terça-feira, 11 de novembro de 2014

Acusados - 1988




Por Jason

Em Acusados, Jodie Foster é Sarah Tobias, uma mulher que, após brigar com o namorado numa noite, vai para um bar na beira da estrada onde trabalha uma amiga para jogar conversa fora. Depois de ingerir alguma bebida, paquerar e de dançar sensualmente, Sarah é atacada e estuprada por três homens - incluindo um rapaz com quem estava flertando - sobre uma máquina de jogo. Ao ser socorrida, a promotora pública Kathryn Murphy (Kelly McGillis) decide investigar sobre o acontecido. Um dos garotos, um universitário que pediu socorro pelo telefone sem se identificar, pode ser a única testemunha sobre o ocorrido. Durante o ato, um grupo de homens assistiu a tudo e incentivou o crime, nada fazendo para impedi-lo.

No começo, a promotora Kathryn tenta levar os rapazes a justiça por crime de estupro, mas pressionada pela defesa e pelo próprio escritório onde trabalha, sabendo que será difícil ganhar a causa pelo histórico da mulher, acaba ignorando os pedidos de Sara e consegue um acordo para levá-los a cadeia por crime de lesão corporal -, o que desagrada a vítima, já que a pena era menor. Sara tenta com a promotoria uma condenação maior pelo estupro e, repensando o caso, Kathryn tenta reverter a situação e seguir até o final, acusando os homens presentes no momento do ato de indução ao crime. Um dos problemas é a própria Sarah: ela já tinha sido fichada por porte de drogas, era uma garçonete, pobre, que tinha péssimos relacionamentos amorosos e uma péssima reputação, ao contrário dos rapazes, alguns de família rica. Também era uma pessoa difícil, com uma amiga que pouco ou nada a estava ajudando e, mesmo tentando elaborar a defesa, Kathryn percebia que Sarah não colaborava, escondendo coisas importantes para o caso. As duas vão se entendendo aos poucos, conseguem fazer com que a testemunha deponha e ao final, outros rapazes, que incentivaram, testemunharam e nada fizeram naquele momento, acabam finalmente culpados por incentivarem o crime.  

O roteiro do filme é baseado num caso real de estupro que aconteceu em 6 de março de 1983 no Bar Big Dan, em New Bedford, no estado de Massachusetts e aborda o tema com clareza e incômoda crueza. A cena mais lembrada é, claro, a do próprio ato, que traz a dimensão da violência do crime sofrido por Sarah e da postura criminosa não só dos estupradores mas também da plateia que omite seu socorro. A execução ainda é chocante e a sequência é colocada não por acaso justamente num momento decisivo do filme, no depoimento da testemunha chave, onde se torna impossível não torcer por Sarah. Nesse sentido, Jodie Foster, premiada com o Oscar pelo papel faz um trabalho excelente de entrega emocional e física para Sarah. Seu depoimento sobre o acontecido é fulminante e traz toda a carga dramática da personagem, que se vê pouco depois encurralada na sua própria ignorância quando é confrontada com os advogados de defesa dos acusados. O filme foi um dos primeiros grandes filmes de Hollywood a tratar do estupro de uma maneira tão forte e séria e Foster foi a segunda atriz a interpretar uma vítima de estupro e ganhar o Oscar com esse papel (a primeira foi Sophia Loren em Two Women). Sem ela em cena, é verdade, falta algo ao filme - é um desses casos que o trabalho da atriz se sobressai ao todo.

Ajuda a presença da então bela Kelly McGillis, cuja carreira infelizmente morreu nos anos 80. A química entre as duas é outro ponto a favor do filme. A promotora é séria, um tanto cética até mesmo sobre o ocorrido, mas que começa a se colocar no lugar da vítima e a comprar a briga ao sentir o sofrimento e a agonia de Sarah. Kathryn vivia no meio de um grupo de machistas da justiça que tratavam o caso com desdém (dentro do próprio escritório em que trabalha ela não recebeu apoio). Há uma questão nas entrelinhas que é interessante observar enquanto o filme passa: a forma como o sistema penal americano trata o caso de estupro. A vítima passa então a ser um tipo de causador do ato, já que sua conduta, a forma de se vestir e até mesmo de dançar são consideradas em juízo, como se isso desse aos homens direito de estuprar uma mulher. Independente de ter consumido drogas ou álcool ou de ter paquerado num bar, o ato foi consumado e os acusados deveriam ser punidos, mas o sistema penal incrivelmente tenta ignorar o fato, apontando o dedo de acusação para a própria vítima.

Acusados escorrega ao virar um drama de tribunal e tem os seus momentos clichês. Reparem na cena de depoimento do personagem Ken e recordem de outros filmes de tribunais até mais recentes, como Terra Fria (2005), as semelhanças na montagem são gritantes, um clichê de filme de tribunal. A relação de Sarah com o namorado é sublinhada, mas não é aprofundada, sendo que ele se tornará uma das peças importantes da acusação (o depoimento dele é citado apenas rapidamente em uma fala da promotora). Outra relação, a da família de Sarah, é sintetizada apenas num telefonema para a mãe. Os motivos pelos quais a vida de Sarah se transformou no que o espectador vê na tela escorrem pelo ralo. O que se sabe de Sarah é na verdade o que os outros dizem e o que ela diz. Sem esse suporte do roteiro para se aprofundar no psicológico do personagem e mostrar ao espectador quem é Sarah afinal, só resta a Jodie Foster fazer o impossível. E ela consegue.

Cotação: 3,5/5

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