terça-feira, 26 de agosto de 2014

Havaí - 2013



Por Jason



O filme começa praticamente sem diálogo, mostrando o jovem Martin procurando por trabalho enquanto se aloja num canto no meio do mato, desabrigado. Martin acaba procurando um emprego temporário na casa de Eugênio que acaba se lembrando dele de quando eram crianças. Eugênio oferece-lhe trabalho para o verão com a condição de que ele vá embora ao final, já que a casa pertence aos tios dele e ele está passando um tempo escrevendo. Martin está desamparado: a mãe morreu e ele foi morar no Uruguai, com a avó. A avó faleceu e a casa em que vivia foi tomada por um tio de consideração. De volta, ele não teve onde morar, morando no meio dos matos enquanto junta dinheiro para ir para Buenos Aires. Aos poucos, Eugênio começa a querer algo mais do que uma simples relação de empregador e empregado e passa a seduzir Martin.

Martin demora a contar a verdade sobre sua condição. Ao descobrir, Eugênio o leva para a casa, para dar abrigo, morando num quartinho dos fundos da casa em troca de serviços de jardineiro, limpador de piscina, etc. Desde o momento que os dois se encontram, contudo, uma tensão sexual corre entre eles, de maneira que se sabe quais as intenções de Eugênio, mas nunca se entende claramente o que se passa na cabeça de Martin. Eugênio oferece roupas para que o rapaz se troque em sua frente, invade o banheiro enquanto o rapaz está tomando banho, chama para nadar na piscina, etc, mas Martin joga o tempo todo na defensiva, se esquivando. O espectador, por exemplo, não sabe se ele corresponderá as investidas de Eugênio. Pior, não se sabe se Martin corresponderá apenas pelo fato de estar desabrigado e precisando de ajuda e não saber da condição homossexual do outro. Esse clima sustenta todo o filme e vai culminar numa sequência depois de uma bebedeira em que os dois acabam de ressaca e dormem juntos, sem no entanto haver relação sexual. Quando Martin finalmente entende o que está se passando entre os dois, é Eugênio que se esquiva, de uma maneira inexplicável diga-se de passagem, fazendo Martin ir embora. O filme sinaliza um final triste, mas graças ao esforço de Eugênio em reverter a situação, o amor acaba unindo-os novamente. 


Os dois atores são ótimos e estão completamente à vontade nos papeis: tanto Eugênio quanto Martin são duas pessoas solitárias, que acabam descobrindo afinidades e que vivem de recordações do passado, ambos sem a coragem necessária para dar um passo adiante. O diretor escolhe um caminho diferenciado e mais difícil em relação aos filmes da mesma temática. Ao invés de apostar em um filme mais apelativo ou onde impera nudez e sexo, ele investe no desenvolvimento dos dois personagens e na relação complicada e mal resolvida que brota deles. Porque amar, para Havaí, não é tarefa fácil, mesmo para duas pessoas isoladas que se amam mas não tem coragem para expressar o que sentem.

Havaí, contudo, tem ritmo vagaroso, para poucos gostos. É centrado apenas nas figuras centrais dos dois e na relação que nasce do encontro. Sabe lá Deus para que serve um coadjuvante, que entra em cena quase no final e vai parar na casa do amigo Eugênio para tomar um banho de piscina (é só isso que ele faz...), reforçando o que o espectador já sabia - que Eugênio é homossexual assumido, mas não se assumiu para Martin - e depois o homem desaparece sem fazer falta alguma (!). O começo do filme, sem diálogos, demora a engrenar e a trilha sonora, estranha e enfadonha, não aparece muito - mas quando aparece é desnecessariamente (às vezes até atrapalhando). Porém, nada supera ao final a sensibilidade da sequência em que se explica o título do filme, quando se percebe que o que impede duas pessoas de se amarem, muitas vezes, não é o mundo em volta delas - e sim, elas mesmas.

Cotação: 3,5/5

Preste atenção: no significado do comentário de Martin sobre "abacaxis".

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