domingo, 1 de junho de 2014

The Normal Heart (2014)



Roteiro: Larry Kramer
Direção: Ryan Murphy
Elenco: Mark Ruffalo, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Julia Roberts, Alfred Molina, Joe Mantello.

Por Lady Rá

Quando os primeiros casos de AIDS surgiram nos Estados Unidos na primeira metade da década de 1980 (em 1981 pra ser mais exata), a doença desconhecida se proliferava rapidamente entre homens homossexuais. Logo a nomearam como um “câncer gay”. Aquela foi uma época de puro horror. Vários homossexuais morreram, e as autoridades competentes não se manifestavam. É nesse contexto que se desenrola The Normal Heart, produção da HBO, dirigida por Ryan Murphy, baseada na aclamada peça teatral de mesmo nome, escrita por Larry Kramer. A trama acompanha a descoberta e a disseminação da AIDS através do olhar de Ned Weeks (Mark Ruffalo), que ao ver vários amigos morrendo da doença, sem a devida atenção do governo, decide criar uma ONG para alertar a comunidade e prestar auxílio aos infectados pelo vírus. Para isso ele conta com um grupo de amigos Bruce Niles (Taylor Kitsch), Tommy Boatwright (Jim Parsons) e Mickey Marcus (Joe Mantello), além do apoio da doutora Emma Brookner (Julia Roberts), médica que foi  uma das primeiras a tratar da doença e uma das únicas pessoas entre os profissionais da medicina interessadas em ajudar.


Ned (alter ego de Kramer, brilhantemente interpretado por Ruffalo) um escritor, judeu e homossexual assumido, é o tipo de pessoa que não medepalavras, não tem medo de dizer o que pensa, ainda que isso o afaste das pessoas. Desaprovava a promiscuidade promovida com a liberação sexual, mas muitas vezes se entregou ao sexo como forma de fuga da sua própria solidão.  Seu irmão mais velho Ben Weeks (Alfred Molina), apesar de amá-lo a sua maneira, não aceita sua condição sexual e não o enxerga como igual. Ned é explosivo, algumas vezes até desagradável, ao ver os amigos morrendo sem assistência, ele não mede esforços para chamar atenção para a doença, ele bate ponto nas redações de jornais e emissoras de TV, denunciando as autoridades, acusando o governo de descaso, organizando protestos, brigando com os amigos mais comedidos e passivos.

Enquanto a doença se propaga, Ned fica cada vez mais indignado e desesperado, a tensão cresce entre ele e seus colegas da ONG que não concordam com seu jeito histérico e agressivo de agir. Bruce Niles (tenho que dizer que Kistch deu uma boa subida de nível com esse personagem), que forma um contraponto com Ned, prefere ser discreto, e os dois batem de frente muitas vezes, mas há belos momentos entre eles, quando Bruce divide com Ned a dor de perder seu parceiro.

Paralelo a isso, Ned conhece Felix (uma ótima interpretação de Matt Bomer), um jovem repórter do NY Times, por quem ele se apaixona e vive uma grande história de amor. Porém, o mundo dele desaba de vez quando seu namorado é diagnosticado com o vírus e é nesse momento, que, apesar de agressivo e furioso, Ned se mostra um ser humano frágil que só quer o direito de amar livremente, sem vergonha e sem medo.

Assim nós acompanhamos a história desses homens, vítimas do preconceito e do descaso. O filme não poupa o telespectador de cenas chocantes como rapazes doentes, esqueléticos, cheios de manchas pelo corpo definhando e camas de hospitais. Um jovem tendo que pagar 50 dólares a um funcionário do hospital para despachar o corpo do namorado num saco de lixo, porque nenhum médico queria examinar o corpo, nem emitir atestado de óbito, jovens sendo recusados em quatro emergências.
E a cada morte, a cada estatística divulgada, a fúria de Ned aumenta. Ele datilográfa artigos furiosos em sua máquina de escrever “Somos todos bomba-relógios a espera que alguém que nos ative”. Enquanto seu namorado Felix é cada vez mais consumido pela doença.


