domingo, 11 de maio de 2014

Reencontrando a felicidade - 2010



Por Jason

Estudos de psicologia mostram que o luto é um processo de tempo indeterminado, uma fase que as pessoas possuem que começa logo depois que se perde algo ou alguém. Esse processo tem pelo menos cinco fases - a negação do que aconteceu, a raiva pelo ocorrido, uma busca por um conforto ou um acordo para que tudo fique bem, a depressão pela perda e a aceitação. Há pessoas que não consegue chegar a última fase e emborcam em um processo autodestrutivo sem retorno. Esse processo todo do luto é importante para entender como estão vivendo o casal de protagonistas do filme aqui em questão.

Becca e Howie formam um jovem casal que perdeu seu filho de quatro anos poucos meses antes. Enquanto o pai do menino tenta seguir em frente mas sem se desapegar das coisas do menino, a mãe está reclusa, no seu luto, tentando se livrar de todas as coisas que lembrem ele. A fase da raiva passou para ela, mas não para ele. Ela está em fase de transição entre "negociação" e a "depressão". Tentando encontrar um conforto que não sabe onde está, ambos tentam uma associação de pais que passam pela mesma situação, mas Becca escapa e ignora até mesmo os conselhos da mãe em procurar Deus. Já Howie não consegue se disvencilhar das memórias do menino ao passo que Becca não interage muito bem com a própria família, incluindo a irmã que acabou de descobrir que está grávida e a mãe. A mãe de Becca, aliás, já passou por um luto, quando perdeu o filho de trinta anos viciado em drogas e assume a postura de que o processo de luto nunca acaba, mas a pessoa é capaz de amenizar e aceitar. 

Nesse drama intimo do casal, Becca começa a perseguir o assassino de seu filho, um jovem que atropelou seu filho quando este correu para a rua atrás do seu cachorro. Ela mantém conversas com o rapaz que será de certo modo vital para chegar ao final do processo de aceitação sobre o que aconteceu. Percebendo que ela se sente culpada, o próprio menino assume os erros, tentando livrá-la da culpa por ter sido relapsa. Culpa, aliás, é o mote principal do luto que vive o casal, já que ela e Howie jogam para um e para o outro a culpa pela morte do menino, com a diferença que ele demonstra reagir melhor e enfrentar a situação melhor - só demonstra. Na Associação, Howie conhece uma mulher, que também perdeu o filho e está lá já faz oito anos para superar o luto, sem sucesso. Não demora muito para o seu marido ir embora, por saber que eles estavam se destruindo enquanto estavam juntos. Howie pensa até mesmo em fazer o mesmo com Becca, em um interessante momento do filme, mas volta atrás e se desespera, ao saber que Becca poderia ter feito o mesmo com ele. Ambos chegam a um acordo e ao ritmo final do luto. A saída para a aceitação do casal é, justamente, seguir adiante, dia após dia, e deixar que as coisas se encaixem por si só, sem procurar mais explicações, inventando formas de passar o dia juntos e transformar os dias em momentos agradáveis. Como Howie diz, não será fácil, mas é possível.

No drama, dirigido por John Cameron Mitchell, o roteiro é uma adaptação de David Lindsay-Abaire de sua peça de mesmo nome de 2005 e produzido por Nicole Kidman. Quem se sai melhor é ela, aliás, merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme e mais 15 indicações a prêmios. Nicole consegue fazer de Becca uma pessoa real, como se ela fosse uma vizinha ou conhecida do espectador, transitando entre a raiva que se sente por ela e a compaixão, entre a pena e a aceitação de algumas de suas reações que soam completamente plausíveis e sólidas - principalmente quando tenta se livrar de todas as coisas do menino gradativamente, acreditando que isso vai fazer esquecê-lo, ao invés de procurar conviver com isso, a reação de muitos dos espectadores que já passaram por situação parecida. É uma performance discreta, sem arrombos dramáticos, mas incrivelmente eficiente.

Falta a Aaron Eckhart, no entanto, talento suficiente e química para rivalizar com ela - a cena de discussão do casal quando os dois estouram é constrangedoramente ruim para ele e uma prova que ele está fora do tom. O filme, melancólico, dá importância para a coadjuvante (Sandra Oh) em determinado momento, mas a subtrai repentinamente, sem desenvolvê-la - o mesmo vale para o amigo de Howie. Dianne Wiest tem participação simpática como a mãe de Becca, mas sua irmã não tem muito o que fazer em cena a não ser demonstrar que está perdida na vida, irresponsavelmente, com um filho na barriga de alguém sem futuro. A relação da família de Becca, aliás, é pincelada, mas não vai a fundo, mesmo o roteiro dando a entender que eles tiveram participação efetiva no processo do luto de Becca. São escorregadas que não diminuem o impacto de um filme que merece ser visto. 

Cotação: 3,5/5

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