quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Selma - 2014




Por Jason

Na década de 60, os negros não tinham direito ao voto nos Estados Unidos, formando uma massa de milhões de pessoas que não conseguiam exercer seus direitos civis ajudando a escolher aqueles que governariam cidades, estados e o país. O pastor Martin Luther King (David Oyelowo) tenta reverter essa situação na forma de um diálogo pacifico até com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson), o qual, arrogantemente, considera não ser essa uma prioridade em seu governo. A população negra, no entanto, exige que a constituição seja respeitada, o que leva a Martin a liderar uma campanha em que os negros possam votar.

A ideia é montar uma base na cidade de Selma e marchar até Montgomery em protesto. Mas a tarefa não será fácil. Nas ruas, tudo lembra uma guerra civil, com negros sendo caçados, humilhados, espancados e assassinados por policiais. O clima é o pior possível. Em uma cena, das mais marcantes, a polícia invade um estabelecimento, espanca os negros e assassina um jovem, Jimmy. Na porta do Tribunal Eleitoral, fazem protestos parados diante dele, mas a polícia não alivia. A situação piora na primeira marcha de protestos, o chamado Domingo Sangrento em que as autoridades locais atacaram os negros, ferindo mais de quinhentas pessoas. O movimento, porém, acaba chamando atenção da mídia nacional e da população americana, que faz com que Martin convoque todos para se unirem pela causa e os simpatizantes saiam de suas cidades para se incorporarem a ela.

Produzido por Oprah Winfrey e Brad Pitt, Selma recria toda essa passagem, é vigoroso e tem boa direção, bom ritmo também, além de boa recriação de época. Coube a diretora desconhecida Ava DuVernay retratar esse importante movimento, começando com o prêmio Nobel da Paz para Martin e terminando com o discurso de Martin sobre igualdade na porta da Casa Branca. E ela o faz com responsabilidade. Claro, Selma é o tipo convencional de biografia, redonda, sem arrojo, como tantas outras que saíram no ano passado, mas não mitifica nem amplifica a figura de Martin, pelo contrário, foca na responsabilidade de seu grupo como forma de vencer os desafios impostos pela sociedade. O que impressiona é que o resultado é superior a concorrentes do ano no Oscar e o filme mesmo assim foi ignorado em categorias como direção, melhor ator, atriz e coadjuvantes. 

A atuação de David Oyelowo é realmente o ponto mais forte do filme. David, de filmes como Lincoln, O mordomo da Casa Branca, Planeta dos Macacos A origemainda não tinha a oportunidade de mostrar seu talento e aqui ele brilha. Ele É Martin Luther King, com toda a sua força e sua presença de cena, com a força do seu discurso e de suas palavras, sua entonação de voz e seu gestual. E como se Martin tivesse incorporado no ator. Sensacional. Em boa caracterização um degrau abaixo, o filme traz Carmen Ejogo (como Coretta Scott King, sua esposa), o calejado Tom Wilkinson, ótimo como de costume, e Tim Roth, outra boa adição do elenco, que interpreta o governador do estado do Alabama, um dos estados mais problemáticos e racistas. Para completar, Oprah Winfrey surge em participação, como Annie Lee Cooper, uma mulher que quer exercer o seu direito, mas é impedida, humilhada, e passa a fazer parte do movimento - o filme ainda traz Cuba Gooding Jr, Martin Sheen e Alessandro Nivola em participações rápidas. 

O roteiro ainda pincela detalhes importantes, como o fato de que governador Wallace, incompetente, e o presidente jogavam a culpa um para o outro, como se quisessem se livrar de um problema que era de todos. Escorrega ao não dar espaço para desenvolver coadjuvantes - Carmen, nesse sentido, sai perdendo. Contudo, mais indicações não fariam feio na Academia, dado o fato de que a concorrência é de médio para baixo. O Oscar, branco e machista, jogou Selma para debaixo do tapete e o ignorou, mas o espectador, contudo, não pode fazer o mesmo. Se isso acontecer, Selma só prova o que é evidente - ainda estamos socialmente atrasados, ignorantes, preconceituosos e presos a este vergonhoso passado.

Cotação: 4/5

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