quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Um olhar do paraíso - 2009





Por Jason

Várias coisas incomodam no brega Um olhar do paraíso e não se trata da trama central e sim das escolhas desastrosas feitas por Peter Jackson para levar aos cinemas a adaptação do romance de Alice Sebold, The lovely bones. Não se trata também da história ocorrida em 6 de dezembro de 1973, quando Susie Salmon, de 14 anos, é assassinada por seu vizinho, George Harvey, um assassino em série de garotas e mulheres, dentro de um quarto subterrâneo construído sob um milharal. Seu corpo é esquartejado e colocado dentro de um cofre que, ao perceber que seu disfarce de vizinho acima de qualquer suspeita é descoberto, se encarrega de despachar num aterro de ferro velho. Após a morte de Susie, inconformados, sua irmã e seu pai começaram a desconfiar do vizinho e a procurar provas para incriminá-lo enquanto a alma da menina perambula num tipo de limbo interminável até o assunto de fantasma inacabado ser resolvido. 


Apesar da bela fotografia e da boa trilha de Brian Eno, o filme já começa escorregando pela escolha do elenco, em especial de Mark Wahlberg, completamente fora do tom como o pai da menina, interpretada por Saoirse Ronan. Mark não tem química em cena com sua parceira Rachel Weisz muito menos estofo dramático para segurar um drama desse calibre com ela, que por sua vez parece estar atuando sozinha. Ronan, aliás, talentosa, fica completamente perdida quando o filme ingressa no terreno dos efeitos especiais, como se fosse mal dirigida. Sobra para Susan Sarandon a tarefa ingrata de ser o alívio cômico como a avó de Susie, que tenta fazer as coisas andarem como pode para a família após o acontecimento enquanto a mãe da menina afunda em seu luto. 

Há coisas piores: um romance terrível da falecida com o garoto-porta que não se desenrola, ficando no terreno da pieguice. A menina médium sensitiva, que percebe a presença de Susie, pouco tem a fazer na trama a não ser servir de veículo para um beijo da menina com seu pretendente numa cena um tanto constrangedora. Como sempre dá para piorar, o filme vai para o fundo do poço quando a alma da menina Holly, mais uma vítima do maníaco, aparece para dizer que Susie morreu (oi?) e ainda não chegou no paraíso, que precisa deixar tudo para trás e seguir em frente num acesso de breguice desses de cair o queixo. E a pobre alma da menina, sem um papel e um lápis para desenhar para a lerda da Susie, precisa ficar repetindo isso praticamente em TODAS as cenas que aparece. 

Junte a isso o fato de Jackson usar uma montagem que parece saída de um filme de Freddy Kruegger alternando cenários das vítimas em um resultado que beira o risível em sequências com efeitos visuais que nem sempre funcionam e aquele aspecto barato de filme de Super Cine no melhor estilo da cafonice de Amor além da vida e se tem uma dimensão do desastre. Falta assim, melhor sutileza na adaptação e maior subjetividade. O que não falta, por exemplo, é câmera lenta fora de momento, como quando Susie está correndo na praia do além em slow motion. A solução usada para matar o psicopata é tão trash que quase joga o trabalho de Tucci no lixo.

Aliás, Stanley Tucci, como o psicopata, se esforça para compor um personagem que prima pela meticulosidade como planeja o crime. Para ajudá-lo, o diretor Peter Jackson mantém a câmera próxima de suas mãos uma boa parte do tempo, e quando se afasta, recua ao ponto de não mostrar o seu rosto, deixando-o como uma sombra e incógnita na vida daquelas pessoas. Quando a menina está prestes a ser assassinada, Jackson imprime tensão na sequência dentro do buraco que o assassino armou para pegá-la. Tirando a sequência em que Susie encontra as vítimas ao som de "Song to the siren", do This Mortal Coil, é talvez um dos poucos acertos da produção, porque ao menos o diretor consegue lhe dar apoio para sufocar o espectador com as manias do psicopata e causar alguma tensão. Pelo esforço, Tucci recebeu indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Em vão. O destino ao fracasso dessa bomba já estava selado.

Cotação: 1/5

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