sexta-feira, 13 de junho de 2014

Capote - 2005




Por Jason

Em A Sangue Frio, romance de Truman Capote, o autor descreve minuciosamente como em novembro de 1959, um crime abalou um povoado do Kansas. Quatro pessoas de uma família foram amarradas, amordaçadas e mortas com tiros de espingarda: o patriarca (que inicialmente teve a garganta cortada e enquanto agonizava, levou um tiro na cabeça), sua esposa e os dois filhos, um casal de adolescentes. A polícia chegou aos acusados, Richard Hickock e Perry Smith, condenados ao enforcamento pelo crime. 

O adolescente Kenyon Clutter, amarrado e assassinado
com um tiro de espingarda na cabeça
O filme Capote recria todo o processo de investigação do escritor, suas entrevistas, sua aproximação com pessoas da região, policiais envolvidos no caso e principalmente com os condenados, que passam a demonstrar até mesmo ciumes por ele. Há também uma conotação homossexual entre Perry e Richard, que não é explorada, apenas sugerida - já que Perry tenta o tempo todo mostrar que foi Richard o principal incentivador do crime, mas foi ele quem puxou o gatilho. Richard, aliás, tinha intenção de estuprar a menina Nancy, o que pode ter sido determinante na fúria de Perry também para acabar matando a família daquela forma - se Richard sabia que havia algo de homossexual em Perry, isso talvez nunca tivesse ficado claro. Com a ajuda de Harper Lee, a escritora de O sol é para todoso escritor recria esse passo a passo dos criminosos até a condenação e morte mas o problema surge, no entanto, justamente dessa aproximação do escritor com os condenados. 

A menina Nancy, de 16 anos, assassinada em
seu quarto
Mesmo tendo um tipo físico até mesmo bizarro - homossexual assumido, de estatura baixa, voz e gestual feminino - Capote se torna uma figura fascinante aos olhos dos assassinos. Em contrapartida ele, que tinha contato constante com os dois no corredor da morte, desenvolve maior empatia por Perry. É a partir desse relacionamento que Capote extrai informações preciosas para compor a personalidade de Perry e descobre que há muito entre eles a ponto do escritor demonstrar se apaixonar por ele - mas sem esquecer do crime horrendo e de desejar a execução dos dois. 


Perry era fruto de uma família disfuncional e, além de ter boa aparência, tinha certa sensibilidade e maior educação, razão pela qual despertou fascínio no escritor. Teve uma infância sofrida, como parece de praxe em casos de psicopatas. Era filho de irlandês com uma índia, artistas pobres de rodeio. O pai de Perry bebia e abusava da esposa e dos quatro filhos, razão pela qual ela saiu de casa com as crianças e tornou-se alcoólatra. Quando ela morreu, Perry tinha treze anos, sendo deixado em um orfanato católico onde era espancado e abusado, sendo levado posteriormente a um orfanato do Exército da Salvação, onde de novo sofreu abusos. Na adolescência, se juntou com outros garotos perdidos, passando por casas de detenção por pequenos crimes como furtos.

Perry Smith e Richard Hickock
Dois irmãos se mataram. Sua irmã restante, único contato, fazia anos que não conversava com ele - o pai se mataria aos 92 anos. Aos 16, Perry estava na Marinha, virou pintor, mas após um acidente grave de moto que o fez ficar internado durante seis meses, sofria com dores nas pernas, o que o deixou viciado em aspirinas. Ele conheceu Richard na prisão, onde descobriu de um companheiro da prisão que na casa do fazendeiro havia dez mil dólares. Segundo eles, o objetivo era apenas assaltar a casa, mas a situação teria fugido de controle ao descobrirem que não havia dinheiro lá e que Richard estava querendo estuprar a adolescente Nancy, filha dos Clutter - os bandidos acabaram saindo da casa com apenas quarenta dólares. 

O livro que recria todo esse panorama trágico teria efeito bombástico na carreira do escritor Capote, que terminou anos depois drogado, alcoolizado e depressivo, sem concluir mais nenhum livro. Em se tratando do filme, o escritor ganha dimensão na composição do falecido Phillip Seymour Hoffman, que passa toda a complexidade e inteligência do personagem. Ao mesmo tempo em que seduz Perry para conseguir finalizar sua obra, Capote se torna vulnerável e sofre com o destino trágico inexorável do sedutor Perry. Mas se Hoffman garante a atuação oscarizada, o elenco de suporte também dá seu show. Como Harper Lee, a ótima Catherine Keener, indicada ao Oscar como coadjuvante, surge na tela como o braço direito de Capote. Lee é retratada antes de mais nada, como uma pessoa de clareza suficiente para perceber a alteração no comportamento do amigo, a racionalizar e testemunhar toda a situação e a tentar evitar que o escritor caia na própria cilada de ser dragado por Perry - e a química entre os dois é perfeita. O filme ainda conta com o sempre ótimo Chris Cooper, como o policial responsável pelo caso que sofre alterações emocionais e psicológicas percebidas pela família, obcecado por dar um fim no crime.

Apesar do esmero da parte técnica, com fotografia bem elaborada e boa recriação de época, Capote não é para todos os gostos. Ele demora a engrenar. Ilustra apenas superficialmente o próprio crime, fixando-se apenas nos seus personagens e ignorando outra peça importante do crime, o comparsa Richard - e isso parece misteriosamente reduzir o impacto de toda a situação. Seu roteiro é verborrágico - as conversas entre o escritor e Perry duram uma eternidade - e pode não agradar a todo tipo de público. Nada que tire o brilho de suas atuações.

Cotação: 3,5/5 

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