terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A mosca - 1986




Por Jason

Em 1986, David Cronemberg provava que remakes nem sempre resultam em filmes inferiores aos originais. A mosca é uma refilmagem de A mosca da cabeça branca, de 1958, que por sua vez foi baseado em um conto publicado um ano antes na Playboy americana. No original, após testar um invento de teletransporte, um cientista acaba tendo seu DNA fundido ao de uma mosca, tendo a cabeça e o braço dela como resultado final do processo. O remake faz o filme original parecer desenho animado.



Aqui, a situação consegue ser mais aterrorizante e nada melhor do que o cineasta das bizarrices para lidar com um projeto dessa característica. O filme mostra o cientista Seth Brundle, que está trabalhando num projeto de teletransporte. Ele acaba conhecendo e se envolvendo com a jornalista Veronica Quaife, com quem se envolve amorosamente. Seth explica a Veronica que o teletransporte só funciona com objetos inanimados, mas que sua intenção é teletransportar seres vivos.  Ele tenta com um macaco e a ação dá errada porque o computador não consegue interpretar e recombinar as células vivas. Depois de fazer com que o computador interprete, Seth, numa noite de bebedeira e de ciumes por Veronica, acaba servindo de cobaia. Não sabe ele que uma mosca também foi teletransportada, unindo seu DNA ao dele. 

Ao sair do teletransporte, o cientista começa a demonstrar alterações comportamentais, psicológicas e físicas que são incomuns a ele e a qualquer ser humano. Sua pele começa a mudar na mesma proporção que ele deteriora. No começo, Seth não consegue compreender o que houve, mas à medida que a transformação avança, seu resquício de humanidade lhe alerta para o fato de que ele está caminhando para a morte inexorável. Para aumentar ainda mais a tragédia, Veronica está grávida do cientista e decide fazer um aborto, mas é surpreendida por ele, que planeja um ato final ainda pior: fazer com que ela e o bebê que carrega se unam a ele em um só corpo! 

O mote é clichê: Seth é só mais um inventor vítima de sua invenção e de suas próprias ambições de fazer o invento que revolucionaria a humanidade, como tantos outros. Mas o que difere aqui é a sua abordagem. E nesse sentido, Jeff Goldblum interpreta com perfeição o doutor, principalmente do segundo ato em diante, com seus olhos grandes e inquietos e seus tiques atormentados, enquanto duela para manter sua sanidade e, porque não, sua humanidade. Vestígios dela se encontram por debaixo da maquiagem pesada, quando ele ouve de Veronica que ela decide matar a criança, ao passo que ele implora que não faça isso para manter o que ainda resta de humano nele. Geena Davis, de mulher um tanto desinteressada, também faz com que sua personagem sofra uma transformação, dividida pela paixão por Seth, pelo incisivo ex namorado (numa traminha meio capenga), e por encarar aquela coisa em que Seth se transformou - sem falar no filho que ela carrega dele. Se o estofo dramático não convence muito, é no resto que o filme se garante.

Claro que a produção envelheceu em diversos setores, a começar pela direção de cenários, com o ateliê onde o cientista trabalha e seu computador datado com interface pobre. Os efeitos especiais não fugiram à regra dos filmes da mesma década - é impossível não rir com os protéticos e efeitos robotizados do estágio final da criatura, sem falar nos dublês vestidos com a maquiagem e as roupas e os cabelos, que nos fazem lembrar que estamos num filme dos anos 80. O que não envelhece, contudo, e que continua impressionando até hoje é a premiada maquiagem vencedora do Oscar. 

O filme passa todo o horror da transformação de Seth, dos primeiros pelos e feridas que surgem, as erosões e ulceras da pele até sua completa alteração física. Feridas purulentas pipocam, pelos brotam de todo o corpo, unhas se soltam das mãos, num festival de bizarrices e de nojeiras de cair o queixo. Cronemberg não esconde nada e abre a ferida de pus na cara do espectador, como se ele pudesse até sentir o odor porcalhão da coisa em que o cientista se transformou. Nada de deixar tudo no escuro ou esconder o personagem, tudo é exposto sem nenhum remorso. Quando se acredita que toda a sujeira se acabou, vem um vômito de imundícies e a orelha de Seth se descola. Pedaços dele, como dentes e cabelo, vão se soltando e ficando pelo caminho e Seth vai recolhendo e guardando como suvenir. Num delírio de Veronica, ela tem um pesadelo em que dá a luz uma larva de mosca (cena esta, aliás, que deve ter inspirado outras produções - quem não se lembra de Elisabeth Shaw parindo uma larva em Prometheus que atire a primeira pedra). Ecos de metamorfose, ainda mais dark e sombrio, de Kafka, estouram impiedosamente na tela e culminam na pele do homem se desfazendo e deixando transparecer o monstro por detrás dela. 

É Cronenberg, em um de seus melhores momentos e o resultado não poderia ser mais interessante: mais insano que isso, impossível. 

Cotação: 3,5/5

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