sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O quarto de Jack - 2015






Por Jason

Em O quarto de Jack, Jack (Jacob Tremblay) é um menino que acaba de completar cinco anos vivendo com a mãe Joy (Brie Larson) dentro de um quarto com uma pequena claraboia. O minúsculo cômodo tem o suficiente apenas para as necessidades básicas e a mãe vai se virando como pode para fazer os dias do menino um pouco mais felizes na medida do possível. Tudo o que o menino conhece do mundo de fora é por uma televisão e o que ele faz é sonhar com o mundo fora daquele ambiente, ajudado pelas histórias que a mãe conta e pelas coisas que ele cria, como um cachorro imaginário chamado Lucky.

À medida que o tempo vai passando, o menino vai ficando cada vez mais curioso sobre o mundo exterior - situação que piora quando ele descobre que um homem visita sua mãe todas as noites e sempre quando o menino está trancado no armário dormindo, seguindo um procedimento para evitar que os dois se encontrem. Ele não sabe, mas sua mãe fora sequestrada quando jovem e agora, anos depois, vive encarcerada naquele cativeiro, separada do mundo exterior por uma pesada porta selada de metal, ameaçada de morte pelo sequestrador, protegendo a criança de tudo e mantendo as últimas esperanças de um dia retornar para casa. Fazer com que uma criança de cinco anos, que acredita que aquele é o seu mundo, entenda a situação real é um dos mais difíceis trabalhos que essa mãe de amor incondicional enfrentará. O outro é tramar uma forma de sair de lá com a ajuda da criança e, quando finalmente conseguirem, se adaptar a esse "novo" mundo.

Os problemas desse interessante drama independente são poucos, mas tão notáveis quanto seu poder de manter o espectador preso do começo ao fim. No meio de toda a trama despenca a veterana Joan Allen como a mãe de Joy, cujo papel é importante na reabilitação dos dois - e Joan é uma atriz fenomenal, capaz de sustentar um filme facilmente sem nenhum esforço mas que é incrivelmente sub aproveitada pelo roteiro. Em alguns segundos de cena, num momento de tensão entre mãe e filha, se percebe o quanto Joan é atriz de alto calibre capaz de sobrar na tela - na mesma proporção que Brie é reduzida a uma atriz esforçada em boa atuação. Joan, no entanto, não consegue contornar a saída fácil do roteiro que se resume a contar como sua personagem sobreviveu ao que ocorreu com a filha. Não escapa também William H Macy, aqui em participação praticamente sem função, justo ele, cujo personagem não consegue aceitar a criança - e que poderia render mais. Sem esse peso que o casal poderia adicionar, o filme escorrega no terceiro ato - mais rápido que a recuperação de Joy ao ir parar no hospital. A parte pior sobrou para o ator que interpreta o sequestrador - a ingratidão do roteiro o resultou na figura mais unidimensional e perdida no filme.

O Quarto de Jack (Room) é um livro da escritora irlandesa Emma Donoghue e o mérito da adaptação cinematográfica recai, enfim, na dupla de atores principais, o jovem Jacob e Brie. Brie vai bem do desespero de estar confinada com o menino até outro desespero - o de estar fora do quarto com ele, incompreendida, infeliz e depressiva. Não é uma atuação chocante nem marcante, como já dito, mas ela é esforçada e capaz de compreender as camadas psicológicas do seu personagem que, de tão ancorada na dura realidade, desprovida de sonhos e de imaginação, acaba com a mente perturbada. Cotada para o Oscar desse ano, pode ser ainda melhor aproveitada em outras produções. A relação entre os dois é perfeita e a mensagem do filme, poderosa. Além disso, a produção tem pelo menos um momento tenso, o da fuga na metade do filme, que faz com que o espectador quase enlouqueça torcendo para que o plano, depois de muito ensaiado pelos dois, dê certo.

Já o menino Jacob, de aspecto andrógino - ele tem cabelos grandes, foi criado sem a figura paterna e o sequestrador o trata como uma menina - transmite naturalidade do começo ao fim, desde o momento em que acredita que aquele quarto é a única coisa que existe no mundo até o instante em que precisa viver fora dele, onde cada coisa precisa ser descoberta, passando por todo o estranhamento de sair pela primeira vez, a necessidade de adaptação, sua capacidade de imaginar e de sonhar um mundo só seu. Seus acessos de fúria contra a mãe são eficientes, sua compreensão do mundo redor e seus esforços para entendê-lo são reais. O filme é dele.

Cotação: 3,5/5

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