sexta-feira, 16 de maio de 2014

Repórteres de guerra - 2010



Por Jason


Os fotógrafos reais acima; abaixo, os atores do filme
Em 1993, no Sudão, o fotojornalista Kevin Carter estava se preparando para fotografar uma criança faminta tentando chegar a um centro de alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU) próximo à aldeia de Ayod, no atual Sudão do Sul, quando um abutre aterrizou nas proximidades. Vendida para o The New York Times, a fotografia foi publicada e repassada para muitos outros jornais ao redor do mundo. Em 1994, a imagem ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia. No mesmo ano, Carter tirou a própria vida colocando uma das extremidades de uma mangueira no escapamento de sua caminhonete e a outra na janela do lado do passageiro. Ele morreu por intoxicação por monóxido de carbono, aos 33 anos de idade. Partes da nota de suicídio de Carter diziam:

"Estou deprimido ... sem telefone ... dinheiro para o aluguel ... dinheiro para sustentar as crianças ... dinheiro para dívidas ... dinheiro! ... Estou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres e raiva e dor ... de morrer de fome ou de crianças feridas, de loucos com dedos no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos assassinos ... eu tinha que ter ido junto com Ken (Ken Oosterbroek, seu colega fotógrafo que havia falecido há pouco tempo) se eu tivesse a mesma sorte." (Fonte).

A icônica foto de Kevin Carter
Repórteres de guerra (The Bang Bang Club), um filme de 2010 baseado no livro biográfico "The Bang-Bang Club: Snapshots from a Hidden War", traz Taylor Kitsch  e Ryan Phillipe numa história real de um grupo feito pelos fotojornalistas Ken Oosterbroek, Kevin Carter, João Silva e Greg Marinovich (os dois últimos, autores do livro em que o filme é baseado) que possuem a tarefa de cobrir as primeiras eleições africanas após o Apartheid em 1994, correndo o risco de morrerem e presenciando a fome e a miséria do povo africano. A experiência arriscada mudará para sempre a vida de todos eles. 

A grande questão central do filme seria justamente a posição da imprensa no meio do caos e a forma como ela o retrata o confronto. A morte é retratada de perto pelos fotógrafos, que mais parecem urubus ávidos por carniça e precisam registrar o ocorrido adotando, contudo, uma postura de imparcialidade, sem se envolverem com o que está acontecendo, mesmo que isso seja considerado um crime - e isso já é representado em quinze minutos de filme, quando o repórter Greg (Phillipe) fotografa um homem ser assassinado a golpes de facão numa briga de facções rivais. Mais tarde, um homem é morto queimado vivo, o que faz o fotógrafo se envolver numa confusão e convocado a depor por presenciar o crime.

Ken Oosterbroek, morto no conflito
O filme é eficiente em mostrar o trabalho dos repórteres no conflito, reproduzindo todo o caos que vitimou cerca de 15 mil pessoas nas ruas africanas. As questões éticas e morais sobre o trabalho dos fotojornalistas são levantadas - principalmente pela figura de Robin (Malin Akerman), após uma chacina que envolve a morte de uma criança e que ela tem que ajudar na iluminação da cena. Causa também algumas reflexões sobre a postura desses homens: até que ponto o repórter deve ser passivo diante de uma tragédia que pode ser evitada por ele? Essa omissão é mesmo necessária para a profissão? É o que cabe ao personagem Kevin Carter, de Taylor Kitsch, o autor da famosa fotografia da criança africana famélica que um abutre persegue. Kevin foi bastante criticado pela foto e pela sua postura diante do acontecimento, questionado por todos o motivo pelo qual não ajudou a criança e porque não fez mais por ela

Se sua intenção inicial era jogar a culpa para o mundo todo pelo que ali ocorria, o feitiço se virou contra o feiticeiro. E se o filme se focasse em sua vida, a carga dramática seria maior e é aqui que tudo na produção começa a se diluir. O roteiro não destrincha a vida de Kevin - é a visão de Greg, recordemos -, embora toque no seu problema das drogas como sendo uma consequência do peso da fotografia em sua vida pessoal e profissional - quando se sabia que Kevin já tinha problemas anteriores por ter um lar disfuncional em sua vida e já havia tentando suicídio em outra ocasião. O caso da foto, na verdade, só seria um combustível. Também não vai além no drama do grupo, já que Ken Oosterbroek morreu baleado em um conflito, ao que seus colegas continuaram a registrar a cena, que por pouco não vitimou Greg também (o companheiro João perderia as pernas ao pisar em uma mina no Afeganistão em 2010). 

Greg, atingido por um tiro
Há outros problemas no filme que ficam evidentes, e isso diz respeito aos atores escolhidos: Taylor é incapaz de desenvolver um personagem dramático e Ryan é igualmente insuficiente na condição que seu personagem exige, de tão inexpressivos que os dois são. São atores de talentos parcos para o peso que os papeis necessitam. Isso vale para o desconhecido Frank Rautenbach e a bela - mas insossa - Malin. Mesmo com toda a desgraça que ocorre na tela, o momento de maior drama vem de um coadjuvante, ao relatar seu desespero, no terceiro ato, de perder sua mulher e seu filho.

Por fim, sobre a polêmica fotografia, houve contestações de que ela aconteceu da forma que é retratada no filme e que, graças a um ângulo, o fato tomou uma proporção gigantesca erroneamente (a criança não estaria agonizando de fome e prestes a morrer e sobreviveu). O grito de Carter já tinha ecoado e o impacto de sua foto ainda repercutirá por muito tempo.

Cotação: 2,5/5

O filme está completo no Youtube

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