quinta-feira, 1 de maio de 2014

O vale proibido - 1969



Por Jason

A trama de O vale proibido, do final da década de 60, traz um pouco de outras produções do gênero envolvendo monstros pré-históricos, como King Kong, Poderoso JoeO mundo perdido: há um personagem inspirado no livro de Sir Arthur Conan Doyle (o paleontólogo) e o monstro é capturado e levado para a civilização, causando pânico ao se rebelar na cidade. Para completar as semelhanças entre os projetos, o filme foi desenvolvido originalmente por Willis O'Brien, criador dos efeitos especiais de King Kong. Mais tarde, após a morte de Willis em 62, o roteiro ganhou outro tratamento e os efeitos ficaram a cargo do mestre Ray Harryhausen. 

As mudanças realizadas foram poucas - no tratamento original, a criatura não seria liquidada como visto no filme e sim atirada de um penhasco por um homem em um caminhão - e as semelhanças com outros projetos conhecidos param por aqui. O vale proibido é uma inusitada mistura de cowboys com dinossauros, em um tom leve de aventura, romance e comédia que requer uma série de concessões do espectador para funcionar. Ele começa com a captura de uma criatura, que mais tarde se revelará um cavalo pré-histórico do tamanho de um gato. O cavalo é treinado para a apresentação em uma arena de espetáculos por uma das artistas do show, a T.J., em um cidade no meio do árido México na virada do século XX. 

Seu ex, Tuck, que a abandonou quando ela tinha intenção de se casar com ele, volta a cidade não só para reconquistar a mulher, mas também para comprar o número artístico do seu show, já que acabou fazendo certa fortuna com um show no Velho Oeste. Nesse retorno, Tuck conhece um paleontólogo, um menino guia e descobre o segredo do cavalo pré-histórico, levando o estudioso para ver a criatura. O velho decide raptar o cavalo com a ajuda de ciganos, para indicar o caminho onde ele foi encontrado e assim encontrar mais criaturas pré-históricas. Na confusão e perseguição que se instala, o grupo é levado ao Vale Proibido - um lugar no meio de uma região árida separada por uma montanha de rochas, cujo acesso é feito por uma caverna e onde habita o misterioso Gwangi, nome dado por uma velha cigana cega.

Gwangi não para de comer desde que entra
em cena
Ao entrar no lugar, o grupo descobre que ele é habitado por outras criaturas pré-históricas, que incluem um Estiracossauro, um Pteronodonte, um Ornitomimus e um terrível Alossauro (o Gwangi). Após confrontos e uma tentativa de fuga e captura do Alossauro, o bicho é nocauteado ao tentar escapar da caverna, provocando o desabamento. Em seguida, é levado para a cidade, para a apresentação na arena, quando se liberta e espalha o pânico, encurralado dentro de uma catedral que é incendiada por Tuck. O fogo acaba, finalmente, matando a criatura.

O filme é feliz em reconstituir o pânico da cidade no momento em que a criatura se liberta. Uma multidão corre descontroladamente pelas ruas, se escondendo como pode, na melhor sequência do filme, que vai resultar numa briga entre o dinossauro e um elefante (bastante lembrada) e na criatura encurralada dentro da catedral, em boa (e trabalhosa) sequência também. Claro que os efeitos especiais, na era da massinha e do stop motion, envelheceram cruelmente: note que o tamanho da criatura muda constantemente, ora em relação a cavalos, ora em relação aos humanos, ora comparado a um elefante e a catedral; o pteranodonte tem asas de morcego e se mexe como tal (modelo semelhante foi usado por Harryhausen em One Million Years BC, de 1966); as criaturas andam sem interagirem com a areia, sem erguer poeira, por exemplo, dentre outras coisas. Durante o período da produção, houve uma divergência em relação a espécie da criatura, que é tratada como um Tiranossauro por uns, mas tem as características físicas notáveis como tamanho, braços e pernas, de um Alossauro. 

O Alossauro salta repentinamente para
pegar o Ornitomimus... Cena que seria executada de
maneira semelhante em Jurassic Park
Apesar dos pesares, nota-se também que o trabalho de Ray nas criaturas é crível e sólido - e ainda hoje, convenhamos, impressionante pela dificuldade de mostrar os monstros a luz do dia interagindo perfeitamente com os atores. Tamanho esforço geraria pelo menos uma cena que inspiraria outro filme de monstros pré-históricos, Jurassic Park: a cena em que o ornitominus corre e é surpreendido pelo carnívoro parece ser reverenciada na cena dos galimimus no filme de 93, uma bela homenagem aliás - potencializada pelo fato de que os monstros de Spielberg se beneficiaram de poderosos efeitos especiais de computação gráfica. Hausen, por sua vez, parece ter se inspirado em outro filme de monstros, Poderoso Joe, de 1949, para compor a cena em que os vaqueiros laçam Gwangi (há muitas outras referências no filme a serem descobertas).


Só que o plot do filme é  bem frágil e o roteiro tem buracos notáveis. Gwangi, ao ser nocauteado pelas rochas, tem seu focinho amarrado por cordas, mas, ao ser transportado, as cordas desaparecem. O transporte, aliás, é a parte mais esburacada do roteiro, que não explica como nem onde os homens arranjaram o enorme carro de madeira para transportá-lo - nem como a criatura bestial se comportou no carro facilmente desmontável até chegar a cidade. Pior: o roteiro não dá ao público nenhuma explicação, seja visual ou não, do ecossistema da região, como Peter Jackson tão bem sintetizou em King Kong (2005), por exemplo. A região é completamente árida e rochosa, não é um oásis no meio do nada, ficando impossível saber como aquelas criaturas tão esfomeadas viveram ali por tanto tempo. 

Gwangi sai para passear na cidade
James Franciscus, de De volta ao planeta dos macacos, é um Charlton Heston classe B, sem brilho algum. Personagens, como o paleontólogo, morrem em cenas inexplicáveis (todo mundo está em pânico, correndo CONTRA a criatura - e ele corre em direção a ela); outros mudam de ideia repentinamente - a artista não queria Tuck, até depois de um incidente na arena ela se render novamente a ele. Mais tarde, ela estava certa de largar tudo para viver com Tuck num rancho, mas logo em seguida a captura de Gwangi e antes da apresentação que dá errada ao público, ela muda de ideia, querendo fazer uma turnê mundial com o bicho. Segundos depois quando tudo dá errado, ela muda de ideia de novo, correndo atrás do rapaz (!). Gwangi, aliás, tem uma fome incontrolável e não para de comer desde que entra em cena: come o pterossauro, come o estiracossauro, o ornitomimus, come um pouco de elefante, um tanto de gente que passa em seu caminho e ainda sobra espaço para um ANÃO! O final, na catedral, parece apressado e termina abruptamente com a construção pegando fogo, sem um fechamento para personagens como o guia mirim ou uma resolução melhor para o casal. Nada que tire o brilho dos trabalhosos efeitos de Ray Harryhausen numa aventura leve e boba que ainda passa muito bem.

Cotação: 2,5/5   

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