quarta-feira, 4 de junho de 2014

Vida Nua - The Naked Civil Servant - 1975



Por Jason

Numa época em que a homossexualidade era considerada um crime na Inglaterra, Quentin Crisp já buscava sua identidade a um custo muito caro. Crisp nasceu sob o nome de Denis Charles Pratt em 1908, em Sutton, distrito de Londres. Abandonou a casa dos pais - o pai era um advogado conhecido - e foi para as ruas da cidade tentar ser ele mesmo, assumindo sua sexualidade cedo, enfrentando com coragem, inteligência e bom humor o preconceito da sociedade para um homossexual que, para piorar a situação aos olhos da sociedade, se vestia como mulher.

Quentin chegou a se prostituir para ter dinheiro na Inglaterra do começo do século XX e conseguiu arranjar um homem e conviver com ele por um tempo. A união não deu certo: Quentin queria ter uma vida de madame, era relaxado com os afazeres de casa e não se preocupava em arranjar um trabalho fixo. Não suportou as exigências do rapaz e a vergonha que ele tinha ao sair na rua com Quentin vestido de mulher. Ele enfrentou não só o preconceito de homens, que o faziam de saco de pancadas pelo simples fato de ser gay, mas também dos próprios homossexuais. Os gays masculinizados que se reuniam em bares não gostavam de sua presença porque, aos olhos da polícia, caso fossem abordados, todos eram tratados como homens normais - e ele não. Quentin conseguiu um emprego temporário, fez amizades, mas acabou sendo forçado a deixar o trabalho e arranjar outro, num grupo de balé. Nesse período, se envolveu com outro homem, um funcionário público, com quem tinha um caso amoroso e não era feliz na relação. Passou a sofrer com os vizinhos, que bisbilhotavam sua vida e impediam até mesmo que ele pudesse deixar as cortinas do seu quarto abertas.

Durante a Primeira Guerra, foi dispensado por ser considerado pervertido e teve uma vida sexualmente turbulenta com vários soldados durante o período, mas sempre idealizando um homem que o amasse e que o aceitasse. Em seguida foi levado ao tribunal por acusações infundadas, situação que soube reverter com a ajuda de amigos. Um dos amigos, aliás, começou a ter problemas mentais e foi jogado num hospício pela mulher. Quentin o visitou durante oito anos até ter envolvimento com ele, que se enforcou no hospício pouco tempo depois. Ainda teve um relacionamento com um rapaz, lhe dando abrigo que deveria ser por uma noite, mas passando três anos com ele, sempre enfrentando com ironia e bom humor mesmo as situações mais perigosas e cruéis. Quentin viveu muito e bem até 1999, para ver a ascensão de uma juventude homossexual com uma forma de viver que ele mesmo transgrediu muitas décadas antes, até morrer aos 90 anos, deixando inspirações como a música An Englishman In New York, de Sting, do álbum  Nothing Like The Sun de 1987, lançado um ano depois do encontro entre o cantor e essa figura tão curiosa em seu apartamento em Nova York.

No filme Vida Nua, baseado na autobiografia de Quentin lançada em 1968,  John Hurt, pelo qual ganhou o Bafta de Melhor Ator em um filme para tv, se materializa em Quentin e consegue passar todas as nuances do personagem, misturando humor ácido e drama na mesma medida enquanto se veste de mulher com o cabelo cor de fogo. Ele faz um trabalho tão maiusculo, perfeito e preciso que some sem deixar vestígios do ator, sem que caia na caricatura ou na pieguice e sem que o filme, de tom tragicômico, apele para chocar o espectador. Mesmo nas situações mais absurdas - como na sequência em que se apresenta para o exército com o cabelo grande tingido e precisa fazer os exames - Hurt consegue passar inteligência e humanidade ao personagem sem que caia no humor escrachado. É dele o mérito por engolir o filme e dar um viés tão fascinante e real a um personagem que por vezes parece saído de um filme de fantasia. 

Há quem reclame que o filme é curto, leve, passe muito rápido, que haja um excesso de gente que aparentemente não tem importância na trama. Mas traz ainda uma narração OFF que incorpora dicas hilárias de coisas que Quentin aprendeu ao levar a vida do seu jeito - e sobreviver para voltar para casa com segurança depois de um dia de trabalho, às vezes da pior forma - compondo um painel completo dessa figura homossexual icônica da Inglaterra do século XX. 

Cotação: 4/5

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