terça-feira, 29 de julho de 2014

Brubaker - 1980



Por Jason

A primeira meia hora de Brubaker traz Robert Redford como um detento encaminhado para uma prisão sulista de Wakefield, no Arkansas. Homem de poucas palavras, não se sabe quem é ele, sequer o crime cometeu. Ele testemunha a violência dentro do presídio, em que os presos recebem como penas chicotadas, são violentados de todas as formas, estuprados e vivem em condições desumanas. A estrutura do lugar está desabando e presos perigosos homicidas são mantidos juntos com presos de crimes considerados leves ou reincidentes por furto. Gente que já pagou sua dívida ainda é mantido preso e torturado.

O que todos acabam sabendo - incluindo o espectador surpreso - é que ele se chama Henry Brubaker e é, na verdade, o novo diretor do presídio (!). Brubaker se disfarçou de prisioneiro para descobrir de dentro o que está acontecendo com a prisão. Já no cargo de diretor, ele tenta mudar a política do lugar, mas descobre haver uma série de pessoas inescrupulosas corroendo o sistema carcerário, incluindo a comunidade, que suga do presídio e se beneficia em cima dele. Do agente que mora de graça dentro da propriedade do presídio, passando pela comida dos presos que não chega até eles e é mantida nas mãos dos agentes, chegando ao próprio governador e os agentes que vendem até atendimento médico, a cadeia é uma instituição absurdamente degenerada e corrupta.  

Brubaker tenta fazer uma reforma geral na prisão, separando presos mais perigosos daqueles que podem demonstrar confiança, procurando fazer com que trabalhem e produzam sua própria comida através de agricultura e pecuária, mas acaba sofrendo resistência de ambos os lados. O problema maior acontece quando um preso, que está lá desde a Segunda Guerra e fabricava caixões - e cuja pena já está vencida faz tempo -, mostra o quanto foi espancado e torturado por matar acidentalmente seu irmão com uma pedrada. Esse preso aproveita a deixa e explica que aqueles presos que não interessavam mais eram mortos e colocados em valas em um ponto do campo. O total desses presos assassinados poderia chegar a duzentos cadáveres. Os políticos tentam bloquear o diretor e impedir que isso seja descoberto e vire um escândalo, mas Brubaker trata o assunto como uma cruzada pessoal depois que o preso é assassinado e segue até o fim, escavando até encontrar os corpos e jogando a merda no ventilador. 

Robert Redford traz o vigor necessário para o papel título e em boa caracterização se encontra Yaphet Kotto (de Alien O oitavo passageiro), como um prisioneiro que acaba cuidando dos outros, contesta as ideias de Brubaker no começo mas acaba percebendo que ele tem razão ao final. E Jane Alexander (de Kramer vs Kramer e Regras da vida), que caminha tanto dos lados dos interesses políticos quanto do próprio Brubaker, tentando ser mediadora em uma situação de confronto entre os dois lados destinada a dar errado para ambos. O elenco de apoio que interpreta os presos é coeso e toda a técnica do filme (fotografia, cenários, etc) tem bom resultado para a época em que foi realizado. O filme ainda tem Morgan Freeman, que surge rapidamente em participação rápida, como um preso completamente surtado que precisou ser isolado e que força Brubaker a revelar o seu disfarce em uma situação perigosa. 

A discussão do tema levantado pelo filme mostra que ele ainda continua atual, afinal o filme é baseado nas memórias de Thomas O. Murton, no seu esforço para mudar o sistema de administração de presídios dos Estados Unidos, entre 1967 e 1968. As ideias de Thomas em transformar os presos como força produtiva para a comunidade, produzindo aquilo que consomem e vendendo para que possam conquistar seus próprios benefícios provaram-se certeiras em muitos casos e permanecem até hoje como um modelo que funciona em muitas prisões norte-americanas. Ao final do filme, Brubaker não conseguiu derrubar a corrupção, mas deixou uma semente na consciência dos presos sobre a capacidade de se regenerar, sobre lealdade e principalmente respeito.  

Cotação: 5/5

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