The Normal Heart é um filme belo e brutal, tecnicamente bem feito, a estética lembra filmes dos anos oitenta, possui uma trilha sonora bem colocada, recheada de músicas da época, conta com excelentes atuações, Ruffalo é certeiro na transição entre a agressividade e a fragilidade de seu personagem, Roberts excelente como a amarga, mas bondosa médica que cuida dos pacientes. Bomer, que emagreceu vários quilos para a fase terminal de seu personagem, tem uma interpretação comovente (sua aparência chega a impressionar mais do que a dos atores de Dallas Buyers Club), Molina excelente como irmão mais velho de Ned, dividido entre a homofobia e cuidado pelo irmão. Parsons, Mantello e Kitsch também tem ótimos momentos, cada personagem é bem aproveitado.  Talvez a turma mais cri-cri possa reclamar dos longos monólogos, herdados do teatro, mas é neles que os atores brilham mais, ou da montagem que torna o filme um tanto episódico, mas isso não compromete, aliás, penso ser até adequado para um filme que contra três anos de história (1981-1984).


Ao final do longa, o telespectador fica devastado e indignado, com a indiferença das autoridades, que fingia não enxergar aquele quase genocídio, se recusando a liberar verbas para pesquisas e tratamento da doença. Considerando que AIDS até hoje não tem cura, é óbvio que muitos morreriam de qualquer forma, porém é ainda mais doloroso ver aquelas pessoas morrem sem assistência.

Mas para além do ativismo político e do debate sobre o preconceito, The Normal Heart é uma história de amor, um amor que muitas vezes pode ser doloroso. E nada representa mais o amor do que uma sequência que mostra Ned cuidando de seu namorado doente. 

Nota: 5/5

Trailer:




Um comentário:

  1. "The Normal Heart"(EUA,dir.Ryan Murphy, 2014), que acabo de assistir,um filme sobre a gênese da AIDS/HIV na Nova Iorque dos anos 1980 é uma das experiências estéticas mais contundentes que tive em minha vida.

    Baseado numa peça teatral escrita por Larry Kramer em1985, nos narra as lutas políticas sobre o então "câncer gay". Os regimes de verdade produzidos sobre a epidemia; as dificuldades da comunidade gay em abdicar de sua liberdade sexual tão duramente construída, em prol da contenção da doença; a negligência do poder público diante da questão proposta pelas lideranças gays protagonistas do filme.

    É preciso sublinhar que "naquele momento histórico, silêncio, armário e vergonha significavam morte", lembra o diretor, a partir das conversas que teve com o roteirista Larry Kramer, que fez a obra com tons assumidamente biográficos.A atuação do Comitê da Crise da Saúde dos Homens Gays, fruto dos movimentos sociais pelos direitos civis homossexuais estadunidenses na década de 1980.

    "Os tempos mudaram, mas a discussão sobre a epidemia global da Aids é ainda tão importante e contemporânea quanto o debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a luta por termos, todos nós, o direito de sermos amados e aceitos como cidadãos, independentemente da afetividade sexual. A História provou que Larry estava certo. De herético, ele se transformou em um dos heróis do movimento pelos direitos civis dos gays nos EUA", nos diz Murphy."

    "The Normal Heart" é uma sequência de imagens sobre a vida, a morte, a vulnerabilidade, o governo e os governamentos dos corpos, da saúde coletiva ... mas também dos silêncios, dos "armários" que sujeitam, das lutas dos movimentos sociais e as tensões dentro dos próprios grupos societários com "identidade" de gênero e de orientação sexual... não bastasse tudo isso, é uma bela narrativa sobre o amor que OUSA dizer seu nome, fazendo um trocadilho com a célebre citação de Oscar Wilde.

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