sexta-feira, 4 de julho de 2014

Nascido em 4 de Julho - 1989



Por Jason

Hoje, dia 4 de julho, dia da independência dos EUA, não poderíamos deixar de lembrar deste que é um dos melhores filmes da carreira de Tom Cruise e de Oliver Stone, Nascido em 4 de julho. Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Tom Cruise), Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Roteiro Adaptado e vencedor nas categorias Melhor Diretor e Melhor Edição, o brilhante trabalho de Stone começa mostrando a história de um americano comum, Ron Kovic, o Ronnie, uma criança esperta que passava o tempo brincando de soldado e tinha um futuro brilhante pela frente. Na escola, já adolescente, era dedicado nos treinamentos de esporte, tinha uma família convencional católica romana (a mãe irlandesa era uma neurótica religiosa que proibia o menino de ver revistas masculinas, o pai, um croata, era relapso e sem pulso) e era apaixonado por uma garota como a maioria dos meninos da sua idade.

A vida de Ronnie mudaria para sempre quando ele se alistou como fuzileiro naval e foi convocado para a Guerra do Vietnã. Ele foi baleado em primeiro lugar no pé direito, que desintegrou a parte traseira de seu calcanhar, e em seguida, no ombro direito, sofrendo um colapso pulmonar e uma lesão medular que o deixou paralisado do peito para baixo. O primeiro fuzileiro que tentou salvá-lo foi baleado no coração e morreu em seguida. Outro conseguiu salvá-lo (Ronnie ficou sabendo anos mais tarde que este segundo soldado morreu na guerra).  É a partir daí que sua vida desce ladeira abaixo. Depois de uma temporada se recuperando no hospital que mais parece um calvário, Ronnie recebe a notícia que ficará para o resto da vida preso em uma cadeira de rodas. Tenta mudar o diagnóstico, luta para voltar a andar mas não consegue e seus esforços começam a virar frustração. Retornar para casa parece não ajudar em nada: os pais viram partir para a guerra um jovem saudável e receberam de volta metade dele. Ronnie não é mais o mesmo e a família não sabe como lidar com isso. Sai de casa e vai para o México, onde encontra Charlie (Willem Dafoe, em outra boa caracterização) e conclui sua descida ao inferno, antes de voltar a lutar pela paz e contra os conflitos armados que vitimaram tantos jovens no país e no mundo. 

Oliver Stone tem aqui um dos pontos altos de sua carreira, assim como um jovem Tom Cruise, que se dedica de corpo e alma ao seu personagem - e é até surpreendente que sua performance até hoje ainda seja notavelmente dedicada e atual, sem dúvidas uma das melhores de sua carreira e da safra dos anos 80. Cruise consegue captar a essência de um jovem destruído por um falso ideal de heroísmo e patriotismo, que carrega o peso de ter atirado e matado por engano um companheiro militar, que vai para a guerra acreditando que se tornará um herói nacional quando na verdade está a caminho de sua própria desgraça - e a população não liga a mínima nem para os soldados para lá enviados e nem para a guerra em si, o que só alimenta mais a sua decepção. Consegue também passar sua transformação, de um soldado desiludido para um ativista pela paz que foi preso várias vezes por lutar contra a guerra.

Paralelo a isso, Stone aperta a ferida até sangrar e joga a merda no ventilador: mostra que a Guerra está nas entranhas das famílias norte americanas desde sempre, seja nas brincadeiras do jovem Ronnie, seja no desfile militar, no qual há um fascínio pela vida dos soldados que atinge em cheio os jovens, que parecem não ter consciência do quão perigoso é um conflito armado nem o discernimento de que pior do que morrer em uma Guerra é sobreviver a ela. Critica a futilidade do conflito, o descaso do governo com aqueles que voltam do conflito, a ilusão da propaganda militar e o patriotismo: em determinado momento, o jovem Ronnie afirma em uma conversa com o seu pai que não se importa se tiver que morrer pelo país, como se fosse algo banal ou como se estivesse sob efeito de uma lavagem cerebral. Stone, como em Platoon, expõe as mazelas da Guerra, seja na vida dos inimigos, ao mostrar crianças e civis destroçados atingidos numa vila do Vietnã; seja  na vida íntima dos soldados, jovens despreparados mandados para o front a mando de engravatados sentados em seus escritórios pomposos, para defender seus interesses políticos, destruindo a inocência, os sonhos e a vida de milhares pessoas. Filma a guerra como um inferno, tingindo de fotografia avermelhada, e o hospital onde os feridos são mandados como uma mistura de limbo e hospício, obscuro e fétido, onde não recebem tratamento decente nem verbas do governo para serem cuidados e os funcionários precisam se virar como podem.

Tudo isso ornamentado pela trilha sonora pomposa de John Williams, por uma parte técnica ainda impecável e por atuações excelentes, que incluem ainda Caroline Kava, como a mãe de Ronnie, que  traz um dos melhores momentos do filme, quando discute com o filho na cadeira de rodas e o expulsa de casa, chamando atenção dos vizinhos. O filme ainda tem Lili Taylor, Tom Sizemore e Tom Berenger, Kyra Sedgwick e Stephen Baldwin, todos em breves mas eficientes participações. Melhor impossível.

Cotação: 5/5

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