quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Meu querido companheiro - 1989


Por Jason

"Meu querido companheiro" se inicia com a década de 80, quando os primeiros casos relatados de AIDS começavam a pipocar nos hospitais americanos e nos jornais. A doença inicialmente era tratada como um câncer - o New York Times alertaria para 41 casos de uma doença desconhecida, com sintomas que variavam de portador para portador. Os homossexuais, naquele momento, pela falta de informações mais detalhadas, deram pouca importância para ela. 


A partir daí, o filme então percorre a vida de casais homossexuais da época, incluindo o personal trainer Willy (Campbell Scott) e o advogado Fuzzy (Stephen Caffrey). Os dois se conheceram numa praia muito procurada pelo público gay da época, quando Willy acompanhava um grupo de amigos que incluíam um herdeiro rico David (Bruce Davison), seu namorado Sean (Mark Lamos) - um escritor e roteirista de tv -, e John (Dermot Mulroney). Sob o efeito de sexo e drogas fáceis, a maior parte dos homossexuais que mantiveram relações naquele lugar vai sucumbindo rapidamente com o avanço da doença - a exceção é justamente Willy e Fuzzy, que acabam indo morar juntos e levam uma vida mais reservada. 

O problema é que a primeira vítima é John, que é diagnosticado com uma pneumonia, o que desperta logo a atenção de David para o fato de que outros dentro do grupo podem ter sido infectados. À medida que a situação se complica, Willy não consegue assimilar os fatos e a doença começa a mexer não só com ele, que entra em paranoia, mas também a desfazer sua união com seu parceiro, já que ambos tem medo de pegar a doença. Paralelo a isso, há uma subtrama, com um ator de televisão que ganha um bom papel e um bom contrato, mas seu parceiro adoece e ele é jogado de escanteio da produção, até ser tirado por completo. Todos acabam formando um grupo de ajuda aos doentes, a maneira encontrada de encarar a AIDS.   

O filme foi um dos primeiros a abordar o tema AIDS e ter uma boa distribuição, de uma maneira séria e objetiva - é um filme seco, que não apela para dramalhões nem cenas de sexo, porque concentra todo o drama no fantasma da doença, que, assassina implacável, ronda os personagens como se escolhesse uma próxima vítima, sem que eles nada possam fazer. Seu maior pecado talvez seja o excesso de gente - quem entra em cena parece que está ali determinado a morrer - e os saltos no tempo que o filme dá, que tira de cena personagens que poderiam render mais. Ao final, a mensagem de esperança é sugada pela realidade desoladora. 

O elenco é competente, mas ninguém, tirando Mary Louise Parker, que faz a maluca irmã de Fuzzy, decolou. Campbell Scott, filho do lendário George C Scott, só retornaria recentemente aos holofotes com os novos filmes do Homem Aranha (ele é o pai de Peter Parker em O espetacular Homem Aranha). O destaque vai para Bruce Davison, que ganhou Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante e foi indicado ao Oscar, cuja carreira mesmo assim naufragou. É dele uma das cenas mais impactantes do filme, quando cuida do namorado doente e lhe dá forças para morrer. Seu personagem David reage de maneira passiva aos acontecimentos em sua volta, principalmente quando o namorado desconfia que está doente e que pode ter sido contaminado por ele, ao que ele simplesmente ignora, como se aceitasse plenamente o destino a qual está condenado. Ele parece ter a incômoda clareza de que a doença acabou com os sonhos, com a vida, com o amor e uma série de possibilidades. E o mais assustador para o espectador é perceber que, de certa forma, ao se observar o estrago que a doença continua fazendo ao mundo, ele tinha razão. 

Cotação: 4/5

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