sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Michael - 2011



Por Jason

O filme austríaco Michael já abre com um prólogo dando um soco na cara do espectador. Michael, um cidadão acima de qualquer suspeita, chega em casa e prepara um jantar, deixando tudo arrumado como se esperasse uma visita. Até que de dentro de um quarto escuro do porão ele tira uma criança, um menino de dez anos de idade. Após o jantar, Michael o leva de volta para o quarto, onde violenta o garoto. Depois do ato, limpa seu pênis como se nada tivesse acontecido, e no dia seguinte vai trabalhar como qualquer outra pessoa - ele é corretor de seguros e será promovido. Ao retornar para casa diariamente, Michael repete o infeliz ritual sem demonstração de qualquer pena ou remorso.

Para deixar o menino longe dos olhos dos curiosos, Michael o mantém escondido, em sua casa completamente fechada com janelas lacradas para que ninguém descubra a presença do garoto. Para se ter uma ideia do quão doentio ele é, ele pensou em todos os detalhes: forrou as paredes para evitar que os vizinhos pudessem escutar os sons da criança, cobriu as janelas com um sistema de persianas para impedir que o menino seja visto e possa transitar pela casa, sai de casa com o menino coberto dentro do carro; mantém a porta do quarto, no porão sem janelas trancada por fora, etc. O máximo de liberdade que o menino violentado e abusado incessantemente possui são passeios em lugares distantes e rápidos para não chamar atenção. Quando o menino adoece, sua preocupação passa ser a de se livrar do garoto, salvo porque Michael acaba sofrendo um inesperado acidente de carro. 

Mas Michael quer mais. É um pedófilo, que caça as suas vítimas indefesas escolhendo as mais vulneráveis. Sai para assediar mais crianças e quase consegue fazer mais uma vítima para fazer companhia ao menino solitário - a criança é salva pelo pai na última hora. Sua crueldade não se limita aos abusos sexuais com a criança: ele sai com amigos e larga o menino sozinho no cativeiro como se a criança fosse um animal. As cartas que o menino escreve para a família são guardadas, para que Michael sustente a mentira para o garoto de que a família dele não quer vê-lo, fazendo uma pressão psicológica para que o garoto aceite aquela situação e não resista. Michael só não contava com o fato de que o menino já estava cansado dos maus tratos, passando a reagir de todas as formas possíveis, até conseguir atacá-lo com água fervente em uma tentativa frustrada de fuga, que vai resultar em uma situação totalmente imprevisível e um final em aberto para deixar uma grande interrogação na cabeça do espectador: depois de tudo o que foi visto, o que aconteceu com o garoto afinal?

A direção é seca, no melhor estilo Michael Haneke. Não por acaso, o diretor Markus Schleinzer trabalhou como diretor de casting para Haneke. Não há arrombo dramático: tudo é frio como as paisagens em que Michael vai esquiar com os amigos e há uma sensação de desolação e solidão tanto para a vítima (isolada em um quarto do porão) quanto para o pedófilo (que não consegue se enturmar). Em contrapartida, tudo é filmado como um procedimento, um processo que se repete diariamente, calculado e milimetricamente desenhado como a mente de Michael: Michael violenta o menino sempre no mesmo período, assiste televisão da mesma forma, controla o acesso de informação do garoto, as saídas e entradas do porão, seguindo rituais constantes e previsíveis. É a imprevisibilidade da criança - afinal, apesar de ele se comportar como se aceitasse a condição no começo, ainda é uma criança - e da vida (a personagem que por pouco não descobre seu segredo ao entrar na casa dele e é tirada de lá debaixo de tapas, dentre outras situações) que faz com que ele saia dos trilhos. 

É da ideia de que há normalidade naquilo que se vê na tela que nasce o horror do filme. E sem a dupla de atores principais o efeito não seria possível. Michael Fuith, o ator que interpreta o maníaco, impressiona com a frieza e a normalidade com a qual maltrata o menino, tratando a situação como banal. Ao ver o menino trabalhando em atividades domésticas, se excita e o chama para uma sessão de sexo como se ali não houvesse uma relação paternal, mas a de um casal (numa cena incômoda, aliás). David Rauchenberger, a criança, é um achado e tanto. Apesar de executar as tarefas de Michael e demonstrar incômoda frieza, mostra traços de resistência, um fio de esperança em suas cartas para os pais, briga, luta e consegue armar contra o molestador. É impossível não torcer por ele e não sentir vontade de entrar no filme e acabar com o maníaco e o impacto do filme não seria possível sem a química dos dois.

O filme tem alguns deslizes notáveis, como o fato de que ao ser atacado e não conseguir enxergar, Michael tenta dirigir (?!). Nada se sabe do destino da conhecida que invadiu sua casa e foi escorraçada de lá debaixo de tapa. E para deleite do espectador mais sádico, nada como ver cenas de humor negro, como Michael se ferrando ao tentar esquiar, broxando ao tentar fazer sexo com uma mulher que acabara de conhecer ou tendo sua cara queimada com água fervente. Tudo isso só poderia resultar num filme no mínimo perturbador.

Cotação: 4/5

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