domingo, 29 de janeiro de 2017

A chegada - 2016




Por Jason


Indicado a oito Oscars e baseado no romance de ficção científica "Story of your life", de Ted Chiang, A chegada abre com um prólogo de poucos minutos em que vemos a relação de Louise (Amy Adams) com a sua filha, seus momentos de felicidade e de tristeza que compõe o relacionamento das duas. Em seguida, a acompanhamos no trabalho, acompanhamos Louise observar um noticiário a pedido de uma de suas alunas, onde é relatado que um objeto voador não identificado aterrissou quarenta minutos de distância ao norte de uma rodovia de Montana. Pouco depois, fica constatado que mais objetos pousaram em outros locais do mundo, num total de doze. Os objetos medem pelo menos quinhentos metros de altura, semelhantes a conchas, sem um padrão de localização e sem sinal de que há vida dentro deles. 

O caos se espalha pelo mundo e dois dias depois a humanidade está enlouquecida. Os militares procuram Louise na figura de um coronel Weber (Forest Withaker) acompanhado do físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner) que vão tentar estabelecer contato com as criaturas. As criaturas são gigantes e, dentro da nave, mantém-se por trás de uma parede semelhante a um espesso vidro, como se vivessem em um aquário coberto por uma nuvem de gás. Possuem tentáculos em forma de sete pés e se comunicam por rosnados e sons guturais. Louise tenta uma comunicação visual e as criaturas respondem com símbolos. Paralelo a isso, os chineses já estão juntando forças com a Russia e quem mais tiver interesse para explodirem tudo. 

Essa primeira hora, como visto, nos remete a diversos filmes do gênero e um atolado de clichês - de O dia em que a Terra parou (tanto o original quanto sua refilmagem) até a breguice de Independence Day, passando pelo caos de Guerra dos Mundos, pela tentativa de comunicação dos homens com os aliens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e até Alien (quem se recordar da mensagem estranha interceptada pela tripulação da Nostromo verá um paralelo na forma como Louise ouve os sons das criaturas conversando), passando por conflitos políticos como os sugeridos em 2010 O ano em que faremos contato. Em um take, após os humanos entrarem na nave, Denis os revela diante da parede a espera das criaturas, tal qual os astronautas diante do desconhecido monólito negro na superfície lunar de 2001 Uma odisseia no espaço. Logo, tudo até ali soa genérico, com a diferença que o diretor Denis Villeneuve passa um belo de um verniz, recicla ideias velhas e precisa colocar uma trilha sonora rosnando no pé do ouvido toda vez que as criaturas aparecem. 

É a partir daí porém, que Louise começa a ter visões de sua filha e a experiência de contato com as criaturas começa a mexer com ela, o que mais tarde resultará em uma revelação que perde o peso porque a sacada foi entregue momentos antes pelo roteiro. A compreensão do sistema de escrita dos heptapodes afeta a maneira como ela percebe o tempo, já que as criaturas o enxergam de uma maneira não linear. A parte interessante disso é que o filme explora as dificuldades de se manter contato em um idioma desconhecido, incluindo aí o fato de que uma palavra pode ter um sentido e uma interpretação completamente diferente - causando um problemão em sequência. Enquanto isso, o roteiro (adaptado por Eric Heisserer, o roteirista por trás do ruim Quando as luzes se apagam e pelos péssimos Premonição 5 e A coisa) vai gritando a mensagem do quanto é precioso para a humanidade o dom de se comunicar e de se unir na resolução de suas diferenças e dos problemas ("Nós não temos um líder único", diz um dos personagens, ao se referir a impossibilidade de união dos povos que estão brigando e cortando as comunicações entre si). Até Louise entender o quebra-cabeças (e entender o que se passa com ela, por consequência), o filme sacrificará o espectador em um ato arrastado que descamba para um final um tanto morno.

Tudo seria mais interessante se o filme tivesse estofo dramático. A parte técnica é boa, Denis é bom diretor e capaz, os efeitos especiais são funcionais, mas é o som (os ruídos criados pelas criaturas são bastante cuidadosos) e a fotografia que se sobressaem no composto total. Curioso perceber que A Chegada passa essa primeira hora mergulhada em clichê e tenta emocionar no ato final com uma espécie de vídeo clipe que parece saído de algum filme perdido do Terrence Malick. Se, do elenco, Amy Adams se esforça - nada contra a gritaria da internet pedindo indicação ao Oscar para a atriz, mas seu trabalho não tem nenhuma justificativa de indicação em nenhum momento diante da concorrência mais afiada -, Forest está preso no estereótipo de militar idiota e Jeremy Renner nunca convence. O casal Adams e Renner não possui química alguma na tela e o personagem dele tem a profundidade de um pires. Há quem diga que o filme lembra Interestelar. E lembra. Na superestimação.

Suporte a limitada visão clichê de mundo do roteiro, onde apenas os brancos americanos do norte e ocidentais, pavimentada na figura loira de olhos claros feito uma boneca de Amy Adams, salvam o dia primeiro, enquanto ao negro é relegada a figura de personagem truculento ignorante - e nem estamos falando ainda dos problemáticos do oriente, representados pelos russos e pela radical China, ou do povo "marginalizado" da América do Sul que numa pichação pede ajuda aos ingleses. Encaixe isso na imagem de um país que elegeu Trump como presidente, que tem como um dos objetivos de seu mandato construir um muro (seja físico, moral, ético, financeiro ou político) ao invés de se comunicar com outras nacionalidades na resolução dos problemas que afligem diversos países, e o pano de fundo do filme com a visão de exaltação dos EUA fica mais ridículo. Ridícula também é a resolução de toda a confusão através de um simples telefonema da personagem de Adams para o general chinês apelando para o drama pessoal. Como visto, como ficção,A chegada é interessante e se defende bem. Daí para o filme que apregoaram, porém, há anos luz de distância até ele.

Cotação: 3/5

2 comentários:

  1. fui ver achando q era O FILME, decepção pura. td culpa do Hype.

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  2. O povo tava rasgando elogios. Mas realmente quando vi um filme é uma salada d todos os clichês d ficcao possiveis... fraquinho

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