sábado, 29 de novembro de 2014

O predestinado - 2014






Por Jason

O curioso filme australiano O predestinado traz um policial temporal, um homem que viaja no tempo para solucionar casos difíceis e que estava em um caso envolvendo um terrorista, o chamado "Detonador Sussurrante", quando foi ferido gravemente. Depois de quase morrer - ele tem seu rosto desfigurado em uma explosão, sendo praticamente trocado numa cirurgia - ele ganha o rosto de Ethan Hawke e é então dispensado das atividades. Vivendo como um dono de bar, ele recebe a visita de um estranho rapaz, John, que começa a lhe contar a sua história de vida. John era, na verdade, uma menina, Jane. E essa é só a primeira das inúmeras surpresas que essa ficção vai trazer dali em diante.



Jane nasceu hermafrodita e foi abandonada ainda recém nascida na porta de um orfanato. Era muito inteligente e forte, mas muito discriminada pelas outras crianças. Os interesses em física, matemática e astronomia a levam a ser requisitada por uma agência espacial de fachada. O problema é que ela acaba conhecendo um rapaz e engravida. Após o parto, os médicos precisam, graças aos ferimentos da cirurgia, operar Jane para que ela tenha apenas o sexo masculino. A filha dela é sequestrada e desaparece, assim como o pai da menina. A partir daí, ela se transforma, adotando uma postura masculina. Após conhecer o agente, ele lhe diz que há como resolver toda a sua situação retornando no tempo. Os dois assim fazem, mesmo o agente sendo avisado de que as viagens no tempo podem causar psicose e demência aos viajantes quanto maior for a frequência delas. 

Ao retornarem, porém, é criado um paradoxo temporal infinito envolvendo todos eles, já que o agente encontra sua versão antiga e Jane a sua versão mulher, retornando os fatos como eles ocorreram (John se envolve com Jane, sendo eles a mesma pessoa e ambos tem um filho, uma menina, que é a própria Jane). Daí em diante, uma série de revelações e reviravoltas acontecerão e que vão culminar em um final no mínimo incrível e inesperado. Basta dizer que O predestinado é na verdade a história de uma única pessoa e suas várias versões se encontrando em lapsos temporais.

O filme é baseado no conto "All you zombies", publicado em Março de 1959, que mostra um jovem que é ao mesmo tempo sua própria mãe e seu próprio pai graças a um paradoxo temporal. É feito com poucos recursos e poucos atores, lembra um tanto Looper e mais distante, Cloud Atlas (no sentido de que as ações do passado refletem no presente e refletirão no futuro, onde tudo está interligado como numa colcha de retalhos), mas funciona melhor do que estes e principalmente a partir do segundo ato. Não é por ser independente aliás, que não se destaque em matéria técnica, como a cenografia: os três tempos são mostrados de formas, cores e luzes diferenciadas, o que ajuda no entendimento do tempo para o espectador - a corporação que convida Jane, por exemplo, na década de 60, parece saída de uma capa de revista de ficção da época. O futuro é sombrio e o ambiente da agência pequeno mas bem iluminado. Observa-se também a mudança de tom na fotografia, do pastel ao mais sombrio, e nos figurinos, com um resultado muito interessante ao auxiliar a narrativa. 

E se Ethan aqui dá o seu recado, é Sarah Snook a responsável por carregar o filme nas costas. Suas duas versões, uma feminina e masculina, são completamente diferentes entre si, mesmo que guardem ali e acolá os mesmos lapsos de personalidade. É como se John, sua versão masculina, resultasse num tipo de evolução de Jane, o que é uma revelação, em se tratando de uma atriz pouco conhecida e que tem aqui a oportunidade de se mostrar capaz e talentosa. Sarah mostra total domínio de cena. Deve-se, contudo, descontar os deslizes, já que o filme demora quase uma hora a engrenar e Jane perde muito tempo explicando seu passado em flashbacks (quando o filme deveria apenas retornar no tempo e deixar a narração OFF de lado para o próprio espectador ir tirando suas conclusões e conhecendo a sua história de vida). No terceiro ato, o roteiro acaba sendo reduzido e conclui de maneira rápida, mas sem perder o impacto e a genialidade. 

Vale a pena conferir. 

Cotação: 3,5/5

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