sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Eu matei minha mãe - 2009





Por Jason

Neste filme canadense acompanhamos o jovem Hubert, de dezesseis anos e a relação desastrosa e complicada que tem com sua mãe Chantale. Hubert é filho de pai de separados, namora um usuário de maconha cuja mãe sabe de sua sexualidade, seu pai é ausente e sua mãe é neurótica. Chantale aliás, já tem problemas oriundos de sua família, cuja mãe era maníaco depressiva e vivia no hospital antes de bater as botas.



Os dois passam o tempo todo brigando e discutindo por coisas mais fúteis possíveis. Berram um com o outro e por pouco não partem para a agressão física - ambos caminham numa linha tênue, prestes a romper e se matarem. Chantale vive em estado de estresse, incapaz de perceber os anseios do filho e de manter um diálogo que não termine em briga. Ela não tem controle algum sobre o filho. De um lado, ela tem os seus motivos - tinha que acordar cedo para se virar nos trinta e criar o menino por conta própria, com a mãe doente e sem a presença de um pai que aqui mais atrapalha do que ajuda. É uma pessoa frustrada e emocionalmente quebrada por ter que abdicar de muita coisa para cuidar de uma criança. Não se sente também reconhecida por isso e pior - não sabe também reconhecer os esforços do menino. 

Por outro lado, o próprio Hubert não se ajuda e é o reflexo do que foi ser mimado demais - como ele próprio diz, as amigas da mãe tratavam ele como se ele fosse uma criança especial. Mas Hubert tem sinais de que sofre de carência de atenção, agindo como uma criança de quatro anos de idade sempre tentando tirar a mãe do sério. Nota-se por exemplo, que quando ele decide sair de casa, querendo alugar um apartamento para viver longe e a mãe diz que sim, ele comemora e age como uma criança feliz que ganhou um brinquedo que queria. Ao receber não, ele protesta, grita e reclama como uma criança emburrada e revoltada.  É o saldo de ter uma mãe que não soube e não sabe se impor e não é decidida nem determinada, deixando sempre uma brecha para um ataque do menino.

Chantale demonstra ter sido uma mãe que não soube ser mãe. Hubert é o filho que não sabe ser filho. Ambos são igualmente insuportáveis. Ambos se odeiam mas também se amam por algum vínculo ou razão desconhecida. Ambos não conseguem romper a relação. Soma-se a isso o fato de que ele idealiza uma mãe perfeita como a do namorado, altamente compreensiva, que namora homens da idade do filho e é moderna, um contraste com Chantale, que vive em um ambiente arcaico - é só dar uma olhada e comparar a decoração da casa delas, das roupas que elas usam, da relação mãe e filho. entrada de uma professora que também tinha uma relação turbulenta com o pai e fazia dez anos que não se falavam acalma o menino, faz com que ele se encontre e se identifique. Mas Chantale acaba complicando ainda mais as coisas: vai atrás do pai ausente do filho e eles mandam o menino para um colégio interno, mesmo com ele gritando que estaria longe das coisas que ele mais gosta e que lhe fazem se sentir bem. 

Joga contra o filme passagens que em nada acrescentam nem fazem a trama andar, quando imagens religiosas ou não cruzam a tela  ou aquelas em que o menino fala para a câmera sobre o relacionamento com a sua mãe, apenas para remexer desnecessariamente o que já se vê em atuação. Outro ponto que passa batido é a sua sexualidade, que surge só de repente como um problema quando o menino é espancado na escola ou quando foge das investidas de um rapaz pelo namorado "perfeito" (é assim que o roteiro o trata). 

A força do filme não está só na relação turbulenta, mas na interpretação de Anne Dorval, como Chantale. Dorval consegue passar amor, ódio, sofrimento, ignorância, piração e um sentimento de pena, culpa e punição na mesma medida. Seu ataque no telefone com o diretor do internato é tão trágico quanto cômico. Um degrau abaixo está o próprio diretor e protagonista, o Xavier Dolan, que escreveu a história quando tinha dezesseis anos baseado em sua própria vida. Dolan faz um menino histérico, que beira uma caricatura e que é um pé no saco, uma reação a personalidade problemática da mãe. É o resultado de não ter tomado uma bela de uma surra para aprender a respeitar, a crescer e a ouvir "não". 

Cotação: 3/5

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