sábado, 17 de janeiro de 2015

Sniper Americano - 2014






Por Jason

Filmes que nos levam a guerra contra o terrorismo acabaram se popularizando após os atentados de 11 de setembro, fazendo com que Hollywood se aproveite cada vez mais desse momento histórico atual. Talvez por fazer parte dessa história recente, esse tipo de filme ainda não conseguiu atingir uma maturidade dramática. A fórmula de todos eles parece a mesma: aquela fotografia árida, patriotada americana, pessoas reais que fazem um diferencial aqui e ali transformadas em heróis modernos, mas facilmente esquecíveis. É diferente, por exemplo, quando notamos a lista excepcional de filmes inesquecíveis sobre a Segunda Guerra Mundial ou o Vietnã. Quando assistimos um filme sobre guerra ao terrorismo, que já parecem fazer parte de um sub gênero cinematográfico, a sensação é de que estamos vendo uma continuação do outro. Foi assim com Guerra ao terror, A hora mais escura e é assim com Sniper Americano.


A trama começa com um dilema moral. O sniper americano do título, Chris Kyle, está com seu rifle apontado para uma criança que está correndo com uma bomba para armar em direção ao exército americano, que se aproxima. Antes que ele dê um tiro e acabe com ela, o filme retorna para sua infância, quando descobrimos que Chris já tinha habilidades com caça desde pequeno, incentivado por seu pai que não queria que ele e seu irmão virassem ovelhas nem lobos, mas sim "cães pastores", aqueles que enfrentariam os lobos e protegeriam as ovelhas indefesas. Rapidamente, o filme dá um salto no tempo, e Chris cresce como um cowboy, um sujeito um tanto problemático, até que resolve se alistar como um fuzileiro, passa pelos treinamentos e, no momento pós 11 de setembro, é convocado para lutar contra os terroristas. 

O sentimento patriota já havia brotado em Chris desde pequeno e poderia ser resumido nessa única cena, mas o filme insiste nessa tecla, é claro, e necessita reafirmar isso a cada minuto, seja no diálogo de Chris a respeito de Deus, pátria e a família, seja em frisar a cada momento que ele é o atirador mais mortal que já existiu e virou lenda entre os militares norte americanos ou no final, no seu cortejo fúnebre onde pipocam por todos os lados a bandeira norte americana. Sim, para quem não conhece a sua história e este não é nenhum spoiler: Chris Kyle, a quem foi atribuído mais de cem mortes como sniper, ganhando fama de mais letal dos EUA nessa categoria, não morreria na guerra mas, ironicamente, seria assassinado por um veterano de guerra que ele estava tentando ajudar, logo depois de se ajustar a uma pacata vida civil em um rancho com sua mulher e seu casal de filhos pequenos.

Os problemas de Sniper Americano não estão, por sua vez, na vida e obra do biografado, que poderia dar uma dessas produções de encher os olhos de lágrimas no espectador. Eles brotam principalmente do roteiro adaptado e da frieza e falta de estofo dramático com que ele é conduzido. Chris é uma figura de vídeo game, um sujeito sem profundidade e essa densidade dramática, aliás, é artigo de luxo para o filme, que tem só uma ou duas cenas dignas de nota, quando um dos terroristas assassina uma criança, filho de um informante dos americanos, usando uma furadeira. É a única cena carregada de tensão. Até engrenar e se tornar um pouco interessante, o filme sofre - e faz o espectador sofrer de tédio até o final. A atriz que interpreta a esposa de Chris, Sienna Miller, é outra que joga contra o time. Péssima, toda vez que ela entra em cena, o filme afunda na mesma proporção de seu choro falso e de cenas constrangedoras, como em uma sequência em que numa montagem ela está falando ao telefone para dar a noticia do sexo do filho e Chris é atacado do outro lado da linha pelos terroristas. Para completar o combo, ela ainda protagoniza seu momento de vergonha alheia em uma cena de exame de ultrassom com uma barriga bizarra deformada tão falsa.

São apenas detalhes, poderiam dizer, mas há outros vícios impossíveis de deixar passar em branco que incomodam nesse filme de Clint Eastwood. Toda vez que um terrorista aparece em cena, um batuque da trilha sonora pipoca na tela. Os terroristas, aliás, são esteriótipos, como o assassino da furadeira ou aquele cara que amarra a bandana como um tipo de rambo iraquiano. Coadjuvantes não tem importância, são fantasmas sem nomes (ou de nomes que ninguém sequer gravou), figuras de papel, unidimensionais, sem um relacionamento e uma química entre eles que cative o espectador. Quando eles entram, não são notados, quando eles saem, o espectador não se importa, já que não se desenvolveram a ponto de despertar algum interesse

Por outro lado, não há do que se reclamar da ação. A direção de Eastwood não picota o filme como num videoclipe, há certa elegância em sua montagem e o diretor não sai por aí correndo com a câmera no meio do tiroteio, mantendo um curioso distanciamento do conflito e momentos de concentração, como sua câmera representasse a mira de um rifle. Mas é pouco. Sobre o dilema moral do começo, algum sinal? Nenhum, porque ele se diluiu na superficialidade do filme. Resta a Bradley Cooper a tarefa de carregar o filme nas costas, mas a história de Chris é pesada demais para os parcos talentos dramáticos do ator e ao invés de ele ajudar, só torna o filme mais difícil de acompanhar. 

Embora não esteja tão ruim quanto Sienna, não há sequer uma justificativa para sua indicação ao Oscar pelo filme. Cooper falha em passar ao personagem sua vulnerabilidade, a retidão do personagem e o seu drama em não se adaptar as condições de sua nova vida pós guerra, fato que é pincelado apenas em um epílogo apressado mal elaborado (olha aí o roteiro de novo...). Seu personagem demora a funcionar na tela e parece só se tornar humano ao final, quando mostra o seu lado menos papel e mais profundo - só que já é tarde demais. O filme já afundou sobre o seu peso, direto para o limbo do esquecimento.

Cotação: 2/5

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...