quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Tina - 1993







Por Jason

O prólogo de Tina já mostra que desde pequena, Anna Mae já se destacava no coral da igreja com sua voz e seu swing. Filha de pais problemáticos e lar disfuncional, a mãe saiu de casa levando sua irmã Aline e deixando-a com a avó. Anos mais tarde, as duas se reencontram, mas a relação já estava fraturada. Numa noite, a irmã a leva para um baile e lá Anna conhece Ike Turner. Enquanto Ike canta, convida as mulheres para cantarem suas músicas ao microfone e as mulheres enlouquecem. Quando Anna assume o microfone, Ike percebe que ela tem uma voz poderosa e a convida para cantar na banda.

Até o topo do sucesso, Anna precisa enfrentar a mãe, que quer que ela seja uma enfermeira para ter um salário e sustentar a casa, e o próprio Ike, que é mulherengo e está se relacionando com uma mulher que já demonstra estar desequilibrada. No começo, quando passa a se relacionar com Anna, ele demonstra ser carinhoso e afetuoso com ela. O sucesso o leva a adotar o nome de Ike e Tina Turner na banda e é justamente nesse ponto que Ike começa a revelar sua outra faceta. Ele a explora ao ponto de deixá-la em exaustão e doente de anemia depois de ela acabar de dar a luz o filho do casal. Insiste para que ela cante mesmo estando exausta só para ganhar dinheiro e se refere a ela como sendo uma mulher problemática e cheia de desculpas. Os insultos partem daí para outro estágio, o da violência física.

Quando percebe que não está tendo sucesso em suas criações, Ike começa a espancar Tina, a esta altura já cuidando dos dois outros filhos dele com outra mulher. Para cada vez que é espancada, Tina tenta tapar o sol com a peneira, procurando sempre uma desculpa para justificar as agressões do marido que, ficam claro, já não eram novidades para mais ninguém. A situação piora quando Tina, dona de uma voz incrível, marcante e talento natural para os palcos, começa a se destacar mais do que a dupla e Ike começa a se envolver com drogas. Tina é estuprada dentro do próprio casamento até que, farta de toda a violência, decide fugir do marido e pedir a separação. No divórcio, Tina deixa tudo para trás, exigindo apenas ficar com o nome artístico. Ela vai ao fundo do poço, se apresentando em hotéis e casas noturnas de procedência duvidosa até que, anos depois, com a ajuda de um agente e produtor, retorna triunfante ao topo com a música de sucesso Whats Love Got To Do With It, topo de onde nunca mais saiu para virar uma lenda viva da música americana.

Biografar uma lenda aliás não é tarefa fácil e é o tipo de coisa que só uma atriz com muito potencial conseguiria fazer. Desde o momento em que entra na tela, a corajosa e dedicada Angela Bassett é Tina Turner, no papel de sua carreira. Angela capta todas as nuances (preste atenção no trabalho de voz e, quando está nos palcos, na linguagem corporal da atriz), e replica todos os detalhes possíveis da biografada, apesar de as duas serem tão diferentes fisicamente. Ângela também consegue passar toda a dimensão da personalidade de Tina, de uma mulher ingênua, para uma esposa sofrida que foi humilhada, espancada, estuprada e traída, até se tornar a Rainha do Rock e de alguém que acaba tendo a consciência que precisa se libertar da influência do marido para dar uma virada em sua vida. Outras biografias surgiram com o passar dos anos de outras estrelas da música, mas a atuação dela e a entrega total para esse filme continuam impressionando. Para o filme, a própria Tina regravou canções que Angela dubla na tela com toda competência, de maneira que é impossível dissociar a imagem da atriz da cantora. Tamanha dedicação rendeu a ela uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz (merecia ganhar) e lhe deu o Globo de Ouro de Melhor Atriz. 

Em outra grande caracterização está Laurence Fishbourne como Ike. A química com Angela e a interação entre os dois é perfeita. O ator consegue transpor não só a genialidade de Ike - e ele era sim genial em suas composições misturando soul, rock, rhythm and blues e outros estilos - mas também o lado problemático dele, envolvido com drogas e mulheres. Para se ter uma ideia de como funcionava a cabeça de Ike (falecido em 2007 vítima de overdose de cocaína), ele chegou a declarar que batia, sim, em Tina, mas porque "ela precisava". O personagem em si caminha numa linha próxima a caricatura, mas é a habilidade do ator que lhe transmite a veracidade necessária e o impede de cair num vilão cartunesco, principalmente pelo fato de que quando o filme foi lançado, os protagonistas se encontravam ainda muito vivos na memória popular.

O filme peca em alguns momentos, principalmente na transição de Tina para uma adepta do budismo e em personagens coadjuvantes que teriam importância na vida da biografada, como a própria mãe e a amiga Jackie, que a conduziu para a religião. Há uma transição acelerada de tempo ao som de Proud Mary que subtrai algumas importantes passagens da biografada - sem contar que a regravação de Let's stay together, feita um ano antes de What's Love Got to Do with It, e que serviu como single para seu retorno antes do lançamento do seu disco solo, não aparece. O filme, baseado no livro Eu, Tina, biografia da cantora, ainda brinda o espectador com a trilha sonora excelente e apesar de simples, mostra como foi possível realizar uma cinebiografia competente que faz jus a vida e a obra da eterna rainha do rock.

Cotação: 4,5/5

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...