terça-feira, 21 de abril de 2015

Chappie - 2015





Por Jason

Chappie é o terceiro longa-metragem de Neil Blomkamp como diretor e, de cara, ao final do filme, temos quase a certeza de que Neil vem traçando o mesmo caminho de M. Night Shyamalan: de um cineasta promissor em sua estreia a filmes que fracassam em crítica e público com roteiros que trazem premissas interessantes mas que se perdem na própria ambição. Não temos nada ainda no nível de um Fim dos Tempos - ainda bem -, mas Neil, que escreveu o roteiro junto com sua esposa Terri Tatchell (que também co-escreveu o Distrito 9) já havia começado a descer ladeira abaixo com Elysium e agora dá mais um passo para trás em sua carreira.


A premissa, como dito, é interessante como em todos os seus três filmes. Aqui, a África do Sul está afogada em criminalidade e decidiu por substituir os policiais humanos por uma frota de robôs. O criador deles, Deon (Dev Patel), quer embutir inteligência e emoção nos robôs, mas a diretora da empresa, Michele (Sigourney Weaver), desaprova a ideia. São robôs voltados para o combate a criminalidade, máquinas programadas para ações policiais, etc (e ela ignora o fato de que poderia criar uma outra linha doméstica e faturar com isso ou seja, é uma mulher sem visão alguma de negócio a frente de um grande grupo empresarial). Quando um dos robôs é baleado por um disparo de bazuca e destinado ao lixo, Deon o rouba, mas é sequestrado por uma gangue. A gangue quer o robô para armar assaltos, mas Deon acaba criando Chappie, uma criatura robótica com a mentalidade de uma criança e que precisa ser ensinado e absorver tudo do mundo ao redor.   

Alguns integrantes querem que ele se transforme em um marginal da gangue, ao passo que Deon acredita que sua criação é única. Chappie, como uma criança, precisa escolher se segue o lado bom ou ruim da vida, por não saber dissociar uma coisa da outra, sem saber se vira um good ou bad boy. Desprezado, ele é deixado ao relento pelos integrantes, caçado pelo rival de Deon, Vincent (Hugh Jackman), mas retorna ao lar dos marginais, que o ensinam a lutar, delitos como assaltar e roubar carros. Vincent, aliás, aposta num robô gigante, que funciona por comando a distância, cujo poderio militar se revelará mais tarde proporcional a facilidade com que tomba. Chappie é assim fruto do meio em que vive, e o roteiro registra a ideia de que um ser humano, no caso uma criança, ao crescer imitará as ações dos adultos que o rodeiam - ideia esta que o filme grita o tempo todo no ouvido do espectador, sem sutileza ou subjetividade alguma. 

Neil consegue criar algumas cenas interessantes. A parte em que a criatura robótica é maltratada e atiram fogo sobre ele ou o afeto que o robô desperta em seguida por um cão sem dono mostra o seu potencial. Os efeitos especiais também se defendem bem, já que tudo é realista e orgânico, mesmo ao custo de menos de 50 milhões de dólares - uma pechincha em se tratando de padrões hollywoodianos, por exemplo. Há a ação que sustenta o filme - ritmo definitivamente não é nenhum problema aqui. O problema é que nada salva a confusão que o roteiro espalha na tela. 

Tudo parece uma mistura espalhafatosa de coisas já vistas e melhor resolvidas, como Robocop (a premissa do policial robô, a visão do robô, o enorme robô militar criado por Vincent), Um robô em curto circuito (impossível não associar Chappie a ele), Matrix (transferência de consciência), a ambientação e conceitos reciclados de Distrito 9 e Elysium, do próprio diretor, dentre outros, sem atingir a eficiência de alguns deles. Temas como transferência de consciência entre humanos e máquinas se esvai rapidamente com a velocidade que chega. Sem expressão facial, o próprio Chappie depende da voz de Sharlto Copley - Chappie é fruto de captura de movimentos do ator - para funcionar e isso nem sempre acontece, de modo que pouco nos importamos com o que vai acontecendo na tela. 

Hugh Jackman parece mais robótico que as criaturas digitais do filme e com seu personagem de papel, totalmente unidimensional, não consegue render. Sigourney Weaver é relegada a aparecer a maior parte do tempo sentada numa cadeira para suas falas e sua personagem incapaz de ver possibilidades de mercado e de maior lucro com o aprimoramento de seus produtos. Ela tem poucas cenas e pouca coisa a fazer e os dois estão ali para agregar valor ao filme, mas Neil parece não saber usar nenhum dos dois a seu favor. Já Patel soa mais superficial que a própria criatura que cria, cujo visual de inteligente é dado por uma roupa social e um óculos de grau tal qual um nerd que cria a consciência e a emoção de Chappie tão simples e absurdamente quanto renomear um arquivo de Word no PC. A gangue, que traz Yo-Landi Visser e Ninja Visser, músicos e atores amadores, é péssima na tela e não funciona. O resultado é espetacularmente insosso e o filme afunda, deixando aquela sensação, quando termina, de experiência descartável. 

Chappie custou pouco, mas não arrecadou nem o dobro de seu custo, gerando prejuízo até agora para a Columbia Pictures. Tudo se torna ainda mais preocupante ao lembrarmos que Neil será a pessoa responsável por trazer o universo da série Alien para os cinemas. Há a necessidade de acompanhar seu trabalho de perto ou teremos a chance de mais um fracasso nas telas, para desespero dos fãs. Se for como seu último trabalho, o melhor a se fazer é abortar o projeto o mais rápido possível. 

Cotação: 1,5/5

3 comentários:

  1. Não vi o filme ainda, pode ser até fraco mas sinceramente , hoje em dia, é cada vez mais difícil roteiros originais e filosóficos. É somente entretenimento, ficção , fantasia, vi muita gente reclamando do elisium mas o que eu vi foi um ótimo filme de ação, com boa trilha sonora e efeitos legais. Distrito 9 foi um ótimo filme mas tooodos os clichês estavam ali tal qual os demais filmes desse e de todos os diretores. a grande sacada mesmo é como o clichê será contado.

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  2. Custo 49 arrecadação 102. Dobrou e eu acredito no Neil

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  3. Meninas, adorei a descrição das Ravennas que escrevem no blog hahaha Já as sigo no Filmow e vou passar aqui mais vezes.
    Vou dizer que achei a crítica de vocês bem embasada e bastante coerente, me mostrou vários pontos que eu não havia enxergado. Mas vou dizer que against all odds, eu gostei do filme. Achei o Chappie um desses personagens ultracarismáticos que ganham a gente no "hello" e apesar de reconhecer os buracos de roteiro e outras falhas acho um mérito e tanto ser uma história original (?) que não é adaptada de nada, toda a parte de efeitos que eu achei impressionantes e pé-no-chão, dado o orçamento; e toda a reflexão que ele provoca, mesmo não aprofundando, acho que é relevante.
    Mas parabéns, vocês são ótimas!

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