domingo, 13 de março de 2016

Jogos Vorazes - A esperança - Parte 2 - 2015




Por Jason


Contém spoilers.

A franquia Jogos Vorazes chega ao fim. Depois de nascer como uma aposta barata para os padrões de Hollywood - o primeiro filme custou 75 milhões de dólares - e virar um sucesso, servindo de veículo para transformar Jennifer Lawrence em uma estrela do cinema, a sensação ao final da quadrilogia é que algo se perdeu pelo caminho. O reflexo dessa teoria pode ter aparecido até nas bilheterias: Jogos Vorazes A esperança - Parte 2 foi o filme mais caro da quadrilogia ao custo de 160 milhões de dólares, mais que o dobro do primeiro, mas praticamente igualou sua bilheteria final. Nos EUA, público que fez o segundo filme arrecadar quase 425 milhões só em terras norte americanas, a bilheteria estancou em pouco mais de 280 milhões. 

Não quer dizer que seja um fracasso, longe disso, mas não só os especialistas, como críticos e o estúdio, baseado nas expectativas (em pesquisas, era um dos filmes mais esperados do ano) aguardavam muito mais. A produtora do filme, a Lionsgate, pode estar em maus lençóis agora, principalmente porque está sem franquias no cinema. Divergente, a outra franquia adolescente de futuro distópico criada no rastro do sucesso de Jogos Vorazes, nunca se tornou o fenômeno de crítica e público esperado e o último filme do estúdio é o terrível, caro, e fracassado Deuses do Egito. Com o último Jogos Vorazes, não é difícil entender o motivo pelo qual as expectativas podem não ter sido atendidas.

No filme, Katniss (Lawrence), o Tordo, quer que todos apontem suas armas para a Capital e o presidente Snow (Donald Sutherland), mas há obstáculos no meio do caminho - o Distrito 2 que está contra os rebeldes, a presidente Alma Coin (Julianne Moore) e Peeta (Josh Hutcherson), que está nutrindo sua raiva contra Katniss depois de ter sofrido uma lavagem cerebral. Paralelo a isso, é revelado que Coin tinha planos de resgatar Peeta da arena, e não Katniss, porque nunca gostou dela - e as intenções de Coin ao final não seriam apenas acender a rebelião que a levaria ao poder, mesmo que isso significasse a morte de Katniss. Resolvido o primeiro problema no Distrito 2, o grupo de Katniss vai para a Capital, para desarmar as armadilhas e chegar a Snow, mas a equipe é dada como morta. Snow sabia que se Katniss morresse, aos olhos da rebelião, ela se transformaria em uma mártir, o que só pioraria a sua situação. Enquanto ela estivesse viva, porém, ela iria até o fim para destruí-lo. Mas Katniss faz parte de um movimento maior, de uma trama maior bolada por Coin, que resultará ao final do filme em uma reviravolta. 

A parte boa de Jogos Vorazes sempre foi o pano de fundo político, que poderia ser melhor explorado na franquia, mas que parece incrivelmente limitado. O presidente Snow é totalitário, autoritário, fascista, terrorista e ditatorial, que não reconhece limites à sua autoridade, controla à força toda a vida das pessoas ao redor - incluindo o aspecto físico desta, como a estilista Tigris, obrigada a virar um híbrido de humano e animal. Snow não se incomoda de despachar quem seja para manter o seu regime político. Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de uma propaganda política abrangente divulgada por meios de comunicação controlados pelo Estado - no caso, a mídia em Jogos Vorazes é tão abrangente e fundamental para o controle que até no momento do massacre tudo é filmado para ser usado depois contra os próprios cidadãos. A censura, a vigilância do povo e o disseminado uso do terrorismo pelo Estado transformaram o país em ruínas, já que o destino desse modelo de gestão, como a história conhece, é a guerra e o fim. A figura de Alma Coin, por exemplo, parece inspirada em Adolf Hitler subindo ao poder - com a diferença de que se trata de um ditador moderno que ascendeu ao poder em uma época de crise, atuando nos bastidores ao passo que Hitler subiu pelos meios legais para só então desconstruir toda a nação. Ao final do filme, o destino de Coin acaba nas mãos de Katniss mas é Snow que recebe do povo aquilo que sempre mereceu - uma ideia de que todo poder emana do povo transformada em uma gravura para o público adolescente pensar, mesmo que por alguns momentos, e esses esforços são louváveis. 

