma boa vida, e deve abandonar a fantasia de ser um ator de terceira por já ter problemas demais (mas nas paredes da casa dela, seu rosto brilha em imagens como de atrizes famosas). É uma participação minuscula, mas eficiente, de Isabella Rossellini. A mulher grávida de Anthony, mais tarde, pergunta, justamente, sobre o encontro com a mãe dele, ao que ele escapa com uma desculpa, sendo que a mãe do ator nunca é mostrada em cena. 

O filme é baseado na obra de José Saramago, o Homem Duplicado e tem um bom tom de mistério e tensão entre os personagens que acaba sustentando o filme até o final. Há também um viés de questionamento sobre identidade, a falta e a perda dela, já que os dois são pessoas iguais até nas cicatrizes - embora o filme não se aprofunde mais nos problemas que isso poderia acarretar, se resumindo aos questionamentos dos dois personagens e preferindo embaralhar o jogo. Jake se defende bem no seu personagem, mesmo sem nenhum arrombo de interpretação, mas joga contra o filme a trilha sonora, que é enfadonha e quase não dá trégua - chega a irritar em certos momentos -, e a fotografia, pesada, escura, por vezes saturada que lembra um Clube da Luta de David Fincher. Há outras coisas mais...  

Os personagens femininos da trama não se desenrolam. A coisa degringola no terceiro ato, quando o ator assume a identidade do professor e o professor a do ator. A mulher grávida parece saber com quem está lidando e pede para o professor ficar, ao passo que a namorada do professor entra em pânico ao perceber que não se trata dele mesmo, já que os dois homens trocaram de lugar. Anthony e a mulher discutem durante o retorno para casa, o carro bate e os dois morrem. Adam, na pele de Anthony, descobre, na cena final, que a mulher grávida se transformou em uma tarantula gigante - o que nos recorda da cena inicial do filme. Uma solução intrigante, mas desnecessária, já que o final do livro, quando um se apossa da identidade do outro, já era por si só aterrorizante.

Cotação: 2,5/5
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