terça-feira, 5 de maio de 2015

Sr Turner - 2014





Por Jason

Joseph Mallord William Turner era filho de um barbeiro e fabricante de perucas e de uma mulher mentalmente desequilibrada, a quem recordava com muito desgosto. Desde pequeno, no entanto, ele já tinha um dom - o da pintura, já que tinha aprendido a pintar muito antes de saber escrever.  Mas não se tornaria, nem de longe, um homem fácil. No último quarto de sua vida, Turner já era um dos maiores mestres da pintura de paisagens, considerado um precursor do movimento impressionista. Mas era, também, um homem áspero, solitário, de poucos amigos, e muito rabugento. Tinha uma ex mulher e filhas a quem não dava nenhuma assistência, explorava sexualmente sua empregada, visitava bordeis, viveu trinta anos com um pai doente e mais tarde, acabaria em um relacionamento amoroso com uma senhora viúva que vivia a beira-mar.

Essa última etapa de sua vida é o mote de Mr Turner, dirigido por Mike Leigh. Aqui, o roteiro salienta o quanto em seus quadros Turner conseguia captar a humanidade diante da força e os elementos da natureza, selvagem, onde a luz era a emanação do espirito de Deus (ele definia nas cores o branco como o bom e o preto como ruim) mas ao mesmo tempo mágica, em contraste com a figura irascível do pintor. Não a toa, Turner pintaria naufrágios e mares revoltos, erupções e incêndios, que o filme parece colocar em paralelo com sua personalidade nada elegante, como a manifestação de um espirito perturbado. 

Nesse sentido, um dos maiores exemplos de seu talento seria a tela O navio negreiro, onde Turner reproduz uma cena de escravos sendo atirados ao mar junto com mortos e moribundos, diante da aproximação de um tufão. Segundo consta, Turner teria se inspirado na história do capitão do navio negreiro Zong, que havia ordenado em 1781 o lançamento de 133 escravos ao mar para que os pagamentos dos seguros pudessem ser recolhidos - o filme mostra Turner conhecendo uma história de um desembarque de escravos através de uma conversa com um conhecido. Seu estilo de pintar não tinha rédeas no momento de captar a selvageria da natureza - em determinado momento, Turner se amarrou no topo de uma embarcação para pintar uma tempestade de neve - e acabou com bronquite. Mesmo assim, não era unanimidade: alguns repudiavam suas obras. 

O filme prima principalmente pela parte técnica deslumbrante. Indicado a quatro Oscar (trilha sonora, direção de arte, figurino e fotografia), traz imagens de paisagens deslumbrantes tão bem captadas pelas pinturas de Turner. Sua recriação de época é outro ponto de destaque, com cenários e figurinos muitíssimo bem cuidados e recriados, de forma que realmente o espectador é transportado para o século XIX. Mais ainda, Leigh não poupa o espectador de cenas desagradáveis, como a que ele ataca a empregada em uma estante para manter relações sexuais. O roteiro avança até a chegada da fotografia rudimentar, um momento interessante na trama, já que a fotografia era em preto e branco, quase sépia, ameaçando a arte e o mundo de cores, que Turner tão bem representava em sua obra. 

O elenco é excelente e regular, mas é Timothy Spall que se sobressai, como um homem visivelmente sem paixão, indigesto, de feições rudimentares, de muito conhecimento artístico, mas de pouco tato, que conseguia mesmo assim reproduzir uma paixão sem limites em suas imagens. Entre um ruído de desgosto e outro, Spall, que é ator maiúsculo, consegue passar toda crueza do personagem - há quem tenha reclamado que o mostrado na tela não condizia com a real personalidade do pintor, mas não seria então culpa do ator. Também não seria de se admirar que fosse dessa forma, até pela vida que teve. Em contrapartida, o filme peca no ritmo - são duas hora e meia em que não há um ápice e meia hora a menos não comprometeria o resultado, já que em diversos momentos nada acontece na tela. A direção de Leigh é seca e o filme passa aquela sensação de que não avança nunca. Alguns personagens entram e saem e o espectador sequer sente a presença, carecendo de maior drama, como a própria morte do pai de Turner. Vale a pena, no entanto, para conhecer um pouco da vida e obra de um importante mestre da arte britânica.

Cotação: 3/5  

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