sábado, 31 de janeiro de 2015

Whitney - 2015




Por Jason

Os problemas de Whitney, filme sobre uma das maiores cantoras norte americanas e uma das maiores artistas de todos os tempos, já começam nos primeiros momentos. Ele mostra o encontro de Whitney Houston com o seu futuro marido, Bobby Brown, em uma apresentação musical. A opção por focar apenas nessa relação destrutiva dali em diante, que deveria ser apenas um complemento diante de tanta coisa para se mostrar sobre a vida da já lendária artista, é um dos inúmeros pontos baixos da produção. 


Não é culpa de Angela Bassett, a talentosa atriz que já interpretou Tina Turner em uma das melhores biografias musicais que já existiram e aqui faz sua estreia na direção. Bassett faz o que pode e o que não pode, tirando leite de pedra para desnudar a estrela e se embrenhar na vida pessoal de Houston, mas o problema é o roteiro do filme. Sai o mito, uma das maiores vozes de sempre, entra uma mulher aloprada e de personalidade superficial que troca de roupa a cada take como quem bebe copo d'água. A Whitney do filme parece que cai de para quedas na própria história de sua vida. Ela não tem um passado, o que é terrível do ponto de vista dramático. Uma olhada na vida da cantora e descobrimos que havia ali um material riquíssimo a ser explorado. 

Whitney, filha de Cissy Houston, prima de outra lenda, Dionne Warwick e afilhada de ninguém menos que Aretha Franklin, começou a cantar aos onze anos de idade, e em seguida servia de back vocal para cantoras como Chaka Khan. Seu primeiro álbum na década de 80 foi o mais vendido de todos os tempos para uma artista feminina em um disco de estreia. A partir daí, Whitney virou uma máquina de sucessos estrondosos, atingindo sempre o primeiro lugar nas paradas e vendendo milhares de cópias no mundo todo, até, claro, o ano de 1992, quando chegava aos cinemas "O guarda-costas". Apesar de massacrado pela crítica, o filme foi um grande sucesso nos cinemas e renderia uma trilha sonora que bateria recordes e venderia milhões de discos no mundo todo. A trilha trazia também a balada mais famosa de sua carreira, "I will always love you", uma regravação, que permaneceria por 14 semanas em primeiro lugar nas paradas de sucesso. Até ali, Whitney era uma junção perfeita de talento, beleza e sucesso e já tinha quebrado recordes de prêmios, de vendas, de bilheterias e tabus, se tornando a primeira artista feminina a estrear em primeiro lugar na Billboard e um dos primeiros artistas negros a desbravar a MTV e abrir as portas para artistas afro americanos na música de toda uma geração.

Foi no ano de 1992, no entanto, que Whitney começaria a selar o caixão de sua carreira ao se casar com o rapper Bobby Brown. Daí em diante, ela mudaria seu estilo, suas roupas, seu visual e ainda faria o bem recebido álbum "My love is your love". Mas sua vida pessoal já havia desmoronado e já começava a tomar conta da mídia, acompanhado dos problemas no casamento e do uso de drogas e de suas idas e vindas em clínicas de reabilitação que fariam sua carreira afundar. Whitney se divorciaria do marido catorze anos depois, numa tentativa de resgatar sua carreira, e faria um bom retorno, ainda que sem o brilho da estrela que um dia foi. De repente, sua morte antes dos 50 anos pegaria todos de surpresa. 

Whitney estava solitária, falida e drogada, com problemas em sua voz, problemas de relacionamento com a sua filha, fruto do casamento com Brown, e uma turnê criticada por público e por especialistas, onde não era nem sombra do que um dia tinha sido. Sofreu com anorexia, era encontrada vagando nas ruas em estado de agitação causado por drogas pesadas, em bocas de fumo e em delegacias. Acabou morta em uma banheira de hotel e essa vida de ápice e declínio da cantora daria uma produção no mínimo fascinante e excepcional. O filme, feito para a televisão, no canal Lifetime, no entanto, ignora todas as conquistas e números espetaculares dessa artista fenomenal e aposta num drama insosso digno de novela mexicana.

Por falar em novela, aliás, ele parece um capítulo de novela apressado, em que os acontecimentos vão se sucedendo sem que possamos sentir o céu e o inferno vivido por Whitney. Não é um problema de Yaya da Costa, que se esforça e se dedica como pode para dar dramaticidade e trazer realidade ao papel, o que é uma grata surpresa, dada a desconfiança que o filme sofreu e a rejeição por parte da família da biografada. Mas nem ela nem Bassett conseguem contornar coisas absurdas como o fato de que as músicas originais são covers da cantora Deborah Cox, que apesar de cantar muito bem, tem um tom de voz muito diferente e resulta em momentos constrangedores como o da apresentação final de "I will always love you". Falta, por incrível que pareça, a veia musical no filme - sim, é um filme sobre uma cantora, mas os seus maiores sucessos quase não aparecem. Segundo o filme, Whitney já se drogava antes de conhecer Bobby, mas a própria mídia e sua família admitiam que o uso de drogas como cocaína e crack vinha por influencia do marido problemático. Não existem coadjuvantes - eles são figurinhas de papel - nem dinâmica de relacionamento entre ela e a família, resumindo-se a uma sequência de discussão no anuncio do casamento. Para completar, o filme, provavelmente com a finalidade de escapar de um processo, muitas vezes transforma o marido mala suja, mulherengo, cheio de filhos, relapso e péssima influência, numa vítima da mulher drogada e desequilibrada.

Bassett chega a surpreender por seu domínio atrás das câmeras e sabe em quem deve focar no momento que o filme pede drama. Sabe também captar números musicais e dar agilidade à produção. Cenas de sexo são bem filmadas, sensuais e sem exposição, embora carregadas com uma trilha sonora porca - e o caos da vida a dois do casal é bem retratado em algumas discussões eufóricas. Mas sem mostrar sua ascensão, seu ápice e sua queda como artista, nem o seu ressurgimento e tampouco sua morte, focando apenas nesse relacionamento problemático fadado ao fracasso desde o começo, nunca nos conectamos com Whitney e nunca descobrimos quem ela realmente era. O resultado é esse: como produção para a tv, o filme deixa evidente que seria melhor aproveitado se tivesse uma Thalia como protagonista em mais um episódio de Maria do Bairro. Como biografia de um ícone, não passa de um épico desastre.


Cotação: 1,5/5

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