quarta-feira, 28 de maio de 2014

O comboio do medo - 1977


Por Jason

Pode-se dizer que o filme "Comboio do medo", indicado ao Oscar de Melhor Som, foi o começo da decadência de William Friedkin, diretor de O exorcista e de Operação França. O martírio para levar as telas essa empreitada começou na dificuldade de achar o elenco para a produção. Friedkin queria Steve McQueen para o papel central, mas o ator impôs condições que foram rejeitadas pelo diretor. Mais tarde, Friedkin tentou fazer com que Paul Newman, Clint Eastwood ou Jack Nicholson aceitassem o papel, mas eles declinaram. Gene Hackman e Kris Kristofferson também não aceitaram. O papel foi oferecido a Robert Mitchum, mas caiu nas mãos de Roy Scheider, que, embora Friedkin reconhecesse ser um bom ator e que fez um ótimo trabalho, acreditava que seria melhor deixá-lo em um papel secundário, o que não aconteceu.

O próprio Friedkin, aliás, demonstrava não ser uma pessoa muito fácil de se trabalhar, com temperamento explosivo, o que fez com que o diretor de fotografia pulasse fora da empreitada no meio do filme. Friedkin também queria Lino Ventura e Marcelo Mastroianni como atores coadjuvantes, mas eles pularam fora quando souberam que McQueen não estaria. O inferno se completou quando Friedkin demitiu o próprio produtor do filme e as filmagens consumiram tanto dinheiro que a Universal Pictures precisou rachar a dívida com a Paramount: só a cena da ponte, a mais marcante e impressionante, custou a bagatela de um milhão de dólares para ser construída na Republica Dominicana sobre um rio. Depois de concluído, o rio secou, forçando a produção a liberar mais um milhão de dólares para construir outra ponte, desta vez no México. Porém, depois de reconstruída, o rio abaixo dela secou também. O jeito encontrado pela produção foi construir um aparato de efeitos especiais correndo contra o tempo, para que se criasse uma tempestade e uma correnteza artificial e atingisse o que o diretor esperava. Durante as filmagens, mesmo com todo o aparato de segurança e de efeitos especiais, o caminhão caiu cinco vezes da ponte, obrigando toda a refilmagem das cenas e ameaçando a vida de dublês. Foram três meses de pura agonia e um orçamento inchado para a época - 22 milhões de dólares. 

Restava a estreia que, dado o nome dos envolvidos (Roy Scheider tinha estrelado o sucesso Tubarão pouco tempo antes, lembremos) poderia transformar o filme em um relativo sucesso. Engano. Naquele ano, depois de uma estreia badalada em Hollywood, o filme foi atropelado por ninguém menos que Star Wars, que tinha estreado em um circuito fechado mas, alimentado pelas críticas e pela ânsia do público, acabou se alastrando por todos os cinemas do país, fazendo com que Comboio do Medo amargasse um fracasso retumbante e um prejuízo de mais de dez milhões de dólares.

A produção é uma refilmagem de um filme de 1953, O salário do medo. Nele, acompanhamos quatro homens, que são mostrados em prólogos no começo do filme. Jackie é um mafioso americano. Durante um assalto, ele mata um padre que é irmão do maior mafioso da cidade e é caçado. Na fuga, sofre um acidente e some. Os outros são Victor, um empresário francês que está celebrando dez anos de casamento, mas é um fraudador que está prestes a ter sua empresa e sua vida arruinada; Kassem, um terrorista caçado pelo exército em Jerusalém; e um assassino. Os três fogem primeiros fogem para um buraco na América do Sul (o quarto chega depois). Lá, os três são tratados como trabalhadores escravizados por um companhia petrolífera, sendo humilhados, vivendo no meio da selva e impossibilitados de saírem do país já que vivem como clandestinos. 

A possibilidade de sair desse inferno vem com uma missão: após uma explosão na refinaria, eles são chamados para conduzirem em dois caminhões uma série de explosivos que serão usados num projeto para conter o fogo na refinaria. O problema é que os explosivos são altamente perigosos pois, depois de muito tempo estocados, estão envelhecidos e vazando nitroglicerina. Qualquer movimento e tudo se desmanchará rapidamente, o que requer perícia de direção dos motoristas, coragem e frieza dos homens. Além disso, os caminhões estão velhos (são verdadeiros personagens ameaçadores) e é claro, há os perigos da selva: não há estradas que não estejam obstruídas ou esburacadas, pontes prestes a desabarem, um clima chuvoso e nativos hostis em meio a uma guerra civil com o governo ditatorial. 

O elenco é bom, mas é Roy Scheider que está acima dos demais. Pegando o papel de última hora, no embalo, o ator consegue passar toda a dor, desespero e piração de um personagem que está levando uma bomba relógio, cuja missão pode ou não dar certo. Em determinado momento, já desequilibrado e fora de si, seu personagem começa a surtar e dar indícios de que o destino lhe pregou uma peça - o que vai ocorrer realmente, na última cena do filme. Paralelo a isso, Friedkin, e um estilo seco na direção, joga sua câmera no meio da selva, por debaixo dos velhos caminhões, dentro deles, de frente a eles, balançando numa ponte de madeira prestes a cair, passando uma sensação constante de tensão a cada perigo pelos homens encontrado, que vai explodir para o espectador na citada cena da ponte - e que valeu cada centavo investido nela. Os cenários são um ponto a favor: tudo naquele fim de mundo esquecido é decrépito, imundo e velho. A vila sul-americana fede a morte, a desesperança e a miséria, como numa terra sem lei cujo aspecto é por si só ameaçador.

Joga contra o time de Friedkin, no entanto, certas escolhas do roteiro. O próprio começo do filme parece que vai levá-lo a lugar nenhum - são quatro prólogos, como visto, que foram realizados para confundir o espectador e não mostrar quem dos quatro sobraria ao final do filme e que parecem não casar com o restante do filme. Embora necessários para delinear a vida anterior ao inferno de cada um deles, neles é a vida do empresário que mais chama atenção, afinal, todos os cenários que envolvem suas cenas são luxuosos e requintados e vê-lo mais tarde completamente imundo em um barraco no meio daquela vila é um choque para o espectador. O problema é que a interação entre os quatro, depois que surgem na vila, deixa a desejar - o espectador só começa a se importar com eles no terceiro ato e, de repente, dois deles são mortos justamente quando torcíamos por eles depois de tanta privação (mortos, aliás, por causa de um pneu furado). O final pessimista pode não agradar.

Cotação: 3,5/5

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