quinta-feira, 22 de maio de 2014

O pecado de todos nós - 1967



Por Jason

Logo no começo de O pecado de todos nós, percebemos que não se trata de um filme para qualquer público. A narrativa, lenta, e o clima denso entre os personagens escondem muito mais do que o espectador possa supor. Na trama, Marlon Brandon é um major linha dura, Whedon, casado com uma bela esposa, Leonora (papel de Liz Taylor). Seria um casal, além de belo, perfeito aos olhos da sociedade norte-americana: ele é trabalhador, militar, e ela uma dona de casa comunicativa e simpática. Há, contudo, uma série de poréns que o filme vai expondo aos poucos nesse casal saído de um comercial de margarina, que leva o espectador até o limite do suportável e do bizarro.

Vaidoso, não demora muito para que Whedon se mostre um narcisista, do tipo que não para de se olhar no espelho e de cuidar dos seus cabelos. Faz exercícios físicos, como se sentisse assim jovem e atraente, mas o espectador sabe que ele está ficando velho e seu casamento sobrevive de aparências. Não se relaciona mais com sua mulher e dorme até em camas separadas. Sua mulher, aliás, é o exemplo da futilidade. Passa o dia todo apenas a cavalgar, com um cavalo cuidado por um recruta chamado Williams e a pensar numa forma de convidar pessoas para uma das festas em sua casa. Williams, aliás, é tratado com certo desprezo por Whedon inicialmente, quando este manda o recruta limpar os matos da área e o repreende ao vê-lo fazer o serviço errado. Até que um problema do major surge nas entrelinhas: Whedon é um homossexual enrustido. 

Ao ver Williams completamente nu, cavalgando em uma égua negra, Whedon desperta sua louca obsessão pelo rapaz. O que ele não sabe é que Williams é igualmente obcecado pela sua bela esposa, chegando até a invadir seu quarto por várias noites e, pior, ela tem um caso com um coronel mais velho e casado que mora ao lado. O coronel perdeu uma filha e, mesmo depois de três anos passados, sua mulher Alison, que sofreu horas no trabalho de parto, está doente tendo ataques de pânico. Ela sabe da traição mas mantém o casamento de pé assim como Whedon. As coisas começam a piorar mais ainda quando Whedon, desequilibrado pela sua condição, desconta toda sua raiva no cavalo da esposa, provocando uma briga e o total afastamento um do outro. 

Em uma noite, Alison vê Williams invadir a casa de Whedon, acreditando ser o seu marido. Ela descobre o rapaz no quarto da mulher, o que lhe possibilita que peça o divórcio ao marido para que possa ir embora. Alison joga a merda no ventilador para atingir tanto Whedon quanto ao marido  - o fato de que Leonora não está só traindo Whedon, mas também ele mesmo com o recruta, embora o que ela tenha visto no quarto destoe da realidade e o resultado é sua morte pouco depois. O final caminha para o trágico, envolto até mesmo em cenas de suspense e que nos remetem a filmes de horror, com direito a chuva, trovoadas e relâmpagos, uma casa de andar mal iluminada e um assassinato que fecha a bizarrice e choca o espectador. 

Baseado no livro de Carson McCullers, Reflections in a Golden Eye, o filme deveria ser estrelado por Montgomery Clift, que morreu durante a produção e precisou ser substituído. A abordagem e o tom do filme nos mostra que todos os personagens, por baixo da aparência, não são normais. Normalidade, aliás, é uma palavra que não se enquadra no filme e em nenhum dos personagens, e isso inclui também o filipino empregado de Alison, que parece viajar em drogas o tempo todo, como se estivesse eternamente em uma apresentação teatral. Williams é retratado como um homem que beira a psicopatia: ele invade a casa de Whedon e segue para o quarto da mulher apenas para observá-la e mexer em suas coisas como se procurasse por suvenir. Quanto a Whedon, notem, sua obsessão faz com que ele persiga o homem e guarde suvenirs que o fazem recordar e conviver com sua sexualidade, como se neles pudesse realizar suas fantasias. 

Nesse sentido, Brandon dá um show de interpretação, trabalhando toda a problemática sem parecer estereotipado. Aqui e ali, de frente para o espelho, passando seus cremes de beleza escondido, trocando olhares para o rapaz, sozinho em sua casa observando seus suvenirs, Brandon constrói um personagem complexo e intrigante, uma bomba relógio que está prestes a explodir. Ao final, ao perceber a invasão do recruta em sua casa, deixa transparecer o seu medo por ter seu segredo revelado, mas também o seu desejo por achar que o recruta o conhece. É um trabalho ainda crível até hoje, digno dos melhores atores do cinema, sem sombra de dúvidas. Por trás do rosto ríspido e do jeito machão, Brandon trabalha nos detalhes, como numa noite que discursa involuntariamente sobre a vida dos homens na base, diante de sua mulher e do coronel, transparecendo o seu desejo de estar com outro homem ao dizer que os "inveja". Um degrau abaixo, mas ainda assim eficiente, está Liz Taylor, como a mulher bela, mas fútil e infiel do major, mas que tem clareza suficiente para perceber, após a morte de Alison, que as coisas mudaram entre todos eles. 

Como citado anteriormente, o filme não é para qualquer gosto. Tem ritmo lento, meio melancólico, áspero e rígido, mas o trabalho de Huston é perfeito ao expor as mazelas do casamento aparentemente impecável e as debilidades de pessoas tão desequilibradas. De quebra, Huston mira e atira um míssil na cultura machista americana, ao trazer, em plenos anos 60, um tema tão complicado e difícil como a homossexualidade para dentro da vida militar - afinal, Whedon é uma pessoa que todos respeitam e o filipino que trabalha na casa do coronel infiel é uma figura gay que contrapõe a macheza de Whedon. Tudo isso com distanciamento e sobriedade para ninguém botar defeito.

Preste atenção: no final do filme e em Whedon. Ele parece se conectar com outro personagem enrustido, cuja repressão sexual leva a alienação e a violência, o também perturbado Coronel Frank Fitts, papel de Chris Cooper em Beleza Americana (1999).

Cotação: 4/5 

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