terça-feira, 21 de outubro de 2014

Stalker - 1979








Por Jason

Em 1979, Andrei Tarkovski já tinha em seu currículo o incompreendido e monótono clássico de ficção Solaris, lançado 7 anos antes, sobre um planeta aquoso que se conecta e se comunica com os humanos em sua órbita (e que ganharia uma refilmagem com George Clooney e direção de Steven Soderbergh em 2002). Então, o diretor se saiu com esse filme, que é considerado um dos melhores dele, mas traz uma pitada de superestimação - Stalker. Pelo menos é essa a sensação que o espectador pode ter ao seu final - se conseguir chegar até lá.

A trama é mínima e abre com um letreiro, que informa para o espectador apenas o que ele deve saber: “O que foi isto? A queda de um meteorito? Uma visita de seres do abismo cósmico? Fosse como fosse, no nosso pequeno país, surgiu o milagre dos milagres, a Zona. Enviamos tropas para lá. Não voltaram. Cercamos a Zona com cordões policiais e fizemos bem… Aliás, não sei… (Da entrevista do Professor Walles – Prêmio Nobel).” Dentro da Zona havia uma vila, que desapareceu. Diz a lenda que nela há o Quarto, que seria um lugar onde todos os desejos são realizados. Mas a zona é traiçoeira, mudando as regras das armadilhas sempre que uma pessoa lá entra. Temendo que a população invada o local à procura do Quarto, o exército a isola, mas eles próprios não têm coragem de entrar nela. Apenas alguns poucos, chamados Stalkers, têm habilidade suficiente para entrar e sobreviver lá dentro. 

Um dia, um escritor famoso e um físico contratam um Stalker para os guiarem ao Quarto, sem exatamente saber o que procuram. Os três homens, então, entram nessa zona militarizada. Num jipe velho, eles seguem vagões de trem com carregamentos para a zona.  O território é estranho e desolado e o Stalker continua avisando dos perigos. Ser um Stalker, como um dos homens salienta, é quase uma vocação. Ele conhece a zona como ninguém e sabe que muitos entraram e não retornaram. Ao ser questionado se as pessoas que entram são más e punidas e os bons conseguem escapar, ele explica que a zona escolhe aqueles que na verdade estão desesperançosos. Uma vez na porta do quarto, os três começam uma confusão, com o professor querendo mandar tudo pelos ares para provar que tudo não passa de uma alienação. Filosofia, ciência e religião se misturam em razão e emoção, com suas divagações e nos três personagens, em imagens emblemáticas como a do personagem e sua coroa de espinhos. Ao final, é a figura da filha deficiente de Stalker, num ato sobrenatural, que levanta a maior questão - e a maior resposta - para o que foi visto em duas horas e meia de filme.

O filme se beneficia de seu visual. O lugar, além de todo o mistério em torno dele, parece por si só assustador: filmado em locais abandonados e nevoentos, há um quê de estética expressionista alemã, já que até os primeiros 37 minutos, tudo é filmado em sépia e preto e branco, o que dá ainda mais um tom fúnebre, apocalíptico e medonho. A partir daí, quando os três conseguem invadir o território, o filme ganha cores e, nos delírios e sonhos dos personagens, o filme volta a ser tratado em preto e branco - quase desbotando para o sépia novamente. É como se tudo na zona fosse mais vivo do que na realidade vivida pelos personagens - e nesse sentido, o próprio quarto pode ser uma metáfora para Deus e o pobre Stalker, a imagem de Cristo, conduzindo aquelas pessoas tão desesperançosas para a luz pelos caminhos tortuosos da vida. Se Stalker tem essa bela fotografia, uma interessante cenografia e todo um contexto filosófico em seu roteiro, isso acaba se diluindo em sua montagem.

A culpa pode ser da própria direção do finado Andrei, que, dizem, morreu em decorrência desse filme e que, como em toda a sua obra, faz um filme parado, melancólico, incrivelmente arrastado e em que, em muitos momentos de longos planos e longas sequências sem diálogos, simplesmente nada - ou nada importante - acontece. Enquanto o primeiro ato é mais movimentado, o segundo acaba distanciando o espectador e o último ato, quando os três personagens se desentendem, parece durar mais do que o próprio filme. Uma versão com meia hora a menos seria muito bem vinda e não teria impacto negativo algum no saldo final desse filme que é estranho, difícil e monótono, mas ainda assim instigante - de fato, um filme para poucos.

Cotação: 3/5

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