segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Os últimos passos de um homem - 1995




Por Jason

Os últimos passos de um homem traz Sean Penn interpretando um condenado no corredor da morte, Matthew Poncelet, e Susan Sarandon como a freira Helen, que é chamada por ele para uma visita no presídio. Nela, Poncelet pede ajuda para se livrar da morte iminente, afirmando que não cometeu o crime pelo qual foi condenado, embora assuma que estava presente na cena do crime e que tenha ajudado o parceiro assassino. O crime bárbaro chocou a sociedade: um casal de adolescentes foi assassinado com tiros na nuca, sendo que a menina foi estuprada, teve sua vagina rasgada, foi apunhalada 17 vezes e por fim, recebeu dois tiros na cabeça. 


O Estado condenou Poncelet a morte, mas o seu parceiro criminoso não. A questão aqui não é o crime em si, mas o fato de que Poncelet pode não ter tido um julgamento considerado justo por ter se responsabilizado pela dívida sozinho - o advogado de defesa fornecido pelo Estado não era um especialista criminal e sim financeiro. Negada a apelação, a freira passa a ser seu guia espiritual até a hora da morte, buscando sua confissão no crime, uma situação sempre concedida para um padre mas que foi modificada devido ao pedido do condenado. Paralelo a isso, a freira descobre mais sobre a vida de todos os envolvidos. O pai de Poncelet morreu quando ele tinha catorze anos e não era muito presente, induzindo-o ao alcoolismo quando ainda tinha doze anos. A mãe cuidava de duas crianças que eram humilhadas pela população em virtude do crime, cuidava de um filho adolescente, e só fazia chorar se perguntando onde foi que errou. Poncelet também era pai, mas não via a filha desde quando ela tinha dois anos de idade.

Helen acaba também envolvida com os familiares que perderam os filhos devido ao crime bárbaro e que querem o condenado morto. Eles não conseguem enxergar a situação para além do crime e Helen é a pessoa que joga luz a um debate que vem atravessando décadas, a necessidade ou não de pena de morte na sociedade e seus efeitos nocivos a ela. De um lado, aqueles que apoiam a pena de morte. Do outro, aqueles que condenam. Para uma parte da sociedade, a pena não resolve o problema social nem as estatísticas de crimes. Para outra, é a maneira pela qual a família daqueles que perderam seus entes queridos nas mãos de criminosos encontram alívio ao saberem que estes delinquentes estão sendo exterminados. Mas é um alívio, como racionaliza a freira, que nasce do ódio e da vingança. Dito isso, a direção e o roteiro do filme optam por um distanciamento importante, por mostrar os dois lados da mesma moeda. Se a família das vítimas está sofrendo com a morte dos filhos, a família do criminoso também.

O filme é baseado no livro de Helen Prejean, a freira interpretada por Sarandon, que conta suas experiências sendo guia espiritual de condenados como Matthew Poncelet, personagem baseado em Elmo Patrick Sonnier e em seu irmão James, acusados de estuprarem e matarem Loretta Ann Bourque e de matarem seu namorado David LeBlanc em novembro de 1977. No filme, Helen e uma equipe buscam retirar o condenado da pena de morte, mas não conseguem. Poncelet confessa enfim que estuprou a menina e matou o namorado dela a sangue frio, sendo executado em seguida por injeção letal. Na vida real, Sonnier foi executado numa cadeira elétrica. 

Premiada com o Oscar de Melhor Atriz, Susan Sarandon transmite paz e levanta questionamentos a respeito da condenação na mesma medida. Por Deus ou por pessoalmente acreditar numa saída para o ódio, ela enfrenta os olhares de reprovação da sociedade e das famílias das vítimas, para fazer com que o criminoso encontre sua redenção e peça seu perdão. Sean Penn traz aqui outra ótima caracterização como o criminoso arrependido - quando os dois estão juntos em cena, a química entre eles é perfeita e o filme estoura em emoção, mesmo em interpretações contidas. É um desses casos de acerto do cinema cujas interpretações sustentam um filme. O filme tem os seus deslizes, como flashs que surgem em meio a trama sem necessidade para reforçar a crueza do crime. Uma única reconstituição seria o bastante e os depoimentos das famílias já seriam dramáticos o suficiente. Traz também R. Lee Ermey, como pai de uma das vítimas, em boa atuação, e Jack Black, entrando mudo e saindo calado como um dos irmãos de Poncelet. Peter Sarsgaard faz o rapaz assassinado no flashback, sem muito o que fazer. 

O filme ainda teve indicações ao Oscar nas categorias de melhor diretor, para Tim Robbins, na época marido de Susan, que nunca se mostrou um ator excepcional mas demonstrou ter mão habilidosa para direção; melhor ator (Sean Penn) e melhor canção original (Dead Man Walking), todas enfim, merecidas.

Cotação: 4/5

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