O que não dá é passar em branco algumas coisas gritantes no filme e aquela sensação amarga do que ele poderia ter sido, mas não foi. Os efeitos especiais são competentes, a direção é segura e o filme tem boas sequências de ação, mas traz os clichês a rodo. O aparelho Holo que os rebeldes carregam nada mais é do que uma versão do Motion Tracker de Aliens O resgate, que funciona como um sonar mostrando os perigos adiante do grupo. Parece ter saído do sucesso de James Cameron a sequência nos esgotos cobertos de água, com a diferença que aqui as criaturas aliens são zumbis ETs sem rosto e olhos, de pele albina, com acabamento que uma superprodução pode ter. Prova mais do que tudo, porém, que o filme de 1986, com sua estética, foi visionário e ainda serve de base para outros. Katniss, contudo, está longe de ser a decidida, bem resolvida e durona Tenente Ripley - e o filme está léguas de distância de ser um Aliens. Porque há coisas irritantes destinadas a atrapalharem a experiência de filme de ação bem conduzido. 

Katniss já deveria ter evoluído em quatro filmes, mas aqui ainda tem que se preocupar com os acessos de loucura de Peeta - o péssimo Josh Hutcherson - e a indecisão se dá ou desce para Gale (Liam Hemsworth). Personagens estão lá apenas para morrerem e o descarte de Finnick (Sam Claflin), por exemplo, é absurdo. É como se eles estivessem ali para que o espectador escolhesse qual a melhor morte gráfica - se explodido por uma bomba, se comido pelos aliens, se transformado em cinzas por um raio desintegrador das armadilhas. Nenhuma morte é sentida, o drama é subtraído pela correria e você percebe que tem algo dando errado no filme quando a morte de personagens se torna mais interessante do que a trama em si.  Gente entra e sai sem sequer dizer a que veio (Michelle Forbes, a capitã Jackson, é um dos exemplos, mas o pior são as gêmeas que estão lá apenas para morrerem). Há ainda que se aturar o plano clichê para entrar na capital, de se misturar entre os moradores que retornam para ela, e do momento mais absurdo - da morte da irmã de Katniss, que aparece de para-quedas no meio da guerra para ajudar os feridos apenas para ser despachada pelo roteiro (personagem aliás, que foi poupada do destino dos jogos pela irmã, recordemos, foi protegida por esta durante quatro filmes, apenas para que seu trabalho resulte em um esforço completamente inútil). A própria perda dela passa batida e só vai demonstrar alguma emoção aos 45 do segundo tempo.

Sobre as atuações, não há do reclamar de Jennifer Lawrence, que parece mais contida e ter encontrado o tom certo, sem o falatório e sua chatice como Mística dos XMEN nem suas expressões e caretas ou suas atuações no automático bastante repetitivas nos filmes do David Russell, o que agrada. Em paralelo, o experiente Donald Sutherland deita e rola no papel e Julianne Moore faz o que pode munida de um cabelo terrível e lentes de contatos horrorosas. O desperdício fica por conta dos outros coadjuvantes - Elizabeth Banks, Sam Claflin, Woody Harrelson, Jena Malone, Stanley Tucci, ninguém tem muito o que fazer a não ser projetar seus nomes num sucesso de bilheteria e faturarem com isso. Para Philip Seymour Hoffman, que faleceu durante as filmagens, quando estava prestes a gravar a última semana - a falta de seu personagem não seria sentida porque não há praticamente o que se fazer com ele. Como filme de ação, assim, a produção se defende bem. Mas em sua biografia nos cinemas, a heroína Katniss poderia ter se tornado, ao final, uma personagem a ser lembrada para a posteridade, na conclusão de seu destino construído a ferro e fogo. Mas ela, lembremos novamente, não é Ellen Ripley. E seu destino, como mostra o ridículo epílogo, não poderia ser mais simplório. 

Cotação: 2,5/5

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