sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O abutre - 2014





Por Jason

Em O abutre, Jake Gylenhaal é Lou Bloom, um sujeito que vive de pequenos roubos e de escapar da polícia por seus furtos, sem nenhum futuro na vida. Um dia ele presencia um acidente que é gravado de perto pelo cinegrafista Joe Loder (Bill Paxton) e vê ali uma oportunidade de ganhar dinheiro, filmando os desastres que acontecem durante a noite na cidade e vendendo seus vídeos para uma emissora de televisão interessada em toda a miséria. A emissora é representada por Nina Romina (Rene Russo), que acaba firmando um acordo com Lou já que seus vídeos são crus e se diferenciam dos outros porque são excessivamente incisivos, o que pode alavancar audiência. 


Lou acompanha as frequências policiais para captar onde os crimes estão acontecendo e não respeita os policiais muito menos as vítimas, invadindo casas e áreas proibidas para gravar suas preciosas imagens e até mesmo arriscando sua vida por elas. Para ajudá-lo, ele contrata os serviços de um rapaz, cujo pecado é a burrice, e entra na competição com Joe com tanta obsessão que acaba sabotando o carro deste apenas para acabar com ele. O ápice desse trabalho está no momento em que Lou presencia um homicídio em uma casa, chegando ao mesmo tempo em que os assassinos estavam fugindo do local do crime. Lou invade a casa, depois persegue os assassinos, criando uma "cena" para a sua câmera, mesmo que para isso signifique a morte de inocentes que em nada tem a ver com sua obsessão e problemas posteriores com a polícia.

O roteiro é eficiente em mostrar o lado B da mídia, a qual estamos acostumados a acompanhar diariamente em programas que exploram a miséria de vítimas de tragédias. O espectador acompanha o ponto de vista de Lou e de sua câmera e o filme transforma assim o público não em vítima mas em seu parceiro, e nada mais apropriado que o título em português, já que Lou e seu parceiro se comportam como abutres revirando a carniça. Onde existe assassinato, atropelamento, acidente, sangue e morte, Lou está lá com sua câmera, mesmo sendo ignorado pelas pessoas ou comprando briga com elas. Se Lou e seu trabalho existem, contudo, é porque há um mercado sedento por eles e o filme acaba questionando a ética e moral não só do trabalho mas da mídia que alimenta esse mercado. 

O filme é a estreia de Dan Gilroy que também assina o roteiro. Gilroy é roteirista de Legado Bourne e consegue manter o ritmo do filme do começo ao fim. Ajuda e muito que Jake faz um bom trabalho na pele do insano Lou. Magro e com cara de quem usa constantemente drogas para ficar ligado o tempo todo, seu personagem beira a psicopatia, já que se torna um obcecado por tragédia, ignorando a segurança de todos em prol de suas imagens. Rene Russo, apesar de competente e boa atriz, não tem muito o que fazer e isso vale para Bill Paxton, com pouco tempo de cena. 

Além de escorregar nesses personagens que entram e saem da vida de Lou sem muita profundidade, a produção falha em não trazer estofo dramático - o responsável por isso, que seria o parceiro de Lou na empreitada e que tem destino trágico, não funciona. Tecnicamente, o filme é bem feito, mas é duro suportar as escolhas de James Newton Howard para a trilha, que parece solta e não combinar muitas vezes com o que se vê na tela. O filme não mostra também o outro lado, não se aprofunda naqueles que consomem a tragédia, o público, igualmente sedento como Lou. O que não tira o brilho da estreia acima da média do diretor e da performance de Jake, que tem aqui um dos seus mais dedicados trabalhos.

Cotação: 3,5/5

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